A expansão dos painéis solares em residências, comércios e propriedades rurais mudou a lógica da distribuição de energia no Brasil e já pressiona redes em Mato Grosso, Acre e Rondônia, onde novas conexões passam por restrições técnicas.
A energia solar que entrou em casas, pequenos comércios e propriedades rurais como promessa de economia começou a revelar um problema que não aparece na placa instalada no telhado. Segundo a Folha de S.Paulo, Mato Grosso, Acre e Rondônia enfrentam restrições para novas ligações fotovoltaicas em algumas regiões, com Mato Grosso no centro da pressão.
O dado mais forte está no próprio tamanho da expansão. Mato Grosso já soma mais de 2,8 GW instalados e pode ultrapassar 3,5 GW até 2030. Em determinados horários, o excedente pode passar de 900 MW perto do meio-dia, quando a produção solar é alta e o consumo local nem sempre acompanha essa oferta.
O caso importa porque mostra um paradoxo da transição energética no Brasil. A tecnologia que reduz a conta de luz e coloca o consumidor no papel de gerador também depende de uma rede elétrica capaz de receber essa energia. E essa rede, em várias partes do país, não foi construída para funcionar dessa forma.
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A energia que antes só chegava agora também volta para a rede

Durante décadas, a lógica do sistema elétrico foi simples. Grandes usinas produziam energia, a transmissão levava essa eletricidade por longas distâncias e a distribuição entregava o serviço aos consumidores.
Com a geração distribuída, essa lógica mudou. Casas, comércios e propriedades rurais passaram a produzir parte da própria energia, principalmente com painéis solares. Quando produzem mais do que consomem, injetam o excedente na rede e recebem créditos para usar depois.
A ANEEL explica que esse modelo funciona dentro do Sistema de Compensação de Energia Elétrica. Ele foi decisivo para popularizar a micro e minigeração distribuída, mas também aumentou a complexidade da operação das distribuidoras.
O problema aparece quando muitos consumidores injetam energia ao mesmo tempo. Em vez de apenas entregar eletricidade, a rede local precisa receber o excedente. Esse fenômeno é conhecido como inversão de fluxo.
Mato Grosso virou o caso mais sensível
Segundo a Folha de S.Paulo, o ONS identificou uma restrição estrutural em Mato Grosso. A avaliação é que novas conexões de centrais geradoras podem não ser viáveis enquanto as condições técnicas da rede não mudarem.
A preocupação não é apenas administrativa. O risco apontado envolve instabilidade e desligamentos de grande porte em situações severas na transmissão. Em outras palavras, não se trata de falta de energia, mas de excesso localizado em momentos específicos.
Acre e Rondônia aparecem no mesmo contexto de restrições. Mato Grosso do Sul também foi citado como estado que pode caminhar para situação semelhante. O ponto central, porém, não é afirmar que a energia solar está proibida nesses locais.
O que está em discussão são novas conexões e ampliações em áreas onde a distribuidora e o operador identificam limite técnico para receber mais geração. Pequenos sistemas residenciais ainda podem conseguir conexão em regiões de estresse, dependendo do tamanho e do impacto na rede.
O Brasil chegou a milhões de sistemas conectados

O crescimento ajuda a explicar por que o tema saiu da discussão técnica e virou assunto nacional. Segundo a ANEEL, até 31 de julho de 2025 o Brasil tinha 3,77 milhões de sistemas de micro e minigeração distribuída conectados à rede.
A potência somava cerca de 42,28 GW. Os consumidores residenciais representavam aproximadamente 80% das usinas em operação, com cerca de 3 milhões de sistemas. Comércio e área rural também aparecem com participação relevante.
A ABSOLAR informou que a energia solar passou de 60 GW de potência instalada no Brasil em 2025, considerando geração própria e grandes usinas. Desse total, 42,05 GW vinham de pequenos e médios sistemas de geração própria, enquanto 17,95 GW estavam em grandes usinas solares.
Em 2026, levantamentos da própria ABSOLAR indicavam cerca de 64 GW de potência operacional solar no país, com a fonte representando 24,5% da matriz elétrica brasileira. O número mostra a velocidade da mudança.
ONS já vinha alertando sobre excesso em horários críticos
O ONS já havia apontado que a geração distribuída cresce mais rápido que a demanda. Segundo a Folha de S.Paulo, a micro e minigeração distribuída já superava 43 GW em dezembro de 2025 e poderia chegar a cerca de 65 GW até 2030.
O alerta envolve momentos de muita produção solar e baixa carga. Em 10 de agosto de 2025, a Folha informou que a geração distribuída respondeu por quase metade da demanda em determinado momento, obrigando o ONS a cortar geração centralizada renovável para evitar sobrecarga.
Outro exemplo apareceu em 29 de junho de 2026, durante o jogo Brasil x Japão. Segundo a eixos, a queda no consumo durante a partida, combinada com alta geração solar distribuída, levou o ONS a restringir cerca de 20 GW de geração renovável para preservar a estabilidade do sistema.
Esses episódios ajudam a entender por que o problema não está no painel solar isolado. O desafio aparece quando milhares de sistemas produzem muito ao mesmo tempo e a rede precisa equilibrar oferta, demanda e segurança operacional.
ANEEL tenta ajustar regras enquanto o setor cobra soluções
A ANEEL aprovou em julho de 2024 medidas para simplificar a conexão de pequenos sistemas e reduzir conflitos sobre inversão de fluxo. Entre as mudanças, criou um caminho simplificado para sistemas de até 7,5 kW usados para compensação na própria unidade consumidora.
A agência também dispensou estudos de inversão em sistemas que não injetam energia na rede, conhecidos como grid zero. Já em abril de 2026, abriu a Consulta Pública 009/2026 para tratar de excedentes de energia e flexibilidade operacional na distribuição.
A proposta inclui restrições sistêmicas, gestão de excedentes, fiscalização e práticas irregulares. A ANEEL ainda fixou prazo emergencial de 60 dias para distribuidoras auditarem possíveis aumentos de potência sem autorização.
Do outro lado, representantes do setor solar defendem armazenamento de energia, regras mais claras e modernização da infraestrutura. A ABSOLAR também argumenta que irregularidades existem, mas seriam minoria dentro de um universo com milhões de consumidores gerando a própria energia.
O limite não está no sol, está na rede
A expansão solar continua relevante para o país, mas o avanço perdeu ritmo. Segundo a eixos, com base em dados da ABSOLAR, a expansão caiu 29% em 2025, com 10,6 GW adicionados no ano, contra 15 GW em 2024.
A geração distribuída respondeu por 7,8 GW da expansão de 2025. Já as grandes usinas solares adicionaram 2,8 GW. Parte da desaceleração foi associada a obstáculos de conexão sob alegação de incapacidade da rede e inversão de fluxo.
O caso dos estados com restrições mostra que a transição energética não depende apenas de instalar mais painéis. Ela também exige rede preparada, regras transparentes, fiscalização e capacidade de armazenar ou controlar excedentes.
A energia solar não virou problema por crescer. O que o Brasil começa a enfrentar é o custo de ter milhões de pequenos geradores conectados a uma infraestrutura que ainda carrega a lógica antiga de apenas entregar energia. O telhado mudou rápido. A rede, agora, precisa correr atrás.

