Enquanto a indústria alimentícia projeta alimentos ultraprocessados cheios de açúcar, sal e gordura e despeja bebidas açucaradas no mercado global, 40% do planeta engordam, a obesidade avança, hospitais lotam, México taxa rótulos duros, Suíça hesita em regular e gigantes mantêm lucros altos enquanto sistemas de saúde públicos inteiros colapsam lentamente
Em 1980, pouco menos de 7% da população do México era obesa; hoje o índice é mais de cinco vezes maior, enquanto 40% da população mundial já está acima do peso ou obesa, empurrada por produtos baratos, práticos e hipercalóricos. No centro dessa curva está a indústria alimentícia, que há décadas transforma açúcar, sal e gordura em motor de ultraprocessados desenhados para estimular o consumo contínuo, sem saciedade proporcional às calorias ingeridas.
Entre 1994, quando o México assinou acordos de livre comércio com Estados Unidos e Canadá, e 8 de abril de 1999, data de uma reunião secreta de CEOs em Minneapolis sobre seu papel na epidemia de obesidade, até decisões mais recentes como a oposição do governo suíço em 2020 à lei de rotulagem mexicana e a apresentação interna da Nestlé em 2021 reconhecendo que mais de 60% de seus produtos não eram saudáveis, a trajetória da indústria alimentícia expõe uma sequência de escolhas corporativas que priorizaram lucro, marketing agressivo e engenharia de produto acima da saúde pública. pasted
Açúcar, sal e gordura como tecnologia de apetite contínuo

Na base dos ultraprocessados está uma tríade simples e poderosa.
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Açúcar, sal e gordura são combinados por equipes de cientistas da indústria alimentícia para atingir o chamado ponto de êxtase, a quantidade “perfeita” de açúcar em um produto, nem de menos nem de mais, calibrada para maximizar prazer e desejo de repetir a experiência.
O sal costuma ser aplicado na superfície de salgadinhos e petiscos, funcionando como explosão inicial de sabor.
As gorduras garantem a chamada sensação na boca, aquela textura cremosa ou crocante que torna irresistível morder um sanduíche de queijo quente ou um snack recheado.
O açúcar, voltado ao nosso instinto básico de buscar doçura, completa a equação.
Esses produtos não nascem do acaso, mas de uma engenharia precisa voltada a produzir desejo intenso, pouco controle e nenhum estímulo real à moderação.
O jornalista investigativo Michael Moss, que inicialmente resistiu a comparar biscoitos com heroína, acabou concluindo que muitos desses alimentos ultraprocessados podem ser mais problemáticos que tabaco e álcool, justamente porque estão em toda parte, são socialmente aceitos e têm consumo cotidiano, inclusive por crianças.
A indústria alimentícia evita a palavra “viciante”, mas investe sistematicamente em fórmulas que aumentam o consumo recorrente e o tempo de exposição aos seus produtos.
Carole, Rogelio e Rebecca: quando comida vira refúgio e ameaça

A trajetória de Carole, 34 anos, moradora da região de Lausanne, ilustra como a indústria alimentícia ocupa o espaço emocional da vida cotidiana.
Na adolescência, ela passou a se empanturrar de batatas fritas, doces, biscoitos, salgadinhos e bebidas açucaradas em frente à televisão, respondendo aos estímulos constantes da publicidade.
Quanto mais comia, pior se sentia com o próprio corpo e com o olhar dos outros, e quanto pior se sentia, mais comia para aliviar a dor.
O ciclo resultou em obesidade extrema, dificuldades para se mover e até para respirar. Internada na clínica de obesidade do Hospital Universitário de Lausanne, Carole foi submetida a um bypass gástrico que reduziu drasticamente o estômago e já perdeu cerca de 35 quilos.
Mesmo assim, precisa reaprender sensações básicas, como fome e saciedade, e reconstruir a autoestima destruída por anos de bullying e gordofobia.
No México, Rogelio, motorista de táxi, passa até 12 horas por dia dentro do carro, alimentando-se quase exclusivamente de batatas fritas, snacks gordurosos e refrigerantes.
Para ele, a comida ultraprocessada é prática, barata e “ajuda a seguir trabalhando sem parar para comer”.
O resultado são fotos de um passado recente com 120 ou 126 quilos, fôlego curto, isolamento social e uma luta tardia para tentar emagrecer e sobreviver mais tempo ao lado dos filhos.
