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Genoma do açaí é sequenciado pela primeira vez e pode reduzir em até três vezes o desenvolvimento de novas cultivares

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Escrito por Andriely Medeiros de Araújo Publicado em 04/07/2026 às 17:03 Atualizado em 04/07/2026 às 17:05
Genoma do açaí foi sequenciado por pesquisadores da UFPA e da Embrapa e pode acelerar cultivares produtivas, resistentes e adaptadas à terra firme.
Genoma do açaí foi sequenciado por pesquisadores da UFPA e da Embrapa e pode acelerar cultivares produtivas, resistentes e adaptadas à terra firme. Fonte: Ronaldo Rosa/ Embrapa.
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Genoma do açaí foi sequenciado por pesquisadores da UFPA e da Embrapa e pode acelerar cultivares produtivas, resistentes e adaptadas à terra firme.

Pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) e da Embrapa Amazônia Oriental sequenciaram, pela primeira vez, o genoma do açaí, avanço que poderá encurtar o desenvolvimento de novas cultivares e facilitar a seleção de plantas mais produtivas, resistentes e ricas em antocianinas. Realizado a partir de amostras preservadas no banco genético da Embrapa, o trabalho foi publicado na revista científica Genome.

O mapeamento permite que parte da seleção, antes dependente de longos ciclos de observação no campo, comece a ser conduzida em laboratório por meio de marcadores genéticos. Segundo a pesquisadora Maria do Socorro Padilha, da Embrapa Amazônia Oriental, um processo que anteriormente exigiu 24 anos poderia ser concluído em aproximadamente oito a dez anos com o apoio dos dados atuais.

A pesquisa também esclareceu por que existem frutos roxos e verdes, conhecidos popularmente como “açaí branco”, e abriu caminhos para estudos voltados à produção de corantes naturais, antioxidantes e variedades capazes de crescer em áreas menos alagadas.

Genoma do açaí pode evitar anos de espera no campo

O desenvolvimento de uma nova cultivar exige que pesquisadores acompanhem as plantas durante anos antes de confirmar características como produção, coloração dos frutos e comportamento agronômico.

Com o sequenciamento, determinadas regiões do DNA poderão funcionar como sinais antecipados dessas características. Em vez de aguardar a palmeira crescer e produzir, as equipes poderão analisar previamente se uma planta possui genes associados aos resultados procurados.

A pesquisadora Elisa Moura, da Embrapa Amazônia Oriental e uma das autoras do artigo, explica que o açaizeiro pode levar cerca de seis anos para fornecer informações sobre produtividade e presença de antocianinas.

“Com o sequenciamento, podemos identificar regiões do genoma que funcionem como marcadores para evitar a espera de cerca de seis anos”, afirma Moura.

O método não elimina completamente as avaliações em campo. Ele permite, porém, que os pesquisadores concentrem tempo e recursos nas plantas com maior potencial identificado durante as análises genéticas.

Genoma do açaí foi sequenciado por pesquisadores da UFPA e da Embrapa e pode acelerar cultivares produtivas, resistentes e adaptadas à terra firme.
Genoma do açaí foi sequenciado por pesquisadores da UFPA e da Embrapa e pode acelerar cultivares produtivas, resistentes e adaptadas à terra firme. Fonte: Ronaldo Rosa/ Embrapa.

Primeira cultivar levou 24 anos para ser desenvolvida

Maria do Socorro Padilha, que integrou a equipe responsável pelo lançamento da primeira cultivar de açaí em 2005, comparou o novo cenário com o trabalho realizado anteriormente. Naquele projeto, foram necessários 24 anos de acompanhamento e seleção em campo até que a cultivar fosse concluída.

Com informações consistentes sobre o genoma do açaí, Padilha estima que o mesmo tipo de desenvolvimento poderia ser realizado em um prazo entre oito e dez anos.

Segundo a pesquisadora, os dados genéticos permitem transferir uma parcela importante da seleção para o laboratório, reduzindo a quantidade de plantas que precisam avançar por todas as etapas externas.

