Planilhas oficiais mostram a gasolina a R$ 9,92 entre um R$ 6,93 e um R$ 6,92 no mesmo posto de bandeira branca em 11 dias, enquanto o etanol ficou parado
O número que circulou nos últimos dias assusta qualquer motorista: gasolina a R$ 9,92 por litro em Eunápolis, no sul da Bahia. Ele está na planilha da ANP da semana de 18 a 24 de outubro e foi o preço mais alto de gasolina comum no país.
A lista seguinte conta outra parte da história. Na planilha de 25 a 31 de outubro, o mesmo posto, no km 720 da BR-101, aparece com R$ 6,92 na coleta do dia 26. Foram R$ 3,00 a menos por litro em cinco dias.
E ele não só voltou ao normal da cidade. Na nova lista, passou a ter o menor preço de Eunápolis entre os 8 registros de gasolina comum. O R$ 9,92 apareceu em portais regionais entre 1º e 5 de novembro, e colocado ao lado das coletas anterior e seguinte muda de figura.
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A gasolina a R$ 9,92 foi real ou ficou só na planilha?
O registro é real no sentido de que a gasolina a R$ 9,92 está no arquivo oficial. A coleta é de 21 de outubro, e o arquivo da semana, atualizado em 26 de outubro, continuava com esse valor nesta sexta-feira, 6.
Se alguém pagou a gasolina a R$ 9,92, ou por quantas horas ela ficou no painel, é outra pergunta. A planilha da ANP guarda o preço de revenda anotado naquela visita, com a data da coleta. Não tem coluna de motivo nem de venda.
O que dá para medir é o tamanho da distância. Os outros 7 registros de Eunápolis naquela semana ficaram entre R$ 6,94 e R$ 7,09. Na Bahia inteira, o segundo maior preço da semana foi R$ 7,49, R$ 2,43 abaixo.
No Brasil, a gasolina a R$ 9,92 foi o único registro de R$ 9 para cima, entre os 4.600 de gasolina comum que contamos no arquivo da ANP. O segundo lugar, R$ 8,99, ficou em Parintins, no Amazonas. Nas semanas vizinhas, nenhum posto do levantamento chegou a R$ 9.
Só o primeiro algarismo muda entre 6,92 e 9,92. É um detalhe que chama atenção, não prova do que aconteceu naquele dia. A planilha da ANP não atribui causa, e reportagens regionais como a do Bahia Sul News descreveram o número como registro pontual.
Como a ANP coleta o preço de cada posto?
A pesquisa é feita em visita pessoal. A página da ANP sobre o levantamento explica que o pesquisador usa um aplicativo no celular, com GPS e câmera.

Os preços, diz a agência, podem ser auditados pela foto do painel do posto. Na planilha da ANP aberta ao público só entram os números, sem essa foto. Foi desse tipo de coleta que saiu a gasolina a R$ 9,92.
A metodologia resumida publicada em 2020 prevê mais uma checagem quando surge inconsistência, e aí as informações são “retificadas ou ratificadas”. Vale como descrição do processo em geral, sem dizer nada sobre esse posto.
O que mudou no mesmo posto entre 15 e 26 de outubro?
Quase nada, fora a gasolina comum e o diesel. A planilha da ANP da semana de 11 a 17 de outubro mostra que, seis dias antes do pico, o mesmo posto de Eunápolis marcava R$ 6,93.
| Coleta | Gasolina comum | Gasolina aditivada | Etanol | Diesel S500 | Diesel S10 |
|---|---|---|---|---|---|
| 15/10/2026 | R$ 6,93 | R$ 6,93 | R$ 4,77 | R$ 7,52 | R$ 7,77 |
| 21/10/2026 | R$ 9,92 | sem registro | R$ 4,77 | R$ 7,47 | R$ 7,72 |
| 26/10/2026 | R$ 6,92 | R$ 6,92 | R$ 4,77 | R$ 7,67 | R$ 7,92 |
O etanol não se mexeu nas três visitas, sempre R$ 4,77. Já o diesel S10 fez o caminho contrário: subiu R$ 0,20 de 21 para 26 de outubro, enquanto a gasolina comum caía R$ 3,00.
Tem mais um detalhe na linha do pico. A aditivada, que nas outras duas coletas aparece com o mesmo preço da comum, não tem registro para esse posto no dia 21.
No bolso, o tamanho do susto é este. Em 50 litros, a gasolina a R$ 9,92 dá R$ 496,00. Com R$ 6,92, o mesmo tanque sai por R$ 346,00, uma diferença de R$ 150.
A média nacional da semana foi de R$ 6,49, de acordo com o Bahia Sul News, e isso daria R$ 324,50 no mesmo tanque.
Como conferir o preço do seu posto e denunciar na ANP?
Qualquer motorista pode abrir o mesmo arquivo. Na página das últimas semanas, o link “Preços por posto revendedor” baixa a planilha da ANP com CNPJ, nome, endereço, bandeira, produto, preço e data de cada coleta.

Dá para filtrar pelo município e comparar os postos da sua cidade, como fizemos com Eunápolis.
Só tem um limite: a pesquisa cobre 459 localidades e trabalha com amostra, então o seu posto pode ficar de fora em alguma semana.
Preço alto, sozinho, não é o caso mais claro de denúncia. A ANP informa que os combustíveis estão em regime de liberdade de preços desde 2002. Outra coisa é cobrar diferente do que está na bomba.
Para isso, a agência mantém um formulário de reclamação contra postos. O exemplo que ela mesma dá é o de um posto que “apresentou divergência entre o valor da bomba e o valor cobrado”.
O dado essencial é o CNPJ do estabelecimento. A ANP manda procurar em três lugares:
- placas de identificação, na área externa ou interna do posto;
- quadro de avisos obrigatório ao consumidor, em local visível;
- nota fiscal, cupom fiscal ou comprovante de pagamento.
No relato, entram só os fatos, com endereço do posto e o que aconteceu. A agência pede que você não escreva nome, CPF, telefone, e-mail nem endereço de casa. O portal FalaBR fica para queixa sobre serviço da própria ANP ou sobre seus fiscais, não contra posto.
A próxima planilha, de 1º a 7 de novembro, sai na segunda-feira, 9, segundo aviso da agência. Até lá, o último registro oficial do mesmo posto é o de R$ 6,92, e o preço do etanol segue em R$ 4,77 na mesma coleta.
