1. Início
  2. / Construção
  3. / A Jordânia está gastando US$ 6 bilhões para construir a segunda maior usina de dessalinização do mundo e transformar água do Mar Vermelho em água potável — enquanto o Nordeste do Brasil ainda espera obras de dessalinização prometidas há mais de uma década
Tempo de leitura 6 min de leitura Comentários 27 comentários

A Jordânia está gastando US$ 6 bilhões para construir a segunda maior usina de dessalinização do mundo e transformar água do Mar Vermelho em água potável — enquanto o Nordeste do Brasil ainda espera obras de dessalinização prometidas há mais de uma década

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 26/04/2026 às 19:30
Atualizado em 26/04/2026 às 19:38
Usina de dessalinização em construção na costa de Aqaba, Jordânia, com montanhas desérticas ao fundo
A Jordânia investe US$ 6 bilhões para converter água do Mar Vermelho em potável e transportá-la por 450 km até Amã — suprindo 40% da demanda nacional
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
67 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo

A usina no porto de Aqaba vai converter 300 milhões de metros cúbicos de água salgada por ano e transportá-la por um aqueduto de 450 quilômetros até a capital Amã — beneficiando mais de 3 milhões de pessoas num país onde a chuva é quase uma ficção

Conforme reportou o Modern Diplomacy em outubro de 2025, o Green Climate Fund aprovou um pacote recorde de US$ 295 milhões para o projeto — o maior investimento único do fundo em adaptação climática.

O ministro da Água da Jordânia, Raed Abu Soud, descreveu a obra como “estratégica” e afirmou que ela entregará 300 milhões de metros cúbicos de água limpa anualmente.

Além disso, o primeiro-ministro Jafar Hassan confirmou ao parlamento que o valor total ultrapassa US$ 5 bilhões, com prazo estimado de 4 anos de construção.

Segundo o Fanack Water, a obra é liderada por um consórcio franco-egípcio formado por Meridiam, SUEZ, Orascom Construction e VINCI Construction Grands Projets.

US$ 6 bilhões de 4 continentes: como se financia água no deserto

Por outro lado, o financiamento do projeto revela o tamanho do desafio. Nenhum país sozinho — muito menos a Jordânia — conseguiria bancar essa obra.

Dessa forma, os Estados Unidos aprovaram US$ 203 milhões em doação direta, mais US$ 300 milhões em grants adicionais e US$ 1 bilhão em empréstimos.

Da mesma forma, a Agência Multilateral de Garantia de Investimentos (MIGA), do Banco Mundial, emitiu garantias de US$ 1,25 bilhão em dezembro de 2025.

Consequentemente, o projeto se tornou um modelo global de financiamento climático — provando que é possível atrair capital privado para infraestrutura hídrica em regiões áridas.

Um alto funcionário envolvido nas negociações afirmou que o fundo climático “cortará os custos da água em cerca de 10 centavos por litro e economizará ao governo US$ 1 bilhão ao longo da vida do projeto”.

Por que a Jordânia não pode esperar: +4°C e -20% de chuva até o fim do século

De fato, a Jordânia é um dos quatro países mais secos do planeta. Rios são raros. Aquíferos estão se esgotando. A população cresce.

Segundo projeções climáticas, o país enfrentará aumento de 4 graus Celsius na temperatura média e redução de mais de 20% nas chuvas até o fim do século.

Sobretudo, o racionamento de água já é rotina. Moradores de Amã recebem água nas torneiras apenas um ou dois dias por semana, armazenando em caixas d’água no telhado para o restante da semana.

Nesse sentido, a usina de Aqaba não é um projeto de prestígio. É uma questão de sobrevivência.

Além disso, o aqueduto de 450 quilômetros transportará a água desde o Mar Vermelho, no extremo sul, até Amã, no norte — cruzando o deserto jordaniano de ponta a ponta.

Quando estiver pronta, a usina aumentará o fornecimento anual de água doméstica do país em quase 60%.

Vista aérea do sertão nordestino com terra seca e carro-pipa entregando água a comunidade
No Nordeste brasileiro, 1.500 municípios enfrentam secas recorrentes e comunidades dependem de carros-pipa e cisternas

Enquanto a Jordânia resolve em 4 anos, o Nordeste do Brasil espera há décadas

Além disso, a comparação é inevitável — e dolorosa para o Brasil.

Conforme dados oficiais, o semiárido nordestino é a região mais seca do país. Aproximadamente 1.500 municípios enfrentam secas recorrentes, e comunidades inteiras dependem de carros-pipa e cisternas para ter água potável.

A solução mais ambiciosa já tentada foi a Transposição do Rio São Francisco, que custou R$ 12 bilhões e levou mais de 15 anos para ser parcialmente concluída.

Contudo, a transposição resolve apenas parte do problema. Muitas comunidades no interior do Nordeste estão longe dos canais e continuam sem acesso à água tratada.

Apesar disso, projetos de dessalinização para o semiárido foram anunciados pelo governo federal em diversas ocasiões. Pequenas unidades em Pernambuco e Ceará existem, mas operam em escala mínima.