A expectativa é integrar os resultados observados nas palmeiras com os dados produzidos pelas equipes de genética, biologia molecular e bioinformática.

Genoma do açaí foi sequenciado por pesquisadores da UFPA e da Embrapa e pode acelerar cultivares produtivas, resistentes e adaptadas à terra firme.
Genoma do açaí foi sequenciado por pesquisadores da UFPA e da Embrapa e pode acelerar cultivares produtivas, resistentes e adaptadas à terra firme. Fonte: Ronaldo Rosa/ Embrapa.

O que o sequenciamento pode acelerar

O mapeamento genético poderá apoiar pesquisas voltadas a diferentes características do açaizeiro:

  • aumento da produtividade dos frutos;
  • maior concentração de antocianinas;
  • identificação de genes relacionados à resistência a enfermidades;
  • adaptação da planta ao cultivo em terra firme;
  • compreensão das diferenças entre açaí roxo e branco;
  • busca por moléculas de interesse das indústrias farmacêutica e cosmética;
  • criação de uma futura base pública para outros pesquisadores.

Essas aplicações dependerão de novas etapas de investigação, mas o sequenciamento oferece uma referência para localizar regiões específicas do DNA da espécie.

Pesquisa explica diferença entre açaí roxo e branco

O estudo analisou frutos em diferentes fases de desenvolvimento, incluindo uma variedade roxa e outra que produz o chamado açaí branco. A comparação mostrou que a tonalidade roxa aparece quando uma enzima ligada à formação de antocianinas entra em atividade.

No açaí branco, os genes responsáveis por iniciar esse processo permanecem amplamente inibidos. Como resultado, os frutos não desenvolvem a coloração roxa mais conhecida. As antocianinas são pigmentos naturais da planta e integram uma das características que os pesquisadores desejam compreender e selecionar com maior precisão.

Genoma do açaí foi sequenciado por pesquisadores da UFPA e da Embrapa e pode acelerar cultivares produtivas, resistentes e adaptadas à terra firme.
Genoma do açaí foi sequenciado por pesquisadores da UFPA e da Embrapa e pode acelerar cultivares produtivas, resistentes e adaptadas à terra firme. Fonte: Ronaldo Rosa/ Embrapa.

O resultado permite observar a coloração não apenas como uma característica visível, mas como consequência de mecanismos presentes no genoma do açaí.

Cultivar BRS Pai d’Égua forneceu material genético

A primeira etapa do trabalho ocorreu no banco genético mantido pela Embrapa Amazônia Oriental. A instituição selecionou amostras da cultivar BRS Pai d’Égua para o sequenciamento do DNA.

Também forneceu frutos roxos e brancos em diferentes estágios, utilizados para acompanhar a atividade dos genes durante o amadurecimento. Depois da seleção, o material foi encaminhado ao Laboratório de Engenharia Biológica da UFPA, o EngBio.

Instalado no Parque de Ciência e Tecnologia Guamá, em Belém, o laboratório ficou responsável por extrair e sequenciar o DNA. A equipe também utilizou recursos de bioinformática para organizar os fragmentos e montar o genoma da espécie.

A divisão das atividades reuniu o conhecimento da Embrapa sobre conservação e melhoramento do açaizeiro com a estrutura da UFPA nas áreas de engenharia biológica e análise computacional.

Adaptação à terra firme é um dos objetivos

O açaizeiro tem origem nas florestas de várzea, ambientes que passam por períodos de alagamento. Por esse motivo, encontrar plantas mais preparadas para crescer em locais com menor disponibilidade de água está entre os focos das pesquisas conduzidas pela Embrapa.

O conhecimento do genoma poderá ajudar a localizar características relacionadas a essa adaptação. Com marcadores genéticos, as equipes poderão selecionar antecipadamente plantas com maior potencial para o cultivo em terra firme.

O avanço pode ampliar as possibilidades de produção sem depender exclusivamente das condições encontradas nas áreas parcialmente alagáveis. Ainda será necessário relacionar as informações do DNA ao comportamento das palmeiras cultivadas, mas o novo mapa oferece um ponto de partida para orientar essa busca.