Rebecca, também na Suíça, convive há cerca de 20 anos com compulsão alimentar.
Em momentos de estresse emocional, enche o carrinho com massas prontas, molhos cremosos, queijos, biscoitos e bolos, consumidos em poucas horas e em segredo.
Ela relata que as primeiras mordidas são agradáveis, mas depois o prazer desaparece e a ingestão continua até a dor de estômago ser insuportável, acompanhada de vergonha intensa.
A clínica de Lausanne tenta ajudá-la a romper esse padrão, mostrando que não se trata apenas de força de vontade individual, mas também de um ambiente alimentar desenhado para favorecer o excesso.
Ambientes obesogênicos: quando o sistema empurra para o excesso
O departamento multidisciplinar do Hospital Universitário de Lausanne acompanha cerca de 1.500 pessoas com sobrepeso, das quais 220 sofrem de obesidade.
Os médicos relatam um aumento exponencial dos casos mais graves nas últimas décadas e descrevem o ambiente atual como obesogênico e tóxico em calorias.
Promoções, publicidade constante e alimentos de baixa qualidade nutricional e alto valor energético enfraquecem a capacidade de escolha, sobretudo entre os mais vulneráveis.
Na Suíça, 42% da população está acima do peso e uma em cada dez pessoas é obesa, com um custo estimado de mais de 8 bilhões de francos suíços por ano em cuidados de saúde.
Artigos científicos apontam evidências crescentes de que alimentos ultraprocessados, com muitas calorias e pouca saciedade, desempenham papel central na explosão de obesidade observada em diversos países.
Para crianças e adolescentes, a situação é ainda mais delicada.
Em Genebra, um programa educacional implantado há 15 anos já chega a uma em cada três escolas, ensinando alunos a identificar o teor de açúcar e gordura em alimentos processados e a diferenciar produtos que devem ser evitados daqueles que podem compor uma dieta saudável.
Os educadores ressaltam que os hábitos alimentares se formam antes dos 10 anos de idade, exatamente a faixa em que a indústria alimentícia concentra campanhas agressivas, mascotes e embalagens coloridas.
México reage com impostos, rótulos e limites à publicidade
O México é um dos países mais duramente atingidos pela epidemia de obesidade.
Mais de três quartos da população adulta está acima do peso ou obesa, e o país figura entre os líderes globais em obesidade infantil.
O consumo médio de refrigerantes chega a 163 litros por pessoa por ano, expondo crianças e adultos a doses contínuas de açúcar líquido.
Para o vice-ministro da saúde, Hugo López-Gatell, um terço de todas as mortes mexicanas nos últimos 15 anos está relacionado à má nutrição, principalmente ao excesso de açúcar, calorias, gordura e sal.
Ele relaciona a escalada da obesidade à guinada neoliberal da década de 1980, à desregulamentação econômica e à abertura comercial, consolidada pelos acordos com Estados Unidos e Canadá em 1994, que inundaram o mercado com produtos ultraprocessados baratos.
Diante da crise, o parlamento mexicano aprovou três medidas centrais: um imposto sobre bebidas açucaradas, restrições à publicidade dirigida a crianças e rótulos frontais de advertência em produtos com excesso de açúcar, calorias, gordura saturada, gordura trans ou sal.
Para evitar os temidos selos pretos, muitas empresas reformularam produtos, reduzindo açúcar e outros ingredientes críticos, enquanto mascotes de animais foram removidos das embalagens infantis.
A reação da indústria alimentícia veio na forma de ações judiciais e campanhas de comunicação. Fabricantes argumentam que os rótulos “impedem a comparação entre produtos saudáveis” e alarmam desnecessariamente os consumidores.
Organizações de consumidores e grupos como o liderado por Doré Castillo contra-argumentam que os avisos são ferramentas essenciais para enfrentar o excesso de peso, a obesidade e doenças evitáveis.
Suíça hesita em taxar açúcar e cede à pressão dos lobbies
Enquanto o México implementa impostos e rótulos frontais, a Suíça ainda não possui restrições legais específicas para combater obesidade e sobrepeso, apesar dos custos bilionários.
Um exemplo simbólico é a comparação de uma garrafa de Fanta vendida na Grã-Bretanha, onde há imposto sobre bebidas açucaradas, com a mesma bebida na Suíça.
