Projeto-piloto em Santos entrega moradias sobre o mangue, combina habitação, saneamento e comércio local, e abre caminho para uma nova etapa prevista no Dique da Vila Gilda, com investimento público e ampliação planejada.
A Prefeitura de Santos entregou, em 30 de abril de 2026, as primeiras 60 moradias do projeto-piloto Parque Palafitas, no Dique da Vila Gilda, na Zona Noroeste da cidade.
A intervenção substitui parte das construções precárias sobre o mangue por apartamentos, casas térreas e estruturas urbanas com saneamento, iluminação pública, áreas de apoio e píer flutuante.
As unidades foram implantadas na mesma região onde as famílias já viviam, sem transferência para bairros distantes.
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Segundo a Prefeitura, a proposta buscou manter os vínculos comunitários e ampliar a infraestrutura em uma área marcada por ocupações sobre palafitas, avanço da maré, descarte irregular de lixo e lançamento de esgoto sem tratamento adequado.
O empreendimento foi construído em uma área de cerca de 4 mil metros quadrados na Vila Gilda.
De acordo com a administração municipal, o investimento total do projeto é de R$ 29,2 milhões, valor relacionado às etapas de fundação, superestrutura e implantação das unidades habitacionais.
A entrega marcou o recebimento simbólico das chaves pelos moradores.
As mudanças foram previstas para começar na primeira quinzena de maio de 2026, após a conclusão das etapas finais de organização das famílias e dos imóveis.
Parque Palafitas reúne apartamentos, casas térreas e áreas de apoio
O Parque Palafitas reúne 44 apartamentos distribuídos em quatro edifícios residenciais e 16 casas térreas.
Quatro dessas casas foram destinadas a pessoas com deficiência, conforme informações divulgadas pela Prefeitura de Santos.
A estrutura do conjunto também inclui blocos comerciais, espaço para associação de moradores, áreas técnicas para instalações elétricas e hidráulicas, calçadas acessíveis, iluminação pública e sistema de captação de energia solar voltado às áreas comuns.
Cada apartamento tem 41,69 m² de área privativa, com sala, dois quartos, cozinha conjugada com lavanderia, banheiro e circulação.
Nas casas térreas, a configuração inclui sala de estar e jantar integradas, cozinha, área de serviço, dois quartos, banheiro e varanda nos fundos.

Parte das unidades recebeu adaptação para moradores com deficiência.
A divisão dos espaços, segundo a Prefeitura, foi planejada para atender famílias que já viviam no Dique da Vila Gilda e que foram selecionadas para a etapa piloto do projeto.
Além das moradias, o complexo prevê espaços voltados ao comércio e à convivência comunitária.
Os blocos comerciais devem abrigar pequenos negócios e serviços locais, enquanto a associação de moradores passa a contar com área própria dentro do conjunto.
Moradias em área de mangue foram erguidas sobre estacas profundas
A técnica construtiva é um dos pontos centrais do projeto.
Como o terreno fica em área de mangue, com solo instável e influência da maré, as unidades foram erguidas sobre lajes apoiadas em estacas profundas.
Segundo a Prefeitura de Santos, foram concretadas 212 estacas, com profundidade entre 30 e 35 metros, para sustentar as estruturas das moradias.
O método guarda semelhança com soluções usadas em obras portuárias, mas foi aplicado em um projeto de habitação popular.
No Parque Palafitas, a estrutura combina lajes de apoio, guarda-corpos e elementos pré-fabricados.
A solução foi adotada para permitir a implantação das unidades em uma área sujeita à maré e a variações do solo, sem a necessidade de retirar todos os moradores do território.
O projeto também inclui abastecimento de água e captação de esgoto pela Sabesp.
A infraestrutura hidráulica prevê caixas separadas para diferentes tipos de efluentes e para água pluvial, de acordo com as informações divulgadas pela administração municipal.
As edificações contam ainda com medidas de segurança contra incêndio.
Nos prédios, há extintores; nas construções de três e quatro andares, a Prefeitura informou a instalação de central de alarme e hidrantes.

Obra em Santos envolve Prefeitura, Estado e União
A área utilizada no projeto foi cedida pela Superintendência do Patrimônio da União à Prefeitura de Santos.
O termo de cessão foi assinado em janeiro de 2024, etapa necessária para permitir a implantação da intervenção no Dique da Vila Gilda.
A execução envolveu recursos do Governo de São Paulo e contrapartida municipal.
A Secretaria de Comunicação do governo paulista informou que o Estado repassou R$ 27,4 milhões por meio da Secretaria de Governo e Relações Institucionais, enquanto a Prefeitura de Santos ficou responsável pelas obras.
O projeto arquitetônico foi elaborado pelo escritório do urbanista e ex-prefeito de Curitiba Jaime Lerner, morto em 2021.
A proposta foi apresentada pela Prefeitura como uma alternativa de urbanização para áreas ocupadas por palafitas, com permanência das famílias na mesma região.
A escolha por manter os moradores próximos ao território de origem foi tratada pelo poder público como uma forma de preservar relações de vizinhança e acesso a serviços.
Não há, no texto original nem nas fontes consultadas, indicação de declaração direta de moradores que permita atribuir avaliações pessoais sobre a mudança.
Projeto habitacional de Santos foi apresentado em eventos internacionais
Antes da entrega das primeiras unidades, o Parque Palafitas já havia sido apresentado em eventos nacionais e internacionais.
Em novembro de 2024, a Prefeitura de Santos levou o projeto ao Smart City Expo World Congress, em Barcelona, na Espanha.
Na ocasião, a arquiteta e urbanista Ariadne Daher, sócia do escritório Jaime Lerner, participou de painel sobre soluções urbanas para cidades mais inclusivas.
A apresentação tratou o Parque Palafitas como uma experiência de urbanização em área de mangue e de reassentamento no próprio território.
A iniciativa também havia sido mostrada em 2022 durante a 14ª Conferência Anual da Rede de Cidades Criativas da Unesco, realizada em Santos.
A participação ocorreu antes da entrega das unidades e integrou a divulgação da proposta de urbanização para a Vila Gilda.
Ampliação do Parque Palafitas prevê mais 350 moradias
A etapa piloto não encerra a intervenção prevista para o Dique da Vila Gilda.
Em 26 de janeiro de 2026, a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano, a Prefeitura de Santos e a Cohab Santista assinaram convênio de R$ 77 milhões para construir mais 350 unidades habitacionais na região.
O acordo prevê 176 moradias em uma área e 174 em outra.
Segundo a CDHU, a execução deve ocorrer em prazo estimado entre 18 e 24 meses a partir do início das obras.
As novas unidades serão conduzidas pela Cohab-ST, com repasse estadual.
A indicação das famílias beneficiadas ficará sob responsabilidade da Prefeitura de Santos, conforme as regras de atendimento habitacional do município.
De acordo com a CDHU, a ampliação tem como objetivo reassentar famílias que vivem em palafitas e em áreas sujeitas a alagamentos.
A medida integra as ações habitacionais voltadas ao Dique da Vila Gilda, considerado pela Prefeitura a maior comunidade de palafitas do Brasil.
Com a entrega das 60 primeiras unidades e a previsão de expansão para outras 350 moradias, o Parque Palafitas passa a ser usado como referência pelo poder público para intervenções em áreas de mangue já ocupadas.
A aplicação desse modelo em novas etapas dependerá da execução dos convênios, da seleção das famílias e da continuidade das obras previstas para o território.
