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Quem depende do gás que passa pelos dutos da TAG vê a sócia canadense La Caisse congelar R$ 4,1 bilhões em obras até 2030, R$ 2,1 bilhões deles do Novo PAC, numa briga com a ANP que zerou a base da Malha Nordeste

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Escrito por Paulo Nogueira Publicado em 08/11/2026 às 13:16 Atualizado em 08/11/2026 às 13:28
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A gestora canadense La Caisse, dona de metade da TAG, suspendeu R$ 4,1 bilhões em investimentos nos gasodutos da transportadora entre 2027 e 2030, e R$ 2,1 bilhões desse total estão no Novo PAC.

A decisão foi revelada nesta sexta-feira (6) por Eduardo Farhat, responsável pela operação da gestora na América Latina, em entrevista exclusiva à CNN Brasil.

A La Caisse, antiga CDPQ, divide o controle da Transportadora Associada de Gás (TAG) com a Engie. Com a recusa da sócia canadense, os projetos da transportadora ficam parados.

O motivo é a briga com a ANP sobre quanto os donos dos gasodutos podem ganhar com os ativos que já estão enterrados no chão. Farhat chamou a condução do processo de “lambança regulatória”.

“Já tomamos a decisão”, diz o executivo

“Já tomamos a decisão. Enquanto não existir uma segurança regulatória e jurídica no setor de transportes de gás, não faremos investimentos”, afirmou Farhat à emissora.

Ele detalhou o tamanho do corte: são R$ 4,1 bilhões do triênio 2027-2030. Desse valor, R$ 2,1 bilhões estão dentro do Novo PAC e ligados diretamente ao Leilão de Reserva de Capacidade (LRCap).

Na prática, a sócia só vai manter o dinheiro que não dá para cortar. “A única coisa que a gente vai manter são investimentos relacionados à segurança da operação, meio ambiente e preservação da integridade dos ativos”, disse.

A conta da ANP que zerou a base da Malha Nordeste

A disputa gira em torno da Base Regulatória de Ativos (BRA), o valor que a agência reconhece como capital ainda a remunerar. Quanto menor essa base, menor tende a ser a receita da transportadora nas tarifas.

Em 2 de outubro, a ANP fixou em zero a base de ativos ligada ao contrato da Malha Nordeste, da TAG, para o ciclo tarifário de 2026 a 2030. O mesmo aconteceu com a Malha Sudeste, operada pela NTS.

Os números contam a história. A TAG apresentou R$ 8,1 bilhões. A ANP calculou primeiro R$ 4,1 bilhões, depois revisou para R$ 559 milhões e, no fim, chegou a R$ 128 milhões negativos, arredondados para zero.

Válvula e tubulação de gasoduto do Gasene, operado pela TAG, em canteiro de obras em Itabuna, na Bahia
Trecho do Gasene, gasoduto Sudeste-Nordeste, em Itabuna (BA). Foto: Manu Dias/Agecom, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Por que a agência diz que o investimento já foi pago

A ANP usou o Método do Capital Recuperado, conhecido pela sigla em inglês RCM. A conta reconstrói o fluxo financeiro dos contratos antigos para estimar quanto já voltou ao bolso das empresas pelas tarifas.

O cálculo considera as receitas obtidas, os custos operacionais e o custo de oportunidade do capital. Pela leitura da agência, nas duas malhas os investimentos foram integralmente recuperados.

A ANP sustenta que a base de abertura deve incluir apenas o capital prudente que ainda não voltou. As transportadoras contestam a aplicação de critérios novos a obras feitas sob regras anteriores.

O que ficou de fora do zero

A decisão não apagou tudo. No caso da TAG, a agência reconheceu à parte R$ 874,26 milhões para o Gasfor II, segundo a CNN.

A deliberação de outubro também não fixou as tarifas finais. Elas dependem da etapa seguinte da revisão, que ainda vai definir quanto cada transportadora poderá cobrar por ano.

