Mercado indonésio segue comprando açúcar brasileiro em volumes relevantes, mas a combinação entre cotas menores, produção local e bioetanol coloca o agronegócio nacional diante de um cenário mais competitivo no Sudeste Asiático.
A Indonésia reduziu a autorização para compras externas de açúcar bruto em 2026 e reforçou uma política de autossuficiência que pode redesenhar parte do comércio com o Brasil, um dos seus fornecedores relevantes na cadeia sucroalcooleira.
O movimento combina importações ainda expressivas, estímulo à produção local e uso da cana-de-açúcar em bioetanol, em uma estratégia que aproxima segurança alimentar e energia.
O sinal preocupa exportadores brasileiros porque o país asiático importou US$ 877,21 milhões em açúcares e produtos de confeitaria do Brasil em 2025, segundo dados da base Comtrade reunidos pela Trading Economics.
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A maior parte desse valor aparece concentrada em açúcar de cana ou beterraba e sacarose quimicamente pura em forma sólida.
A relação comercial já vinha sendo relevante para o agronegócio nacional.
Em 2023, as exportações agropecuárias brasileiras para a Indonésia superaram US$ 3,69 bilhões, com 74% desse montante ligado aos setores de soja e sucroalcooleiro, conforme informou o Ministério da Agricultura e Pecuária.
Licenças de importação da Indonésia reduzem espaço para o açúcar brasileiro
A S&P Global Commodity Insights informou que a Indonésia emitiu licenças de importação de açúcar bruto que somam 3,1 milhões de toneladas para 2026.
O volume ficou abaixo dos 3,45 milhões de toneladas autorizados em 2025 e foi associado por fontes de mercado a uma combinação de demanda mais fraca e avanço da produção doméstica.
A redução não representa interrupção das compras externas, nem bloqueio ao açúcar brasileiro.
Ainda assim, muda a previsibilidade para usinas, tradings e operadores logísticos, porque compradores de grande escala influenciam preços, embarques, prêmios e contratos antes mesmo de qualquer queda efetiva nas entregas.
Na prática, o governo indonésio tenta controlar melhor o fluxo de importação sem abrir mão do abastecimento industrial.
Refinarias e fabricantes de alimentos e bebidas dependem do açúcar bruto importado para manter a produção, o que transforma as cotas em instrumento central da política de suprimento.
A S&P Global registrou ainda que navios já carregavam açúcar rumo à Indonésia, incluindo o Jin Ping, um Supramax carregado em Santos em 27 de janeiro e destinado a Cigading.
O dado mostra como decisões tomadas em Jacarta alcançam diretamente a logística brasileira, da origem nas usinas aos portos de exportação.
Produção local de açúcar ganha peso na estratégia de Jacarta
O ajuste nas licenças ocorre em meio a uma agenda mais ampla de redução da dependência externa.
A própria S&P Global aponta que a Indonésia foi o segundo maior importador mundial de açúcar, atrás da China, e que suas compras recuaram de um pico de 6 milhões de toneladas em 2022 para 5,31 milhões de toneladas em 2024.
Esse recuo ajuda a explicar por que o mercado acompanha cada decisão sobre cotas.
Mesmo quando o país continua comprando volumes elevados, qualquer corte sinaliza menor espaço para fornecedores estrangeiros e aumenta a disputa entre Brasil, Tailândia, Índia, Austrália e outros exportadores.
A Indonésia busca ampliar a produção nacional para reduzir a exposição a choques de preços e oferta.
O açúcar é tratado como produto estratégico por atender ao consumo das famílias, abastecer a indústria de alimentos e servir de base para novas cadeias energéticas.
Para o Brasil, o risco não está em uma perda imediata de mercado, mas na mudança gradual de prioridade de um comprador importante.
Quando um país populoso, com forte demanda industrial, passa a planejar menor dependência externa, os exportadores precisam recalibrar expectativas de venda e de embarque.
Bioetanol amplia disputa pelo uso da cana-de-açúcar
A pressão sobre o comércio de açúcar se torna mais complexa porque a cana-de-açúcar também aparece no plano indonésio de bioetanol.
Em fevereiro de 2026, a Reuters informou que o governo pretende elevar a mistura obrigatória de bioetanol na gasolina para 10% até 2028, depois de adiar o cronograma por limitações de oferta.
Segundo a agência, autoridades indonésias afirmaram que o objetivo é reduzir importações de gasolina e aumentar a autossuficiência energética.
A política prevê uso de biocombustíveis produzidos a partir de matérias-primas como óleo de palma e cana-de-açúcar, além de melhorias na infraestrutura e diversificação de insumos.
Esse desenho cria uma disputa interna pelo uso agrícola da cana.
Parte da matéria-prima pode ser direcionada ao açúcar para consumo e indústria, enquanto outra parte pode abastecer o bioetanol, caso o país consiga expandir área plantada, processamento e distribuição de combustível.
A Reuters também informou que a Indonésia não alcançou a meta de mistura de 5% em 2025 por falta de oferta suficiente de etanol.
Para 2028, o governo projeta produção de 0,80 milhão de quilolitros de bioetanol, diante de uma demanda nacional de gasolina estimada em 39,9 milhões de quilolitros.
Reflexos para usinas e exportadores do Brasil
No setor sucroenergético brasileiro, decisões externas desse porte entram no radar porque usinas ajustam a cada safra a proporção de cana destinada à produção de açúcar ou etanol.
Mudanças em grandes compradores não determinam sozinhas essa escolha, mas afetam preços internacionais e a leitura sobre a demanda futura.
O Brasil mantém vantagens relevantes, como escala produtiva, experiência exportadora e integração logística com portos de grande movimentação.
Mesmo assim, mercados com cotas menores, metas de produção doméstica e políticas de energia mais nacionalizadas tornam a venda internacional menos automática.
A Indonésia continua precisando de açúcar importado para sua indústria, e a S&P Global CERA projeta importações de cerca de 4 milhões de toneladas de açúcar bruto em 2026.
A mesma projeção indica consumo doméstico de 7,56 milhões de toneladas, o que confirma a dimensão do mercado, mas também reforça a importância de acompanhar a redução das licenças.
O alerta, portanto, está no conjunto de medidas, não em uma decisão isolada.
Menos licenças, estímulo à produção local e uso da cana em bioetanol formam uma estratégia que pode alterar, ao longo dos próximos anos, o espaço ocupado pelo açúcar brasileiro no Sudeste Asiático.

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