No Reino Unido, parte do açúcar foi substituída por adoçantes, reduzindo o teor para 4,6 gramas por decilitro; na versão suíça, o valor chega a 10,3 gramas por decilitro, mais que o dobro.
Defensoras de um imposto sobre açúcar, como a política Delphine Bachmann, apontam que existem pelo menos 15 nomes diferentes para o açúcar usados em rótulos, dificultando a compreensão do consumidor comum.
Ferramentas de marketing e formulários complexos permitem à indústria alimentícia ocultar a verdadeira concentração de açúcar, ao mesmo tempo que explora a preferência natural por sabores doces.
Documentos obtidos via leis de acesso à informação mostram que a Nestlé procurou o governo suíço para pedir apoio contra a lei mexicana de rotulagem, classificando o modelo como radical, restritivo e cientificamente frágil, e alegando que os selos poderiam gerar medo injustificado.
Em 2020, o governo suíço adotou a posição contrária à legislação mexicana. Paralelamente, dezenas de moções internas que pediam medidas mais duras, como tributos sobre bebidas açucaradas, não avançaram, em meio à resistência ideológica à regulação de mercado e à influência de grupos de pressão ligados ao açúcar e às bebidas.
Neurociência aproxima açúcar da lógica das drogas
As experiências conduzidas no Hospital Universitário de Lausanne mostram que o poder do açúcar vai além da metáfora.
Em um dos experimentos, ratos aprendem rapidamente a acionar um pedal que libera doses de açúcar, consumidas de forma frenética.
Em testes comparativos, eles chegam a preferir açúcar a cocaína, indicando que o estímulo gerado pelo doce pode ser ainda mais forte em certas condições.
O neurobiologista Benjamin Boutrel observa que as alterações cerebrais de pessoas que perdem o controle diante de alimentos gordurosos e açucarados são comparáveis às mudanças observadas em dependentes de álcool, cocaína ou tabaco.
Para ele, há um paralelo claro entre a indústria do tabaco e a indústria alimentícia: ambas modificaram profundamente a natureza de seus produtos, adicionando texturas, aromas e outros componentes para amplificar o impacto da substância central e fidelizar consumidores.
Michael Moss descreve açúcar, sal e gordura como uma “trindade profana” e aponta para a chamada regra 80/20 utilizada por empresas: 20% dos clientes consomem 80% do produto.
São esses consumidores pesados que a indústria alimentícia procura atingir com campanhas e formulações específicas, explorando vulnerabilidades emocionais, econômicas e sociais para maximizar vendas.
Crianças, direitos humanos e a disputa pelo futuro da alimentação
Pediatras como Nathalie Farpour-Lambert, que há décadas atendem crianças com sobrepeso, afirmam que os menores são vítimas de um sistema alimentar que os manipula desde cedo.
Segundo ela, não faz sentido responsabilizar apenas os pais se rótulos são confusos, publicidade é onipresente e produtos ultraprocessados são mais baratos e acessíveis que alimentos frescos.
A pergunta que se impõe é se estamos dispostos a sacrificar uma ou duas gerações em nome da conveniência e do lucro.
Para especialistas em saúde pública, a defesa da infância passa por separar interesses econômicos do poder político e colocar a proteção das crianças como prioridade máxima de qualquer sistema regulatório.
Isso inclui regras claras para rotulagem, limites à publicidade, revisão de fórmulas e, em muitos casos, tributação específica de produtos de alto risco, alinhada às evidências científicas acumuladas.
Ao mesmo tempo, pessoas como Carole, Rogelio e Rebecca continuam travando batalhas individuais, muitas vezes em silêncio, contra consequências diretas de estratégias corporativas que atuaram durante décadas sem freios robustos.
Elas carregam no corpo e na psique os custos de uma engrenagem global que considera aceitável perder vidas desde que o balanço financeiro permaneça no azul.
Diante desse cenário, a pergunta deixada pela crise de obesidade, pelo avanço do diabetes e pela explosão de doenças cardiovasculares é se a sociedade continuará aceitando que a indústria alimentícia trate o açúcar como uma droga banalizada, vendida em embalagens coloridas para crianças, ou se exigirá um novo pacto entre saúde pública, lucro e responsabilidade corporativa.
Na sua opinião, a indústria alimentícia deve ser regulada com impostos, rótulos duros e restrições de marketing como o tabaco, ou a responsabilidade principal ainda é do indivíduo na hora de escolher o que comer?


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