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Mais de 50 praias, 766 espécies marinhas e areia naturalmente radioativa no litoral: cidade brasileira conhecida como “Cidade Saúde” atraiu até Garrincha, ídolo da Seleção e do Botafogo, virou destino de quem busca alívio para dores e intriga pesquisadores após estudos apontarem menor incidência de câncer de mama

Escrito por Ana Alice
Publicado em 04/06/2026 às 22:33
Atualizado em 04/06/2026 às 22:38
Assista o vídeoGuarapari reúne areias monazíticas, 50 praias, biodiversidade marinha e o navio Victory 8B, recife artificial no ES. (Imagem: Ilustrativa)
Guarapari reúne areias monazíticas, 50 praias, biodiversidade marinha e o navio Victory 8B, recife artificial no ES. (Imagem: Ilustrativa)
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No litoral do Espírito Santo, Guarapari reúne areias monazíticas, biodiversidade marinha reconhecida por lei, dezenas de praias e naufrágios que atraem turistas, pesquisadores e mergulhadores interessados em fenômenos naturais raros.

Guarapari, no litoral central do Espírito Santo, reúne praias urbanas, ilhas, naufrágios, recifes naturais e faixas de areia com minerais radioativos de origem natural.

Conhecida há décadas como Cidade Saúde, a cidade ficou associada às areias monazíticas da Praia da Areia Preta e de Meaípe e, em 2024, recebeu por lei o título de Capital Nacional da Biodiversidade Marinha.

Localizado a cerca de 50 quilômetros de Vitória, o município tem mais de 50 praias, segundo a Prefeitura de Guarapari, e abriga áreas procuradas por banhistas, pesquisadores e mergulhadores.

No mesmo litoral, formações geológicas raras, águas costeiras com grande variedade de espécies e estruturas submersas compõem um ambiente de interesse turístico e científico.

Areias monazíticas explicam fama de Cidade Saúde em Guarapari

A fama de Guarapari como Cidade Saúde está ligada principalmente às areias escuras encontradas em trechos específicos do litoral.

Elas são chamadas de monazíticas porque concentram monazita, mineral associado a elementos como o tório, que emite radiação natural em baixa intensidade.

Essa característica não tem relação com acidente, descarte industrial ou interferência humana.

Trata-se de um processo geológico natural, em que minerais pesados se acumularam na faixa costeira ao longo do tempo, especialmente em áreas como a Praia da Areia Preta e Meaípe.

Na Praia da Areia Preta, no Centro, a areia escura se tornou uma das marcas turísticas da cidade.

Em Meaípe, no litoral sul do município, também há concentração de areias monazíticas, o que faz da região um dos pontos mais citados em estudos e materiais institucionais sobre o tema.

A fama da areia preta também atraiu personagens conhecidos da cultura brasileira.

Em 1963, o ex-jogador Garrincha, bicampeão mundial pela seleção brasileira, esteve em Guarapari acompanhado de Elza Soares, segundo registro publicado por A Gazeta.

A vinda de Garrincha para Guarapari provocou uma correria nas pessoas para ver o craque se tratando nas areias milagrosas
Crédito: Hélio Passos/Revista O Cruzeiro - Acervo da Biblioteca Nacional
A vinda de Garrincha para Guarapari provocou uma correria nas pessoas para ver o craque se tratando nas areias milagrosas
Crédito: Hélio Passos/Revista O Cruzeiro – Acervo da Biblioteca Nacional

O atleta convivia com dores, especialmente nos joelhos, e buscou as areias monazíticas da Praia da Areia Preta em um período em que tratamentos alternativos eram mais comuns no esporte.

O episódio passou a integrar a memória associada à fama terapêutica da cidade, que ficou conhecida nacionalmente pelo apelido de Cidade Saúde.

A Prefeitura de Guarapari associa a Praia da Areia Preta à tradição das propriedades terapêuticas atribuídas à areia.

No entanto, pesquisadores e profissionais de saúde tratam o assunto com cautela, já que possíveis efeitos biológicos exigem investigação científica e não podem ser apresentados como cura.

Pesquisas da Universidade Federal do Espírito Santo analisaram a composição e os efeitos biológicos relacionados à radiação gama em areia monazítica de Meaípe.

Uma tese registrada no repositório da Ufes aponta que depósitos desse tipo em praias brasileiras podem apresentar níveis médios de radiação externa de até 20 µGy/h, além de destacar lacunas na literatura sobre os efeitos de baixas doses naturais de radiação.

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Estudos sobre as areias radioativas naturais e a saúde

A relação entre as areias de Guarapari e possíveis benefícios à saúde aparece há décadas na tradição local.

Em 2017, a Ufes divulgou resultados de uma pesquisa de dez anos conduzida pelo professor Marcos Tadeu Orlando e equipe, que investigou propriedades das areias monazíticas e sua possível relação com indicadores de saúde no município.

Segundo a divulgação da universidade, o estudo observou associação entre o ambiente local e a menor incidência per capita de câncer de mama em Guarapari, conforme dados do SUS analisados pelos pesquisadores.

A informação, porém, não permite afirmar que a exposição à areia previna ou trate a doença.

No levantamento citado pela Ufes, Guarapari registrava dois casos de câncer maligno de mama a cada 100 mil mulheres.

