Priscilla Sitienei voltou à escola primária no interior do Quênia aos 90 anos e, aos 98, seguia na sexta série ao lado de colegas oito décadas mais novos. Parteira por 65 anos, ela entrou para o cinema, conheceu a primeira-dama da França e mantinha um sonho simples e desconcertante: estudar medicina.
Em fevereiro de 2022, na aldeia de Ndalat, no condado de Nandi, no interior do Quênia, Priscilla Sitienei completava 99 anos em sala de aula. De vestido cinza e suéter verde, o uniforme da Leaders Vision Preparatory School, ela fazia anotações ao lado de colegas com mais de oito décadas a menos de vida, segundo a agência Reuters, que registrou seu cotidiano escolar em janeiro daquele ano. Parteira por 65 anos, Priscilla Sitienei nunca havia sentado em uma carteira escolar até os 90 anos.
A repercussão da história chegou ao G1, que também divulgou o caso em fevereiro de 2022: Priscilla Sitienei não era novidade apenas para o jornalismo. Ela já havia viajado a Paris para o lançamento de um filme sobre sua trajetória, conheceu a primeira-dama francesa Brigitte Macron e ainda planejava ir a Nova York. Tudo isso sem abrir mão do uniforme e das aulas de segunda a sexta.
Uma vida inteira sem escola

No Quênia, a educação primária não era universal e gratuita até 2003, o que impediu gerações inteiras de acessar a escola durante a infância. Priscilla Sitienei cresceu nesse contexto, segundo relatos dados por ela mesma à Reuters. Sem acesso formal ao ensino, aprendeu na prática o ofício que exerceria por décadas: ajudar mulheres a dar à luz em partos domiciliares, usando conhecimentos tradicionais e plantas medicinais. Mídia NINJA
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Priscilla vem da aldeia remota de Ndalat, no condado de Nandi, e sempre quis ser médica. Sem essa oportunidade, usou suas habilidades aprendidas de forma tradicional para ajudar mães a ter filhos com segurança em casa, conforme reportagem do China Daily. Ela exerceu a função de parteira por 65 anos e chegou a dar à luz alguns dos próprios colegas de classe que hoje sentam ao lado dela na escola, segundo a Mídia Ninja, que apurou detalhes da história junto à Reuters. China DailyMídia NINJA
A lei que mudou tudo para os mais velhos
“Gostaria de me tornar médica, porque eu costumava ser parteira”, disse Priscilla Sitienei à Reuters, acrescentando que seus filhos apoiaram a decisão. A frase foi dita em um contexto que só se tornou possível graças a uma mudança de política pública. Em 2003, o governo queniano começou a subsidiar o custo do ensino primário, permitindo que membros mais velhos da sociedade que perderam a chance de estudar na juventude pudessem retomar esse caminho, conforme informou o G1 em sua cobertura do caso. TerraTerra
O diretor da Leaders Vision Preparatory School, David Kinyanjui, contou que integrar Priscilla à turma foi desafiador no início, mas a determinação dela convenceu as autoridades escolares a matriculá-la. Ela entrou sem falar inglês, comunicava-se apenas em Kalenjin e suaíli, e aceitou começar do nível mais básico, segundo o China Daily. E foi assim, do zero, que Priscilla Sitienei pisou em uma sala de aula pela primeira vez na vida, já com mais de 90 anos. China Daily
A bisneta que abandonou a escola e mudou tudo
A decisão de voltar a estudar teve um gatilho concreto e humano. Priscilla contou à Reuters que a ideia surgiu quando sua bisneta abandonou a escola após engravidar. Ela perguntou de forma brincalhona se havia dinheiro de mensalidade sobrando, a jovem disse que sim, e foi então que Priscilla anunciou que usaria o valor para começar a estudar ela mesma. Voice of America
A história foi recontada pelo G1 e pela Reuters com o mesmo desfecho: a bisneta não voltou. Priscilla foi. O que a avó esperava era que a bisneta retomasse os estudos, mas quando a jovem se recusou, Priscilla decidiu ir à escola ela mesma, segundo o Público, que republicou a reportagem original da Reuters. A virada não veio de um discurso motivacional. Veio de uma aposta silenciosa feita por uma mulher de quase cem anos. PÚBLICO
