O Grupo Flexível criou pela marca EVO um bloco e um painel feitos com 51% de espuma de poliuretano reciclada, unindo economia circular e desempenho termoacústico
O poliuretano reciclado saiu do descarte e entrou na obra. O Grupo Flexível, um dos maiores fabricantes de poliuretano do Brasil, passou a transformar a espuma rígida que sobra da cadeia do frio, o isolamento de câmaras frigoríficas e geladeiras, em blocos e painéis de construção pela sua marca EVO.
O produto, batizado de Bloco e Painel Eco, é feito com 51% de espuma rígida de poliuretano reciclada, e já foi homologado por laboratório do SENAI. Um resíduo industrial que ia para o aterro virou material de parede com laudo técnico.
Do isolante de geladeira ao painel de parede
A matéria-prima dessa história é um lixo específico e problemático: a espuma rígida de poliuretano usada como isolante térmico na chamada cadeia do frio. Ela está dentro de geladeiras, freezers, câmaras frigoríficas e caminhões refrigerados, garantindo que o frio não escape.
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Quando esses equipamentos são descartados, a espuma sobra, e é difícil de reciclar pelos caminhos convencionais. Em vez de tratar isso como problema, a empresa enxergou a densidade dessa espuma como qualidade ideal para um novo produto. O rejeito virou insumo.
Segundo a Industriasa, a formulação combina 51% de espuma rígida de poliuretano reciclada com 49% de polióis de fonte renovável, criando um material sustentável nas duas pontas: no reaproveitamento do resíduo e na origem renovável do restante.
O que é o poliuretano reciclado da EVO
A EVO nasceu da reestruturação de uma empresa do Grupo Flexível voltada a soluções termoacústicas, em Santa Catarina. É ali que a espuma descartada é reciclada e transformada nos novos produtos, num processo que fecha o ciclo do material dentro da própria indústria.

O Bloco e o Painel Eco são pensados para a construção civil, com aplicações em portas e estruturas modulares. Eles entregam o que o poliuretano convencional oferece, mas com origem reciclada. A ideia não é um material pior e mais barato, e sim um material equivalente e mais limpo.
Essa equivalência é o que dá ao produto chance real de mercado. Construtores não adotam algo que funcione pela metade, mas adotam de bom grado um material que entrega o mesmo desempenho com apelo ambiental.
Homologado pelo SENAI: o carimbo que faltava
O passo que transforma uma boa ideia em produto vendável é a validação técnica. O Bloco Eco foi homologado em 2024 pelo Laboratório de Tecnologia e Caracterização Mecânica do SENAI, o LATECME, em Joinville, como uma solução com mais de 50% de poliuretano reciclado.
Conforme o Jornal do Brás, o Grupo Flexível desenvolveu os painéis termoacústicos sustentáveis justamente para dar destino nobre ao resíduo. Ter o aval de um laboratório respeitado muda o jogo. Sem homologação, o material é experimento; com ela, pode ser especificado, vendido e usado com segurança na construção. É o selo que abre as portas do mercado formal.
A homologação também atesta que o alto teor de material reciclado não comprometeu o desempenho, o que é decisivo para convencer engenheiros e arquitetos a apostar na novidade.
Leve, isolante e resistente ao fogo

As qualidades do produto vêm da própria natureza do poliuretano. O material é leve, o que reduz peso na estrutura, e é um excelente isolante térmico e acústico, mantendo ambientes mais confortáveis e silenciosos.
Além disso, oferece resistência ao fogo compatível com o uso na construção, um requisito essencial para qualquer material de vedação e estrutura. Leveza, conforto térmico, isolamento acústico e segurança contra fogo num único painel é um pacote atraente.
Essas propriedades explicam por que o poliuretano já é tão usado na construção e na indústria. A novidade aqui é entregar tudo isso a partir de material reciclado, sem sacrificar qualidade.
Da cadeia do frio para a construção
O mais elegante nesse caso é o cruzamento de setores. O resíduo de uma indústria, a da refrigeração, vira matéria-prima de outra, a da construção. É economia circular atravessando fronteiras entre cadeias produtivas diferentes.
Esse tipo de ponte é raro e valioso. Fechar o ciclo dentro de um setor já é difícil; conectar o lixo de um setor à necessidade de outro é o estágio mais avançado da economia circular. Um freezer velho pode, no fim, virar a porta ou a parede de uma casa.
Quanto mais setores se conectam assim, menos resíduo vai para aterro e menos matéria-prima virgem precisa ser extraída, num ganho ambiental que se multiplica.
Grupo Flexível e a aposta na economia circular
Por trás do produto está uma empresa consolidada. O Grupo Flexível, sediado em Santa Catarina, é um dos maiores fabricantes de tecnologias de poliuretano do país, e desenvolveu a formulação no seu centro de desenvolvimento tecnológico.
Que uma empresa grande e estabelecida aposte no reciclado é um sinal importante para o mercado. Quando o líder do setor trata a economia circular como estratégia de produto, e não como marketing, a indústria inteira presta atenção. É diferente de uma startup isolada testando um nicho.
A companhia trata a linha reciclada como parte do futuro do negócio, sinalizando que reaproveitar o próprio resíduo deixou de ser custo e virou oportunidade comercial.
Por que isso importa para o Brasil
O Brasil descarta um volume crescente de equipamentos da cadeia do frio, e a espuma de poliuretano rígido desses aparelhos é um resíduo que quase não tinha destino nobre. Criar um uso industrial para ela ataca um problema real de resíduos no país.
Ao mesmo tempo, a construção brasileira busca materiais mais leves, isolantes e sustentáveis. Casar um resíduo abundante com uma demanda crescente é o tipo de solução que resolve dois problemas de uma vez, sem depender de tecnologia importada.
Se o modelo ganhar escala, pode inspirar outras indústrias a olhar para seus próprios rejeitos como matéria-prima, transformando a lógica de descarte no país.
Os desafios de escalar
Nada disso é automático. Escalar a produção exige garantir fornecimento constante de espuma descartada, montar logística de coleta e convencer o mercado da construção, tradicionalmente conservador, a adotar um material novo.
Há ainda o desafio de manter a qualidade constante usando um insumo que vem de descarte, naturalmente mais variável que a matéria-prima virgem. Padronizar o reciclado é o teste de maturidade de qualquer produto de economia circular.
Mesmo assim, o ponto de partida é forte e contraintuitivo: a espuma que isolava o frio da sua geladeira pode acabar isolando o calor e o ruído da sua casa. Se o poliuretano reciclado já ergue portas e paredes com laudo técnico, quantos outros resíduos industriais estão a uma boa formulação de distância de virar material de obra?