No mesmo recorte divulgado, Colatina aparecia com 178 casos por 100 mil e Linhares, com 148.

Esses números foram usados pelos pesquisadores para formular hipóteses, não para estabelecer uma relação direta de causa e efeito.

Outro estudo apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo investigou possíveis efeitos das areias monazíticas em pessoas com osteoartrose de joelho.

A pesquisa previa acompanhamento de voluntários, testes clínicos e comparação com grupo exposto a uma praia sem a mesma incidência de radiação.

A proposta desse trabalho era verificar se a exposição poderia reduzir dor e rigidez em pacientes com osteoartrose.

Por esse motivo, a abordagem científica difere da tradição popular: em vez de afirmar benefício antecipado, busca medir efeitos, comparar resultados e identificar limites.

Qualquer uso das areias com finalidade de saúde deve ser interpretado dentro desse contexto.

A radioatividade é natural e integra a formação geológica da região, mas a exposição não substitui diagnóstico, acompanhamento médico ou tratamento indicado por profissionais de saúde.

Capital Nacional da Biodiversidade Marinha no Espírito Santo

Além das areias monazíticas, Guarapari passou a ter reconhecimento federal pela diversidade de espécies marinhas.

Em 16 de outubro de 2024, foi sancionada a Lei nº 15.004, que concedeu ao município o título de Capital Nacional da Biodiversidade Marinha.

A lei teve origem no Projeto de Lei 4.258/2021, apresentado pela então deputada federal Dra. Soraya Manato.

Durante a tramitação, a justificativa destacou a posição das Ilhas de Guarapari em uma área de transição biogeográfica, onde ocorrem espécies associadas a ambientes tropicais e subtropicais.

Documentos legislativos também registraram comparações com regiões conhecidas pela vida marinha, como Abrolhos e Fernando de Noronha.

Segundo a justificativa apresentada no Congresso, as ilhas de Guarapari se destacavam pela diversidade de peixes recifais, o que embasou o reconhecimento oficial.

A Prefeitura de Guarapari informa que o fundo do mar local abriga mais de 766 espécies catalogadas.

Esse dado é usado em materiais institucionais ligados ao título de biodiversidade marinha e à divulgação do município como destino de mergulho, turismo ambiental e pesquisa.

Victory 8B: navio afundado virou recife artificial em Guarapari

Entre os pontos submersos associados ao turismo de mergulho está o Victory 8B, cargueiro de 89,77 metros de comprimento que foi afundado de forma controlada em 3 de julho de 2003.

A embarcação repousa entre 18 e 36 metros de profundidade, a cerca de 12 quilômetros das principais praias de Guarapari.

Antes do afundamento, o navio passou por processo de limpeza e preparação para reduzir riscos ambientais.

A estrutura passou a integrar o projeto de Recifes Artificiais Marinhos do Espírito Santo e, desde então, tornou-se um ponto usado por operadoras de mergulho.

Com o passar dos anos, o casco foi colonizado por organismos marinhos.

Algas, corais, peixes e outras espécies passaram a ocupar a estrutura, que funciona como abrigo submerso e ponto de observação para mergulhadores certificados.

O Victory 8B é apresentado em materiais turísticos e de mergulho como um dos principais recifes artificiais do país.

A região de Guarapari também reúne outros naufrágios, como o Beluccia, cargueiro britânico que afundou em 1903 perto das Ilhas Rasas após bater em um recife.

Essas estruturas submersas integram o ambiente marinho local e ajudam a explicar o interesse de mergulhadores pela costa de Guarapari.

Ao lado das ilhas e recifes naturais, os naufrágios formam áreas de abrigo e circulação de espécies.

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Praias de Guarapari unem turismo, ciência e biodiversidade

Guarapari tem praias com perfis diferentes ao longo da costa.

A Praia do Morro concentra uma orla urbanizada e costuma receber grande movimento em períodos de alta temporada.

Já a Praia das Castanheiras, no Centro, é conhecida por piscinas naturais formadas entre pedras.

No litoral sul, Bacutia e Peracanga atraem visitantes em busca de enseadas e águas mais calmas.

Meaípe, por sua vez, mantém relação com a pesca, a gastronomia local e as faixas de areia monazítica que fazem parte da história turística da cidade.

Essa combinação contribui para que Guarapari seja abordada por diferentes perspectivas.

O município aparece em roteiros de verão pelas praias, em estudos científicos pelas areias radioativas naturais, em materiais ambientais pela biodiversidade marinha e em circuitos de mergulho pelos recifes e naufrágios.

O reconhecimento como Capital Nacional da Biodiversidade Marinha também amplia a atenção sobre a conservação do litoral.

Segundo especialistas em áreas costeiras, ambientes com recifes, ilhas e naufrágios exigem monitoramento, regras de visitação e ações de educação ambiental para reduzir impactos do turismo.

No caso das areias monazíticas, o interesse turístico precisa ser separado das alegações sem comprovação clínica.

A tradição local faz parte da identidade de Guarapari, mas informações sobre saúde devem ser tratadas com base em estudos, acompanhamento profissional e limites científicos claros.

Guarapari reúne, em uma mesma área costeira, areia naturalmente radioativa, título nacional de biodiversidade, dezenas de praias e um navio afundado transformado em recife artificial.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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