A sala de aula onde ela era monitora e aluna ao mesmo tempo
Dentro da escola, Priscilla Sitienei não era apenas mais uma estudante. A professora Leonida Tallam afirmou que usava Priscilla para ajudar a controlar a turma durante sua ausência da sala, e que a estratégia funcionava: quando Priscilla ficava responsável, a classe ficava em silêncio. Uma bisavó como monitora de crianças de 11 e 12 anos não era exatamente o cenário que qualquer professor imaginaria. Africanews
O desempenho dela também surpreendia os colegas. Segundo a professora Tallam, as matérias favoritas de Priscilla eram ciências, educação cristã e matemática. Ela era muito atenta durante as aulas e tinha a melhor caligrafia da turma, de acordo com a Africanews. Um colega de classe de 12 anos, Melvin Misos, admitiu à mesma emissora que precisou se esforçar mais depois que Priscilla ficou à sua frente em um exame regional. Africanews
Paris, Brigitte Macron e o tapete vermelho de uniforme
A repercussão da história de Priscilla Sitienei foi longe o suficiente para chegar ao cinema europeu. Em agosto de 2021, ela fez uma viagem de dez dias à França para o lançamento do filme “Gogo Priscilla”, produzido pela Ladybirds Cinema e dirigido pelo cineasta francês Pascal Plisson, segundo o China Daily. Era a primeira vez que ela viajava de avião e a primeira vez que saía do Quênia. China Daily
Durante a estadia em Paris, Priscilla se encontrou com a primeira-dama francesa Brigitte Macron, visitou a embaixada do Quênia e concedeu diversas entrevistas para a mídia internacional, conforme apurou o The Standard. Ela voltou para Ndalat recebida com uma recepção de heroína no aeroporto de Eldoret, aguardada pelos coleguinhas de escola de uniforme. A senhora de 98 anos havia pisado no tapete vermelho de Paris sem deixar o suéter verde para trás. The StandardThe Standard
“A educação não tem limite de idade”
Quando perguntada sobre seus planos, Priscilla Sitienei não hesitava. “Eu costumava trabalhar como parteira tradicional, ajudando mulheres com complicações no parto. Agora estou estudando para me tornar médica. Não acredito que a educação tenha limite de idade”, disse ela, em declaração reproduzida pela Africa Global Village com base em material da Africanews. Africaglobalvillage
“Fico em forma. Consigo pular, mesmo que não tanto quanto eles, mas pelo menos movo o corpo. Essa é a minha alegria”, disse Priscilla à Reuters, ao ser perguntada sobre as aulas de educação física. Ela faleceu em novembro de 2022, aos 99 anos, dias após desenvolver uma dor no peito. Até três dias antes de morrer, ainda ia às aulas, segundo o jornal português Notícias ao Minuto, que acompanhou os últimos dias de Priscilla com base em informações da família. Voice of AmericaNotícias ao Minuto
Você conhece alguém que voltou a estudar depois de adulto ou que realizou um sonho que parecia impossível pela idade? Conta nos comentários.
Fontes consultadas:
G1 (Reuters) — “De volta à escola aos 98 anos, queniana dá exemplo para próxima geração”, 15 fev. 2022
Reuters / VOA Learning English — “Kenyan Woman Goes Back to Primary School at 98”, 11 fev. 2022
China Daily — “At 98, Kenya grandma chases school dream”, 7 abr. 2022
Africanews — “Kenya: 98 year old primary school student Priscilla Sitienei becomes role model”, 14 mar. 2022
Africa Global Village — republicação da Africanews, mar. 2022
The Standard (Quênia) — “Meet Kenyan granny, 98, a standard six pupil and superstar in France”, set. 2021
Público (Portugal) — “Priscilla regressou à escola aos 98 anos, para dar o exemplo às novas gerações”, 9 fev. 2022
Mídia Ninja — “Parteira de 98 anos volta a estudar e diz: ‘quero ser médica'”, 16 fev. 2022
Notícias ao Minuto (Portugal) — “Morreu a aluna do Ensino Primário mais velha do mundo: tinha 99 anos”, 18 nov. 2022


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