Quando a ANP fechou essa primeira fase, o CPG mostrou que a agência redefiniu bilhões em ativos de cinco transportadoras de gás, com a TBG e a TAG entre elas.

“Expropriação”, na visão da sócia canadense

Farhat reconhece que a suspensão é uma medida extrema. Mesmo assim, ele sustenta que a quebra das regras pode levar empresas do setor à falência ou à reestatização.

Na avaliação do executivo, a atuação do regulador configura uma expropriação. “Esta lambança regulatória está criando uma situação com consequências não só para a NTS e para a TAG, mas para o mercado como um todo”, afirmou.

A NTS saiu na frente um dia antes

A reação da TAG veio um dia depois da NTS. Na quinta-feira (5), a transportadora do Sudeste comunicou ao mercado que vai suspender investimentos da ordem de R$ 12 bilhões na ampliação da malha, segundo a Agência iNFRA.

A NTS também anunciou que vai entrar na Justiça contra a reguladora. Além de travar obras novas, a empresa vai rever projetos já aprovados e ainda não executados, preservando só os ligados à segurança.

Na TAG, uma ação judicial própria ainda não foi decidida. Segundo Farhat, a La Caisse precisa discutir esse caminho com a Engie, a outra controladora da empresa.

Tubulação de gás natural pintada com a inscrição Gás Natural e setas indicando o sentido do fluxo
Tubulação de transporte de gás natural, imagem ilustrativa. Foto: TBG/Divulgação, via Agência iNFRA

A associação das transportadoras fala em risco

A ATGás, que reúne as empresas de transporte de gás por gasoduto, divulgou nota nesta sexta-feira. Para a entidade, a suspensão de investimentos é consequência do aumento da percepção de risco regulatório.

A associação diz que a ANP adotou premissas econômicas atípicas e mudanças retroativas, que afetam projetos de capital intensivo e longo prazo. A ATGás já levou a discussão à Justiça e apresentou recursos administrativos.

O recurso da entidade será analisado pela diretoria da ANP em reunião prevista para segunda-feira (9). A mesma pauta inclui a terceira e última fase da revisão tarifária do ciclo 2026-2030.

Quem compra gás não aceita pagar a conta

Do outro lado, quem consome o gás reagiu à ofensiva das transportadoras. Abegás, Abividro e Abrace classificaram o comunicado da NTS como tentativa de deteriorar o ambiente de negócios, com desrespeito ao processo regulatório.

O Conselho de Usuários do sistema afirmou que, se a transportadora não quiser fazer um investimento necessário, o serviço pode ser oferecido a outros interessados.

Já o Fórum do Gás, que reúne 19 associações da cadeia, ressaltou que decisões de financiamento das empresas fazem parte da gestão de cada companhia e não devem ser transferidas aos carregadores.

O que pode mudar a partir de segunda

A reunião da diretoria da ANP marcada para o dia 9 vai definir a Receita Máxima Permitida das transportadoras até 2030. É dela que sai o valor que entra na tarifa paga por distribuidoras e grandes consumidores.

Até lá, os R$ 4,1 bilhões da TAG e os R$ 12 bilhões da NTS seguem congelados, e os R$ 2,1 bilhões do PAC ficam sem data para sair do papel.

Você acha que a ANP deve rever a conta dos gasodutos ou as transportadoras estão usando os investimentos como pressão? Deixe sua opinião nos comentários.

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Paulo Nogueira

Técnico em Elétrica desde 2008, formado pelo Instituto Federal Fluminense (IFF), antigo CEFET, uma das mais tradicionais instituições de ensino técnico do Brasil. Atuou por diversos anos nas áreas de petróleo e gás offshore, energia e construção, experiência que hoje aplica na produção de conteúdo especializado sobre o setor energético. Com mais de 8 mil publicações em revistas e portais online, dedica-se à cobertura do mercado de trabalho, petróleo e gás, energia, economia, renováveis e empreendedorismo. Para dúvidas, sugestões ou correções, entre em contato pelo e-mail paulohsnogueira@gmail.com. Este canal não recebe currículos.

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