De fato, enquanto a Jordânia mobilizou US$ 6 bilhões de quatro continentes em menos de 3 anos de negociação, o Brasil ainda não tem um programa nacional de dessalinização com orçamento definido e prazo de entrega.

Comparação visual entre usina de dessalinização moderna e reservatório seco no Nordeste brasileiro
Enquanto a Jordânia mobilizou US$ 6 bilhões em 3 anos, o Brasil ainda não tem programa nacional de dessalinização com orçamento definido

Por isso, a velocidade de mobilização financeira impressiona: em menos de três anos, a Jordânia fechou acordos com Estados Unidos, Banco Mundial, fundo climático e empresas europeias — enquanto países com muito mais recursos adiam soluções semelhantes indefinidamente.

Dessa forma, o contraste entre países que decidem agir e países que decidem estudar se torna cada vez mais gritante — especialmente quando ambos enfrentam o mesmo problema: populações sem acesso a água tratada em pleno século XXI.

Os números que revelam o abismo

Por consequência, a diferença de escala entre o que a Jordânia está fazendo e o que o Nordeste brasileiro tem é brutal.

Jordânia: uma única usina produzirá 300 milhões de metros cúbicos por ano, suficientes para 3 milhões de pessoas. Custo: US$ 6 bilhões. Prazo: 4 anos.

Nordeste brasileiro: as poucas unidades de dessalinização existentes produzem entre 100 e 500 litros por segundo — centenas de vezes menos que o projeto jordaniano. Custo por unidade pequena: R$ 5 a 10 milhões. Prazo: indefinido.

Ainda assim, a diferença mais significativa não está nos números. Está na decisão política de resolver o problema de uma vez em vez de administrá-lo indefinidamente com paliativos.

A Jordânia decidiu que não quer mais depender de racionamento. O Brasil ainda debate se dessalinização é viável para o semiárido.

A Arábia Saudita vai além: US$ 80 bilhões em novas usinas

Por outro lado, a Jordânia não é o único país da região apostando em dessalinização como solução definitiva.

Da mesma forma, a Arábia Saudita, que já possui as maiores usinas do mundo, anunciou planos de investir US$ 80 bilhões em plantas adicionais nos próximos anos.

Consequentemente, o país transformou dessalinização em infraestrutura básica — tão essencial quanto rodovias ou rede elétrica.

Portanto, enquanto o Oriente Médio trata água como questão de segurança nacional e investe trilhões, o Brasil — que tem a maior reserva de água doce do planeta — não consegue distribuí-la para quem mais precisa.

Tubulação de água cruzando paisagem desértica de usina de dessalinização até montanhas distantes
O aqueduto de 450 quilômetros transportará água desde o Mar Vermelho até Amã, cruzando o deserto jordaniano de ponta a ponta

O custo invisível: energia para transformar mar em água

No entanto, dessalinização não é mágica. É engenharia pesada — e consome muita energia.

Segundo especialistas, cada metro cúbico de água produzido por osmose reversa exige entre 3 e 4 kWh de eletricidade.

Além disso, para uma planta do porte de Aqaba, o consumo energético equivale a uma pequena cidade funcionando 24 horas por dia.

Portanto, no caso da Jordânia, o consórcio franco-egípcio está negociando fornecimento de energia renovável para manter os custos operacionais sob controle.

Para o Nordeste brasileiro, onde a incidência solar é uma das mais altas do mundo, combinar dessalinização com energia solar seria tecnicamente ideal. A energia está ali. A água do mar está ali. O que falta é a decisão de conectar os dois.

O que pode dar errado — e o que já deu

Apesar disso, o projeto jordaniano tem riscos reais. Megaobras de infraestrutura hídrica são notórias por atrasos e estouros de orçamento.

De fato, o próprio memorando de entendimento que deu origem ao projeto foi assinado em 2013 — ou seja, foram 12 anos entre a ideia e o início da construção.

Ainda assim, a diferença é que a Jordânia finalmente começou. O aqueduto de 450 quilômetros está sendo traçado. O financiamento está fechado. As empresas estão contratadas.

Por outro lado, no Nordeste, o debate sobre se dessalinização “vale a pena” continua. E enquanto o debate dura, milhões de brasileiros caminham quilômetros sob o sol do sertão para buscar água em baldes.

Inscreva-se
Notificar de
guest
27 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Joao leite
Joao leite
03/05/2026 16:11

Quanta besteira, um pais que vive so de golpes nao tem tempo para trabalhar, comecamos com D.Pedro II e o primeiro golpe, proclamacao da republica outro golpe desta vez dos milicos, e dai por diante, sempre com a elite a frente, conseguimos escapar de mais uma em 2022, haja ameaca, todo tempo.

Eduardo
Eduardo
03/05/2026 12:39

Seca é política. Todo mundo sabe.

George Quintas
George Quintas
27/04/2026 17:10

No Brasil tudo é TRAVADO menos a corrupção política que não para… #2026EleiçõesNelesJá

Tito
Tito
Em resposta a  George Quintas
27/04/2026 17:34

A unica coisa travada é o seu cerebro. Reza pra pneu que passa kkkkkkkkkkkk

Naldo
Naldo
Em resposta a  George Quintas
28/04/2026 13:09

Vdd,falou td

Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

Compartilhar em aplicativos
27
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x