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Fezes humanas coletadas em casas no Quênia são tratadas com energia solar e viram briquetes de combustível, criando uma indústria improvável contra esgoto aberto, carvão vegetal e desmatamento

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 02/07/2026 às 11:33
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combustivel de fezes humanas no Quenia – Divulgação
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Sanivation, no Quênia, converte resíduos humanos em briquetes com energia solar, reduz pressão sobre florestas e amplia o saneamento.

No Quênia, uma empresa decidiu atacar ao mesmo tempo dois problemas estruturais: a falta de saneamento seguro e a dependência de combustíveis sólidos para cozinhar e aquecer. Fundada em 2011, a Sanivation desenvolveu um modelo em que resíduos humanos coletados em domicílios são tratados com energia solar térmica e depois transformados em briquetes combustíveis de baixo custo.

O sistema combina instalação de banheiros domiciliares, cobrança de uma taxa mensal pelo serviço, coleta frequente dos resíduos e reaproveitamento do material em uma cadeia de valor energética. Em vez de tratar o esgoto apenas como passivo sanitário, a empresa passou a utilizá-lo como matéria-prima para combustível sólido destinado ao cozimento, ao aquecimento e a usos industriais.

Energia solar térmica e saneamento descentralizado transformaram resíduos humanos em combustível no Quênia

De acordo com o CDC, a Sanivation instala banheiros em residências quenianas mediante uma pequena taxa mensal de serviço.

A coleta é feita por representantes da empresa, e o resíduo segue para tratamento com energia solar térmica, processo usado para tornar o material seguro antes da etapa de reaproveitamento energético.

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O modelo foi aprofundado em documentos técnicos da UNHCR, que descrevem um sistema de coleta realizado duas vezes por semana e transporte até uma unidade central de processamento.

Nessa estrutura, o lodo fecal é submetido a tratamento térmico e depois combinado com um material complementar rico em carbono para virar briquete.

A proposta ganhou relevância porque une saneamento básico, tratamento de resíduos e reaproveitamento energético em uma única operação.

Em vez de depender apenas de soluções públicas convencionais, a empresa passou a trabalhar com um formato que tenta financiar parte do próprio sistema por meio da venda do combustível produzido.

Briquetes produzidos a partir de resíduos humanos queimam por mais tempo e ajudam a substituir lenha e carvão

Segundo as diretrizes técnicas da UNHCR para o modelo aplicado em Kakuma, os briquetes da Sanivation apresentam valor energético de 22 MJ/kg.

No mesmo documento, a madeira aparece com 15 MJ/kg, enquanto o carvão chega a 29 MJ/kg, o que coloca os briquetes acima da lenha em desempenho energético e como alternativa viável para usos domésticos e operacionais específicos.

O mesmo material informa que o tempo de combustão dos briquetes chega a cerca de 4,5 horas, contra 3 horas do carvão e 1 hora da madeira. Já as emissões de monóxido de carbono aparecem em 82 ppm para os briquetes, abaixo dos 118 ppm registrados para o carvão na comparação técnica apresentada no guia.

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Esses dados ajudam a explicar por que a tecnologia passou a ser tratada como alternativa prática em contextos de baixa renda e de pressão sobre recursos florestais. Além de reaproveitar o resíduo, o sistema tenta entregar um combustível com desempenho estável, queima mais longa e menor poluição no uso cotidiano.

Tecnologia de briquetes no Quênia reduz pressão sobre florestas e ataca um problema crônico de saneamento

O CDC afirma que os briquetes produzidos pela Sanivation ajudam a substituir combustíveis tradicionais e podem preservar cerca de 88 árvores por tonelada vendida.

A estimativa aparece como um dos argumentos centrais do projeto, que busca reduzir a pressão sobre florestas em regiões onde a produção de carvão e o consumo de lenha seguem sendo parte importante da matriz energética doméstica.

Sanivation, no Quênia, converte resíduos humanos em briquetes com energia solar, reduz pressão sobre florestas e amplia o saneamento.
combustivel de fezes humanas no Quenia – Divulgação

Ao mesmo tempo, o modelo reduz a destinação inadequada de resíduos humanos em ambientes sem saneamento seguro. Em vez de contaminar solo e água ou permanecer em sistemas precários, o material entra em uma rota de coleta, tratamento e reaproveitamento que transforma um passivo sanitário em produto comercializável.

Essa combinação entre saneamento, energia e economia circular ajudou a diferenciar a iniciativa no debate internacional. O projeto não atua apenas como solução de banheiro domiciliar, mas como infraestrutura que tenta resolver a destinação final dos resíduos e gerar receita com o resultado desse tratamento.

Sanivation recebeu US$ 3,3 milhões para ampliar a planta de Naivasha e escalar a produção de briquetes

Em 14 de janeiro de 2026, o Private Infrastructure Development Group, o PIDG, anunciou um investimento de US$ 3,3 milhões em participação para financiar a expansão da operação da Sanivation em Naivasha, no Quênia. O pacote inclui ainda US$ 500 mil adicionais em assistência técnica para apoiar a ampliação da planta.

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Segundo o PIDG, a expansão da Naivasha Treatment Plant permitirá aumentar significativamente a capacidade de tratamento de resíduos e a produção de briquetes.

A expectativa divulgada pela instituição é que a estrutura ampliada trate resíduos equivalentes aos gerados por 100 mil a 130 mil residências, reduzindo a pressão sobre a infraestrutura local de esgoto e ajudando a evitar poluição no entorno do Lago Naivasha.

O comunicado também informa que os briquetes produzidos pela empresa queimam por mais tempo e com maior eficiência do que a lenha tradicional, além de reduzir os custos de energia de clientes industriais em 10% a 30%.

Com isso, o projeto deixa de ser apenas um experimento social e passa a ser apresentado como modelo com ambição clara de escala comercial.

Resíduos humanos viraram combustível em uma das experiências mais incomuns de economia circular aplicada ao saneamento

A trajetória da Sanivation mostra como um resíduo normalmente associado apenas a risco sanitário pode ser inserido em uma cadeia produtiva.

O que antes representava problema de coleta e tratamento passou a ser convertido em briquetes combustíveis, conectando saneamento descentralizado, tratamento térmico com energia solar e geração de receita.

No centro da proposta está a tentativa de tornar o saneamento economicamente mais sustentável. Em vez de depender exclusivamente de subsídios contínuos, a empresa usa a venda do combustível para compensar parte dos custos operacionais e fortalecer a viabilidade do sistema em cidades com infraestrutura insuficiente.

O caso queniano ganhou destaque justamente por mostrar que inovação em energia e infraestrutura não precisa surgir apenas de tecnologias caras ou de grandes redes centralizadas.

Em Naivasha e em outros projetos da Sanivation, a transformação de resíduos humanos em combustível se consolidou como uma das experiências mais incomuns e mais simbólicas de economia circular, saneamento e reaproveitamento energético no continente africano.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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