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A maior tragédia climática já registrada no Sul do Brasil afundou uma vinícola familiar na lama, destruiu máquinas e produção, mas a família conseguiu transformar o prejuízo milionário em recomeço com uma edição limitada de vinhos resgatados do desastre

Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 25/04/2026 às 08:42
Atualizado em 25/04/2026 às 08:45
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Depois de três anos de enchentes, a família Argenta, de Barão, viu máquinas tomadas pela lama e prejuízo de R$ 1,5 milhão. Agora, a retomada vem com safra de 905 mil toneladas, cultivo protegido e novas uvas na Serra Gaúcha.

A lama invadiu a propriedade, cobriu máquinas e destruiu parte da produção de uma família produtora no interior do Rio Grande do Sul. O que parecia o fim de uma vinícola familiar virou o início de uma reconstrução marcada por prejuízo milionário, trabalho pesado e uma safra que reacendeu a esperança na Serra Gaúcha.

Depois da maior catástrofe climática recente do estado, viticultores da região vivem um momento de alívio. A safra de uva 2025/2026 pode chegar a 905.291 toneladas no Rio Grande do Sul, acima da média histórica, segundo a Emater/RS-Ascar.

A lama invadiu a vinícola e deixou prejuízo milionário

Em Barão, no interior do Rio Grande do Sul, a família Argenta viu a lama avançar sobre a propriedade em enchentes sucessivas. Máquinas foram cobertas, a produção em fermentação se perdeu e o prejuízo acumulado em três anos chegou a cerca de R$ 1,5 milhão.

A sequência de perdas atingiu diretamente o coração do negócio. O que estava sendo preparado para virar vinho acabou destruído pela força da água, enquanto equipamentos essenciais ficaram debaixo da lama.

Mesmo diante do cenário de destruição, a família decidiu continuar. Parte do que restou da tragédia foi transformada em produto, enquanto os produtores tentavam reorganizar a vinícola e manter a atividade viva.

Do prejuízo de R$ 1,5 milhão ao recomeço no campo

Garrafas da família Argenta, em Barão (RS), ganharam uma edição especial depois de ficarem soterradas pela lama nas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul. — Foto: Reprodução/Globo Rural

O impacto financeiro não foi pequeno. Em três anos de enchentes, a propriedade acumulou perdas que comprometeram máquinas, produção e parte da estrutura usada no trabalho diário.

A retomada exigiu mais do que coragem. A família precisou buscar saídas para continuar produzindo, recuperar o que fosse possível e enfrentar uma reconstrução que ainda deve levar anos.

A virada começou a ganhar força com a nova safra. Depois de tanta perda, a colheita acima da média trouxe fôlego para produtores que passaram meses convivendo com lama, prejuízo e incerteza.

Serra Gaúcha tenta se reerguer após a pior tragédia climática do RS

A reconstrução da família Argenta não acontece de forma isolada. A viticultura da Serra Gaúcha também foi atingida por um dos períodos mais duros da história recente do Rio Grande do Sul.

O estado tem cerca de 15 mil famílias envolvidas diretamente com o cultivo da uva, em sua maioria agricultores familiares. São aproximadamente 42,4 mil hectares plantados, com 36,6 mil hectares concentrados na Serra Gaúcha.

Essa região sustenta boa parte da cadeia de vinhos, sucos e espumantes do estado. Por isso, quando a lama atingiu propriedades rurais, o impacto foi sentido muito além das vinícolas.

Safra de 905 mil toneladas vira sinal de virada após anos de perdas

Depois de anos marcados por prejuízos, a nova safra chegou como uma resposta ao medo de que muitos produtores não conseguissem se levantar. A produção estimada pela Emater/RS-Ascar pode superar uma safra considerada normal em 5% a 10%.

O inverno de 2025 ajudou no desempenho das videiras. Em várias regiões, houve mais de 400 horas abaixo de 7,2 °C, condição importante para a brotação uniforme e a boa formação dos cachos.

