O Open Mall Praça Pitiguari trocou concreto e aço por madeira de floresta plantada, evitou mais de 900 toneladas de carbono e foi erguido em tempo recorde no interior de São Paulo
A madeira engenheirada ganhou seu maior monumento na América Latina, e ele fica em Atibaia, no interior de São Paulo. O Open Mall Praça Pitiguari foi erguido com mais de 1.300 metros cúbicos de madeira estrutural, o maior volume já usado no continente, no lugar do concreto e do aço que dominam a construção.
São quase 700 metros cúbicos de CLT e mais de 600 de glulam sustentando um centro de compras e lazer de 7.000 metros construídos. Um shopping inteiro de madeira, erguido em apenas 7 meses, virou a vitrine do que a construção brasileira pode ser.
1.300 m³ de madeira no lugar de concreto e aço
O número que define o projeto é o volume de madeira. Mais de 1.300 metros cúbicos de material estrutural fazem da Praça Pitiguari o maior uso de madeira engenheirada já registrado na América Latina, um marco simbólico para um continente acostumado a construir em cimento.
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Trocar concreto e aço por madeira não é escolha estética, é decisão de engenharia. A madeira estrutural moderna tem resistência comparável para muitos usos, com uma fração do peso e da pegada de carbono. Onde havia vigas de concreto, agora há vigas de árvore, calculadas com precisão milimétrica.
Segundo a Urbem, fornecedora da madeira do projeto, a obra reúne o maior volume do material já aplicado no continente. Não é um chalé nem uma casa, é um empreendimento comercial de grande porte feito em madeira.
O que é madeira engenheirada e por que substitui concreto
Madeira engenheirada não é a tábua comum. São produtos industriais feitos colando lâminas ou tábuas de madeira de reflorestamento em camadas, sob pressão, criando peças enormes, estáveis e de alta resistência estrutural. É tecnologia, não carpintaria artesanal.

A grande vantagem é a combinação de leveza e força. Uma peça desse material pode substituir uma viga de aço ou um pilar de concreto pesando muito menos, o que reduz fundações, transporte e prazo. É material de floresta com desempenho de indústria pesada.
Ao contrário do que muitos pensam, esse tipo de estrutura tem bom comportamento ao fogo, porque a madeira maciça queima de fora para dentro de forma lenta e previsível, mantendo a capacidade estrutural por tempo suficiente. O medo do fogo, aqui, é mais mito do que realidade.
Pronto em 7 meses: a velocidade da construção seca
Talvez o dado mais impressionante para quem constrói seja o prazo. A Praça Pitiguari ficou pronta em cerca de 7 meses, uma velocidade que a construção convencional em concreto dificilmente alcança para uma obra desse porte.
O segredo é a chamada construção seca. As peças chegam prontas de fábrica, no tamanho exato, e são apenas montadas no canteiro, como um grande quebra-cabeça. Sem esperar concreto curar, a obra vira montagem, e montagem é rápido.
Menos tempo de obra significa menos custo financeiro, menos transtorno no entorno e retorno mais rápido do investimento. Num mercado onde tempo é dinheiro, a velocidade da madeira é um argumento de peso por si só.
CLT e glulam: a dupla estrutural

O projeto combina dois tipos de peça com funções diferentes. O CLT, sigla para madeira laminada colada cruzada, forma painéis grandes usados como lajes e paredes estruturais, planos que fecham e sustentam o edifício.
Já o glulam, a madeira laminada colada, forma vigas e pilares, os elementos lineares que vencem os vãos e seguram as cargas. Juntos, quase 700 metros cúbicos de CLT e mais de 600 de glulam formam o esqueleto completo da obra. É a dupla que substitui, respectivamente, a laje de concreto e a viga de aço.
Usar os dois em conjunto, em escala, mostra maturidade técnica. Não se trata de um enfeite de madeira sobre estrutura de concreto, mas de um edifício cuja espinha é integralmente de madeira.
900 toneladas de carbono a menos
A conta ambiental é o que torna a escolha tão poderosa. Conforme a Grandes Construções, o uso da madeira no lugar de concreto e aço evitou a emissão de mais de 900 toneladas de carbono na atmosfera, considerando o que deixou de ser emitido e o carbono estocado na própria madeira.
Isso acontece por dois motivos. Produzir cimento e aço libera muito CO2, então não usá-los já corta emissão. Além disso, a árvore capturou carbono enquanto crescia, e esse carbono fica preso na estrutura durante toda a vida do prédio. O edifício vira um estoque de carbono em pé, não uma fonte de emissão.
Em tempos de metas climáticas, um material que constrói rápido e ainda sequestra carbono é quase bom demais para ser verdade, mas é exatamente o que a madeira renovável entrega.
Um shopping que virou vitrine
Localizado ao lado do Parque Estadual do Itapetinga, o empreendimento de 46 mil metros quadrados foi pensado para integrar comércio e natureza, com a madeira reforçando essa identidade verde. O Open Mall é um formato de shopping aberto, ventilado, mais próximo de uma praça do que de uma caixa fechada.
A escolha da madeira, ali, não é só técnica, é também mensagem. Um centro de compras que exibe a própria estrutura de madeira comunica sustentabilidade sem precisar de discurso, e vira atração por si só. Arquitetura e propósito ambiental caminham juntos.
O projeto, assinado por um escritório de arquitetura especializado, prova que a madeira não é limitação estética, e sim liberdade de projeto com apelo contemporâneo.
Por que isso importa para o Brasil
O Brasil tem uma vantagem enorme e pouco explorada nessa história: florestas plantadas de sobra. O país é campeão em produtividade de eucalipto e pinus, a matéria-prima ideal para a madeira engenheirada, o que dá potencial para liderar essa construção no continente.
Cada obra como a Praça Pitiguari cria demanda, cadeia produtiva e confiança no material, empurrando o setor. Se o Brasil transformar sua força florestal em construção, pode descarbonizar obras e gerar renda no campo ao mesmo tempo. A fabricante do material, inclusive, planeja dobrar sua produção diante da demanda crescente.
Trocar parte do concreto nacional por madeira de reflorestamento seria uma revolução silenciosa, unindo agronegócio, indústria e meta climática num só produto.
Os desafios da madeira na construção brasileira
Nem tudo é simples. A cultura da construção no Brasil é fortemente ligada ao concreto, e mudar isso exige capacitar engenheiros, arquitetos e operários, além de vencer a desconfiança de clientes e do mercado imobiliário.
Há também o desafio de escala e custo: a cadeia de madeira engenheirada ainda é jovem no país, e ganhar competitividade exige mais fábricas e volume. A tecnologia já provou que funciona; falta ela virar rotina, e não exceção.
Ainda assim, a Praça Pitiguari deixa um recado claro e contraintuitivo: dá para erguer um shopping inteiro de madeira, mais rápido, mais leve e capturando carbono. Se a maior obra do tipo na América Latina já está de pé no interior de São Paulo, quanto tempo até a madeira deixar de ser novidade e virar o novo normal da construção?