Informações podem apoiar resposta a futuras doenças

Segundo Elisa Moura, nenhuma enfermidade representa atualmente um problema grave para a produção de açaí. Mesmo assim, o sequenciamento cria uma base que poderá ser utilizada caso uma ameaça apareça no futuro.

Se uma doença começar a afetar os plantios, os pesquisadores poderão comparar diferentes plantas e procurar genes associados à resistência.

Genoma do açaí foi sequenciado por pesquisadores da UFPA e da Embrapa e pode acelerar cultivares produtivas, resistentes e adaptadas à terra firme.
Genoma do açaí foi sequenciado por pesquisadores da UFPA e da Embrapa e pode acelerar cultivares produtivas, resistentes e adaptadas à terra firme. Fonte: Ronaldo Rosa/ Embrapa.

Essa possibilidade é importante porque a resposta não precisará começar sem uma referência genética da espécie. O genoma do açaí já estará disponível para direcionar as análises e a seleção de materiais mais resistentes.

Indústria pode produzir compostos sem ampliar exploração da planta

O professor Rafael Baraúna, do Instituto de Ciências Biológicas da UFPA e um dos autores do artigo, aponta aplicações que ultrapassam o melhoramento agrícola. Depois de identificar os genes relacionados a moléculas de interesse, novas pesquisas poderão utilizar bactérias ou leveduras para produzir esses compostos em laboratório.

Entre os exemplos estão corantes naturais e antioxidantes associados ao açaí. A estratégia, chamada pelos pesquisadores de criação de rotas biotecnológicas, transfere para microrganismos a capacidade de fabricar determinadas substâncias.

“Dessa forma, nós diminuímos a exploração da planta no campo e aumentamos a produção dessas substâncias dentro de um ambiente controlado, o laboratório”, explica Baraúna. Segundo o professor, essa abordagem pode oferecer uma maneira mais sustentável de atender às demandas das indústrias farmacêutica e cosmética.

Base pública poderá apoiar pesquisadores da Amazônia

Outra frente mencionada por Baraúna é a criação futura de uma base pública com informações sobre a biologia do açaizeiro. O material poderá ser consultado por pesquisadores interessados em compreender o desenvolvimento, o amadurecimento e outras características da planta.

A disponibilização dos dados também permite que diferentes grupos relacionem seus resultados a uma mesma referência genética. Dessa forma, o trabalho realizado pela UFPA e pela Embrapa poderá servir como ponto inicial para novos projetos científicos na região.

Estudo recebeu apoio da Fapespa e do CNPq

Os resultados foram apresentados no artigo The genome sequence of the açaí berry (Euterpe oleracea Mart.) and RNA-Seq analysis of the fruit ripening, publicado na revista Genome em 29 de junho de 2026.

O estudo recebeu financiamento da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Além de Elisa Moura, Maria do Socorro Padilha e Rafael Baraúna, o trabalho reúne Maria Silvanira Ribeiro Barbosa, Sávio de Souza Costa, Davi Josué Marcon, Adan Rodrigues de Oliveira, Lucas da Silva e Silva, Maria Paula Cruz Schneider, Juarez Antônio Simões Quaresma, Diego Assis das Graças, Adonney Allan de Oliveira Veras, Simone de Miranda Rodrigues e Artur Silva.

O açaí já ocupa uma posição representativa na bioeconomia do Norte do Brasil. Com o sequenciamento, os pesquisadores passam a contar com uma ferramenta capaz de relacionar características visíveis e produtivas a regiões específicas do DNA.

O avanço poderá reduzir o tempo necessário para criar cultivares, orientar a adaptação à terra firme e apoiar respostas a eventuais enfermidades.

Também permite investigar produtos que não dependem apenas da comercialização direta do fruto, como pigmentos e antioxidantes produzidos por processos biotecnológicos. Ao conectar as informações obtidas no campo com a genética e a bioinformática, o genoma do açaí cria uma nova base para pesquisas agrícolas, ambientais e industriais conduzidas a partir da Amazônia.

Com informações da Embrapa

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Andriely Medeiros de Araújo

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