Mesmo com atraso de 10 a 15 dias no começo da colheita, as primeiras análises indicaram boa qualidade das uvas recebidas pelas vinícolas. Para famílias castigadas pela lama, cada cacho colhido passou a ter peso de reconstrução.

Imagem aérea mostra bairros tomados pela água barrenta durante a tragédia climática que devastou o Rio Grande do Sul e deixou milhares de famílias cercadas pela enchente.

Tecnologia vira escudo contra o clima extremo

A reconstrução também passa por tecnologia. Produtores têm apostado no cultivo protegido, um sistema que cobre os parreirais para reduzir danos causados por chuva intensa e diminuir doenças fúngicas.

A técnica pode reduzir em até 90% a ocorrência de doenças nos frutos, além de permitir irrigação direta no solo. Mas o avanço tem um preço pesado: a implantação pode chegar a R$ 450 mil por hectare, justamente em uma região onde muitos produtores ainda tentam se reerguer após perdas milionárias.

Mesmo caro, o sistema virou uma aposta diante de um clima cada vez mais imprevisível. Para muitos agricultores, proteger a uva deixou de ser luxo e virou questão de sobrevivência.

Novas uvas entram em teste para salvar a produção

Além da cobertura dos parreirais, produtores também buscam novas variedades de uva. Em Santa Teresa, a família de João Paulo Berra mantém uma área experimental com cerca de 50 variedades europeias.

Entre elas está a Palava, uva originária da República Checa. Por ser precoce, ela ajuda a distribuir melhor a colheita e evita pressão excessiva na indústria durante os períodos de pico.

As novas variedades entraram no campo como uma tentativa de proteger a produção, escalonar a colheita e reduzir riscos em uma região cada vez mais pressionada pelo clima extremo.

Tragédia atingiu quase todo o estado

As enchentes de 2024 deixaram marcas profundas no Rio Grande do Sul. Dados oficiais da Defesa Civil apontam 478 municípios afetados, mais de 2,3 milhões de pessoas atingidas e 185 mortes confirmadas no balanço atualizado em agosto de 2025.

A água destruiu casas, estradas, lavouras, empresas e memórias. No campo, a lama não levou apenas produção: levou meses de trabalho, renda familiar e parte da segurança de quem depende diretamente da terra.

Mesmo depois da destruição, a Serra Gaúcha voltou a colher. A nova safra chegou como uma resposta direta ao medo de que muitos produtores não conseguissem se levantar depois da lama.

Tradição que corre no sangue

A viticultura na Serra Gaúcha tem raízes profundas, ligadas à chegada dos imigrantes italianos em 1875. Em muitas famílias, o cultivo da uva passou de pai para filho e virou mais do que uma atividade econômica.

Para produtores como João Paulo Berra, voltar à propriedade durante a colheita é manter viva a história da família. Mesmo trabalhando na cidade, ele retorna todos os anos para participar do ciclo que marcou gerações.

A uva, nesse pedaço do Rio Grande do Sul, não é apenas produto. É herança, identidade e sustento para milhares de famílias.

De onde vem o vinho que sobreviveu à lama

O vinho gaúcho nasce principalmente da Serra, onde o clima, o relevo e a tradição familiar moldaram uma das cadeias mais importantes do agronegócio regional.

A maior parte da produção estadual é formada por uvas americanas e híbridas, que representam cerca de 85% do total. As viníferas, usadas em vinhos finos e espumantes, ocupam entre 12% e 15% da área plantada.

Depois de máquinas cobertas pela lama, produção perdida e prejuízo milionário, a família Argenta conseguiu manter a vinícola viva. A safra forte na Serra Gaúcha virou o retrato de uma retomada que parecia impossível no auge da tragédia.

O que quase desapareceu debaixo da água agora ajuda a contar a reconstrução de uma família que decidiu seguir no campo mesmo depois de perder quase tudo.

Você acredita que uma família consegue se reerguer depois de perder produção, máquinas e acumular prejuízo milionário na lama? Comente e compartilhe essa história de reconstrução no campo.

Com informações da Globo.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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