Cinco distribuidoras do Nordeste já têm reajuste homologado pela ANEEL para esta semana — Bahia, Rio Grande do Norte, Ceará, Sergipe e Pernambuco terão aumentos que chegam a quase 10%, o dobro da inflação, e o próprio diretor-geral da agência admitiu que o número “preocupa”
Segundo reportagem do Movimento Econômico de abril de 2026, cinco distribuidoras do Nordeste terão reajustes tarifários aplicados entre 22 e 29 de abril de 2026.
A Neoenergia Coelba (Bahia), Neoenergia Cosern (Rio Grande do Norte), Enel Ceará, Energisa Sergipe e Neoenergia Pernambuco são as afetadas.
A média de reajuste no Nordeste é de 9,77% — quase 10% — contra uma inflação projetada de apenas 3,1% para 2026. É o maior aumento regional do país.
-
Vaca Muerta pode abastecer com gás Brasil, Chile, Uruguai, Bolívia e Argentina por até 124 anos, mas quer mais de US$ 10 bilhões em obras para fazer o gás circular
-
Criminosos escavam túnel secreto para perfurar oleoduto da Petrobras, furtam 100 mil litros de combustível e colocam milhares de pessoas sob risco de explosão no Distrito Federal
-
EUA cobrem canal com 2.556 painéis solares e transformam irrigação em usina limpa no meio de uma região castigada pela seca
-
Em decisão histórica, Aneel regulamenta uso de baterias no sistema elétrico brasileiro e cria bases para armazenar energia em larga escala, reduzindo desperdícios, ampliando a segurança energética e atraindo novos projetos bilionários
O diretor da ANEEL admitiu: “preocupa”
Em entrevista à CNN, o diretor-geral da ANEEL, Sandoval Feitosa, foi direto sobre o impacto.
Segundo a Canal Solar, Feitosa afirmou: “As contas de luz sobem sempre um pouquinho a mais, ou tô sendo até gentil, muito a mais — o dobro, às vezes o triplo do que o IPCA.”
E completou: “Para 2026, a nossa previsão é que as tarifas cresçam em média 8%. Este número é maior do que o IPCA e maior do que o IGP-M. É de fato um número que preocupa.”
Contudo, no Nordeste a situação é ainda pior que a média nacional.
De acordo com pesquisa da consultoria Thymos Energia, o reajuste médio nordestino de 9,77% é puxado por um aumento de 7% na cobrança da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE).

Estado por estado: quando a conta sobe
- 22 de abril: Neoenergia Coelba (BA), Neoenergia Cosern (RN), Enel Ceará (CE), Energisa Sergipe (SE)
- 29 de abril: Neoenergia Pernambuco (PE)
- Já aplicados em 2026: Roraima Energia (24,13%), Enel RJ (15,46%), Light RJ (8,59%)
O caso de Roraima chama atenção: 24,13% de reajuste médio, com 22,69% para consumidores residenciais — o maior do país até agora em 2026.
Somando todos os reajustes previstos para abril, oito estados terão a conta mais cara antes de maio.
O peso invisível na conta: R$ 47 bilhões em subsídios
Uma parte significativa da conta de luz não corresponde ao consumo de energia em si.
Os encargos setoriais — especialmente a CDE — representavam 17 a 18% da tarifa em 2025.
Conforme reportou o Movimento Econômico, em 2026 esse percentual salta para 20%.
Isso significa que a cada R$ 100 na conta, R$ 20 vão para subsídios que financiam programas como Luz para Todos, descontos para irrigantes e compensações para usinas térmicas.
Além disso, o governo argumenta que os subsídios protegem consumidores vulneráveis. Porém, o custo é repartido entre todos os demais — e no Nordeste, onde a renda média é menor, o impacto proporcional é maior.

O paradoxo: a região que mais gera energia limpa é a que mais paga
Aqui está o dado que deveria incomodar qualquer brasileiro.
O Nordeste é a região que mais concentra geração de energia eólica e solar no país.
É ali que estão os maiores parques eólicos, as maiores fazendas solares e os recordes de geração renovável.
Mas é também o Nordeste que terá o maior reajuste tarifário de 2026: 9,77%.
A explicação técnica é que a tarifa não reflete apenas a geração local, mas inclui custos de transmissão, perdas na rede e encargos federais.
Assim, mesmo gerando energia de sobra, o consumidor nordestino paga por ineficiências do sistema nacional.
Como já mostramos neste portal, o Brasil chega a desperdiçar energia solar e eólica porque a rede de transmissão não comporta tudo o que é gerado — e as perdas já superaram R$ 5 bilhões.

O que esperar até o fim do ano
O ciclo de reajustes de 2026 ainda está em curso.
Distribuidoras de São Paulo (CPFL Paulista, com reajuste estimado em 12,5%) tiveram o processo suspenso para reavaliação.
Mato Grosso e Mato Grosso do Sul também aguardam definição.
No Sul e no Sudeste, onde a estratégia de antecipação de recursos teve menor alcance, os aumentos devem aparecer de forma mais direta nos próximos meses.
A previsão da ANEEL é que, no acumulado do ano, a média nacional fique em torno de 8% — mais que o dobro da inflação projetada. Para famílias de baixa renda, que já comprometem até 10% da renda com energia, cada ponto percentual a mais é sentido diretamente na mesa.
Além disso, a situação se torna ainda mais complexa quando se considera que o Brasil tem uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo.
Nesse sentido, mais de 80% da eletricidade brasileira vem de fontes renováveis — hidrelétricas, eólicas e solares.
Contudo, essa abundância de energia limpa não se traduz em contas mais baratas para o consumidor, justamente porque os encargos setoriais crescem em ritmo superior ao da geração.
Da mesma forma, a falta de investimento em linhas de transmissão faz com que parte da energia gerada no Nordeste não chegue ao Sudeste, onde está a maior demanda.
Portanto, o consumidor nordestino paga mais caro por uma energia que é produzida na porta de casa — mas que a infraestrutura não consegue distribuir de forma eficiente.
Sobretudo, para famílias de baixa renda que já comprometem até 10% de sua renda com energia elétrica, cada ponto percentual de reajuste é sentido diretamente na mesa — na escolha entre ligar o ventilador ou comprar alimento.
Consequentemente, especialistas do setor elétrico defendem que parte da solução está em investir massivamente em baterias de grande escala — uma tecnologia que já funciona na Califórnia, onde baterias forneceram 42,8% da eletricidade em determinados horários. Além disso, o leilão de baterias planejado para o Brasil, com 18 GW de capacidade, pode começar a mudar essa equação nos próximos anos.
Será que em algum momento o Brasil vai conseguir transformar sua abundância de energia renovável em contas mais baratas para o consumidor? Por enquanto, a resposta é não.

Seja o primeiro a reagir!