Autoridades japonesas recorrem à inovação para responder ao crescimento recorde de encontros perigosos entre humanos e ursos, combinando segurança pública, controle remoto e métodos não letais em áreas urbanas cada vez mais vulneráveis
O Japão vive um cenário inédito de risco nas áreas urbanas. Nos últimos anos, o país registrou um aumento de 163% nos encontros e ataques de ursos desde 2021, culminando em um recorde de fatalidades no último ano, segundo dados oficiais. Diante da escalada do problema, as autoridades decidiram abandonar abordagens convencionais e investir em uma solução tecnológica que promete mudar a forma como a vida selvagem é gerenciada em regiões habitadas.
A informação foi divulgada pelo site Vika Rosa, que detalhou como o avanço dos animais sobre cidades japonesas passou a representar uma ameaça real à população. Diferentemente do passado, quando o uso de força direta era a principal resposta, o novo cenário exige criatividade, precisão e, sobretudo, distância segura entre humanos e animais.
A decisão marca uma mudança de paradigma. Em vez do confronto direto, o Japão aposta em tecnologia aérea, controle remoto e métodos não letais para reduzir riscos, preservar vidas humanas e respeitar a fauna silvestre.
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Como drones passaram a ser usados para afastar ursos sem confronto direto

Para enfrentar o problema, a empresa Terra Drone, em parceria com a cidade de Ishinomaki, passou a operar drones equipados com spray repelente de alta potência, desenvolvido especificamente para lidar com grandes mamíferos selvagens. A substância utilizada tem como base a capsaicina, o mesmo composto responsável pela ardência das pimentas.
Quando acionado, o spray provoca irritação intensa nas mucosas dos olhos e do nariz do urso, causando desconforto imediato e forçando o animal a recuar. O efeito é temporário e não provoca danos permanentes, o que atende às rígidas normas japonesas sobre o uso de força contra animais silvestres.
O grande diferencial do sistema está na distância operacional. Os drones podem ser controlados a uma distância entre 0,5 km e 1 km, enquanto o disparo do spray ocorre a cerca de 5 a 10 metros do animal. Com isso, policiais e equipes de segurança deixam de se expor ao risco extremo de um encontro direto com um urso em ambiente urbano.
Além disso, o uso de drones permite resposta rápida, mobilidade e atuação em áreas de difícil acesso, algo praticamente impossível com métodos tradicionais.
Por que os ursos estão cada vez mais presentes nas cidades japonesas
O avanço dos ursos sobre centros urbanos é resultado direto de mudanças sociais, demográficas e ambientais no Japão. Um dos fatores mais relevantes é o colapso gradual da atividade de caça no país. Em 1975, o Japão possuía cerca de 520 mil licenças de caça ativas. Em 2020, esse número caiu para aproximadamente 220 mil, uma redução drástica ao longo de quatro décadas.
Além da queda no número de caçadores, o perfil etário também preocupa. A maioria dos caçadores ativos atualmente tem mais de 60 anos, o que limita a capacidade de resposta rápida em situações de emergência envolvendo animais selvagens.
Paralelamente, o avanço das cidades sobre áreas naturais reduziu o habitat dos ursos, forçando-os a buscar alimento em regiões cada vez mais próximas de humanos. Lixeiras, plantações e restos de comida tornaram-se alvos fáceis, aumentando a frequência dos encontros perigosos.
Outro fator decisivo são as restrições legais severas impostas às forças policiais japonesas quanto ao uso de medidas letais contra animais silvestres, o que torna alternativas não violentas praticamente obrigatórias.
Drones, criatividade e o futuro do controle da vida selvagem no Japão

Essa não é a primeira experiência japonesa com drones para lidar com animais. No ano anterior, o país testou drones cor-de-rosa com olhos arregalados, alto-falantes que imitavam latidos de cães e até lançadores de fogos de artifício, todos voltados para assustar ursos e afastá-los de áreas residenciais.
Além disso, drones equipados com lasers já são utilizados em fazendas para afastar aves e reduzir o risco de gripe aviária, demonstrando que o uso da tecnologia aérea no controle da fauna não é uma novidade isolada, mas parte de uma estratégia mais ampla.
Com a introdução do spray de capsaicina acoplado a drones, o Japão dá mais um passo em direção a um modelo que prioriza a segurança humana sem recorrer à eliminação dos animais. A iniciativa representa um equilíbrio delicado entre inovação tecnológica, proteção ambiental e adaptação a desafios que métodos tradicionais já não conseguem resolver.
Fonte: Xataca


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