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A conta de luz no Nordeste vai subir quase 10% a partir desta semana — cinco estados já têm data marcada para o reajuste, e o diretor da ANEEL admite que o aumento é o dobro da inflação

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 25/04/2026 às 06:15
Atualizado em 25/04/2026 às 06:18
Família brasileira olhando conta de luz com expressão de preocupação na cozinha
Representação artística. Reajustes de até 9,77% na conta de luz do Nordeste entram em vigor a partir de 22 de abril de 2026 — o dobro da inflação projetada para o ano
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Cinco distribuidoras do Nordeste já têm reajuste homologado pela ANEEL para esta semana — Bahia, Rio Grande do Norte, Ceará, Sergipe e Pernambuco terão aumentos que chegam a quase 10%, o dobro da inflação, e o próprio diretor-geral da agência admitiu que o número “preocupa”

Segundo reportagem do Movimento Econômico de abril de 2026, cinco distribuidoras do Nordeste terão reajustes tarifários aplicados entre 22 e 29 de abril de 2026.

A Neoenergia Coelba (Bahia), Neoenergia Cosern (Rio Grande do Norte), Enel Ceará, Energisa Sergipe e Neoenergia Pernambuco são as afetadas.

A média de reajuste no Nordeste é de 9,77% — quase 10% — contra uma inflação projetada de apenas 3,1% para 2026. É o maior aumento regional do país.

O diretor da ANEEL admitiu: “preocupa”

Em entrevista à CNN, o diretor-geral da ANEEL, Sandoval Feitosa, foi direto sobre o impacto.

Segundo a Canal Solar, Feitosa afirmou: “As contas de luz sobem sempre um pouquinho a mais, ou tô sendo até gentil, muito a mais — o dobro, às vezes o triplo do que o IPCA.”

E completou: “Para 2026, a nossa previsão é que as tarifas cresçam em média 8%. Este número é maior do que o IPCA e maior do que o IGP-M. É de fato um número que preocupa.”

Contudo, no Nordeste a situação é ainda pior que a média nacional.

De acordo com pesquisa da consultoria Thymos Energia, o reajuste médio nordestino de 9,77% é puxado por um aumento de 7% na cobrança da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE).

Torres de transmissão de energia elétrica no sertão do Nordeste brasileiro ao pôr do sol
Representação artística. As linhas de transmissão que cortam o Nordeste transportam energia que será mais cara para milhões de consumidores a partir de abril

Estado por estado: quando a conta sobe

  • 22 de abril: Neoenergia Coelba (BA), Neoenergia Cosern (RN), Enel Ceará (CE), Energisa Sergipe (SE)
  • 29 de abril: Neoenergia Pernambuco (PE)
  • Já aplicados em 2026: Roraima Energia (24,13%), Enel RJ (15,46%), Light RJ (8,59%)

O caso de Roraima chama atenção: 24,13% de reajuste médio, com 22,69% para consumidores residenciais — o maior do país até agora em 2026.

Somando todos os reajustes previstos para abril, oito estados terão a conta mais cara antes de maio.

O peso invisível na conta: R$ 47 bilhões em subsídios

Uma parte significativa da conta de luz não corresponde ao consumo de energia em si.

Os encargos setoriais — especialmente a CDE — representavam 17 a 18% da tarifa em 2025.

Conforme reportou o Movimento Econômico, em 2026 esse percentual salta para 20%.

Isso significa que a cada R$ 100 na conta, R$ 20 vão para subsídios que financiam programas como Luz para Todos, descontos para irrigantes e compensações para usinas térmicas.

Além disso, o governo argumenta que os subsídios protegem consumidores vulneráveis. Porém, o custo é repartido entre todos os demais — e no Nordeste, onde a renda média é menor, o impacto proporcional é maior.

Parque solar no Nordeste do Brasil com painéis sob sol forte
Representação artística. O Nordeste concentra a maior geração de energia solar e eólica do Brasil — paradoxalmente, é também a região com o maior reajuste tarifário em 2026

O paradoxo: a região que mais gera energia limpa é a que mais paga

Aqui está o dado que deveria incomodar qualquer brasileiro.

O Nordeste é a região que mais concentra geração de energia eólica e solar no país.

É ali que estão os maiores parques eólicos, as maiores fazendas solares e os recordes de geração renovável.

Mas é também o Nordeste que terá o maior reajuste tarifário de 2026: 9,77%.

A explicação técnica é que a tarifa não reflete apenas a geração local, mas inclui custos de transmissão, perdas na rede e encargos federais.

Assim, mesmo gerando energia de sobra, o consumidor nordestino paga por ineficiências do sistema nacional.

Como já mostramos neste portal, o Brasil chega a desperdiçar energia solar e eólica porque a rede de transmissão não comporta tudo o que é gerado — e as perdas já superaram R$ 5 bilhões.

Medidor de energia elétrica antigo na parede de uma casa brasileira simples
Representação artística. Os encargos setoriais representam 20% da conta de luz em 2026 — e são pagos por todos os consumidores, independentemente do consumo

O que esperar até o fim do ano

O ciclo de reajustes de 2026 ainda está em curso.

Distribuidoras de São Paulo (CPFL Paulista, com reajuste estimado em 12,5%) tiveram o processo suspenso para reavaliação.

Mato Grosso e Mato Grosso do Sul também aguardam definição.

No Sul e no Sudeste, onde a estratégia de antecipação de recursos teve menor alcance, os aumentos devem aparecer de forma mais direta nos próximos meses.

A previsão da ANEEL é que, no acumulado do ano, a média nacional fique em torno de 8% — mais que o dobro da inflação projetada. Para famílias de baixa renda, que já comprometem até 10% da renda com energia, cada ponto percentual a mais é sentido diretamente na mesa.

Além disso, a situação se torna ainda mais complexa quando se considera que o Brasil tem uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo.

Nesse sentido, mais de 80% da eletricidade brasileira vem de fontes renováveis — hidrelétricas, eólicas e solares.

Contudo, essa abundância de energia limpa não se traduz em contas mais baratas para o consumidor, justamente porque os encargos setoriais crescem em ritmo superior ao da geração.

Da mesma forma, a falta de investimento em linhas de transmissão faz com que parte da energia gerada no Nordeste não chegue ao Sudeste, onde está a maior demanda.

Portanto, o consumidor nordestino paga mais caro por uma energia que é produzida na porta de casa — mas que a infraestrutura não consegue distribuir de forma eficiente.

Sobretudo, para famílias de baixa renda que já comprometem até 10% de sua renda com energia elétrica, cada ponto percentual de reajuste é sentido diretamente na mesa — na escolha entre ligar o ventilador ou comprar alimento.

Consequentemente, especialistas do setor elétrico defendem que parte da solução está em investir massivamente em baterias de grande escala — uma tecnologia que já funciona na Califórnia, onde baterias forneceram 42,8% da eletricidade em determinados horários. Além disso, o leilão de baterias planejado para o Brasil, com 18 GW de capacidade, pode começar a mudar essa equação nos próximos anos.

Será que em algum momento o Brasil vai conseguir transformar sua abundância de energia renovável em contas mais baratas para o consumidor? Por enquanto, a resposta é não.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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