1. Início
  2. Construção
  3. Imagine um prédio que absorve poluição do ar, se regenera sozinho e fica mais resistente a cada ano que passa: cientistas da ETH Zurich acabam de transformar essa ideia em realidade usando cianobactérias e impressão 3D
Faça um comentário 7 min de leitura

Imagine um prédio que absorve poluição do ar, se regenera sozinho e fica mais resistente a cada ano que passa: cientistas da ETH Zurich acabam de transformar essa ideia em realidade usando cianobactérias e impressão 3D

Imagem de perfil do autor Maria Heloisa Barbosa Borges
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 10/04/2026 às 21:03
Cientistas da ETH Zurich criaram um concreto vivo com cianobactérias e impressão 3D que absorve CO₂, se regenera e fica mais resistente.
Cientistas da ETH Zurich criaram um concreto vivo com cianobactérias e impressão 3D que absorve CO₂, se regenera e fica mais resistente.
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

Cientistas suíços usaram cianobactérias e impressão 3D para criar um concreto vivo que captura CO₂ do ar, repara suas próprias rachaduras e se fortalece com o tempo uma inovação que pode transformar prédios em estruturas que respiram e limpam a atmosfera.

Um grupo de cientistas da ETH Zurich, na Suíça, acaba de apresentar algo que parece saído de um roteiro de ficção científica, mas já funciona em laboratório: um concreto vivo que absorve dióxido de carbono da atmosfera, se autorrepara quando surgem rachaduras e se torna mais resistente com o passar dos anos. A tecnologia combina cianobactérias microrganismos fotossintéticos que existem há bilhões de anos com um hidrogel impresso em 3D que funciona como uma espécie de pele respirável para edifícios. A pesquisa, publicada na revista Nature Communications, contou com a coautoria do pesquisador Mark Tibbitt.

O material não é apenas uma curiosidade de laboratório. Durante testes que duraram 400 dias, os cientistas demonstraram que cada grama do concreto vivo foi capaz de capturar cerca de 26 miligramas de CO₂. Em escala maior, protótipos de fachada atingiram uma absorção anual de até 18 quilos de dióxido de carbono desempenho equivalente ao de um pinheiro de 20 anos. A proposta é direta: transformar as superfícies de prédios em aliadas no combate à poluição urbana, em vez de fontes passivas de degradação ambiental.

O que os cientistas criaram e como o concreto vivo funciona

imagem: IG

De acordo com o portal IG, o concreto vivo desenvolvido pelos cientistas da ETH Zurich não é uma versão melhorada do cimento tradicional é um material fundamentalmente diferente. No centro da inovação está um hidrogel impresso em 3D, uma matriz porosa e rica em água que abriga cianobactérias vivas em condições ideais para a fotossíntese. O design tridimensional da estrutura permite a circulação eficiente de luz solar, água e CO₂, maximizando a capacidade dos microrganismos de capturar carbono e convertê-lo em minerais sólidos.

O processo funciona assim: as cianobactérias utilizam luz solar, água e dióxido de carbono para realizar a fotossíntese, produzindo oxigênio e açúcares. O diferencial é que parte dessa reação gera minerais sólidos que aprisionam o carbono de forma estável e, ao mesmo tempo, reforçam a estrutura interna do material.

É como se o concreto vivo construísse seu próprio esqueleto com o carbono que retira do ar. Os cientistas descrevem o resultado como um material que literalmente cresce mais forte com o tempo o oposto do que acontece com o concreto convencional, que se degrada progressivamente.

Por que os cientistas escolheram cianobactérias para essa tecnologia

As cianobactérias não foram escolhidas por acaso. Esses microrganismos estão entre os organismos mais antigos do planeta, com registros fósseis que remontam a mais de 3,5 bilhões de anos. Os cientistas da ETH Zurich as selecionaram por sua eficiência fotossintética excepcional e por sua capacidade de sobreviver em condições adversas características essenciais para um material que precisa funcionar em fachadas de prédios expostas a variações de temperatura, umidade e luminosidade.

A relação entre as cianobactérias e o hidrogel é simbiótica no sentido funcional. O hidrogel fornece água, nutrientes e proteção física aos microrganismos, enquanto as cianobactérias capturam CO₂ e produzem os minerais que fortalecem a estrutura.

Os cientistas observaram que, ao longo dos 400 dias de teste, o material não apenas manteve suas propriedades, mas as melhorou as rachaduras que surgiam eram preenchidas naturalmente pelo crescimento mineral, e a resistência mecânica aumentou progressivamente. Essa capacidade de autorreparo é particularmente relevante para a construção civil, onde a manutenção de fachadas e estruturas representa um custo significativo ao longo da vida útil de um edifício.

Os números que impressionaram os cientistas nos testes de laboratório

Os resultados quantitativos da pesquisa são o que transformam a ideia de concreto vivo de conceito interessante em proposta viável. Cada grama do material capturou aproximadamente 26 miligramas de CO₂ durante o período de testes, uma taxa que os cientistas consideram significativa quando projetada para a escala de fachadas inteiras de edifícios. Em protótipos maiores, a absorção anual chegou a 18 quilos de dióxido de carbono comparável ao que um pinheiro maduro de 20 anos consegue sequestrar no mesmo período.

Para colocar esses números em perspectiva: a indústria do cimento é responsável por cerca de 8% das emissões globais de CO₂. Se fachadas de edifícios urbanos passassem a absorver carbono em vez de apenas resistir ao tempo, a equação ambiental da construção civil mudaria de forma estrutural. Os cientistas ressaltam que o material não pretende substituir o concreto convencional em funções estruturais pesadas, mas sim funcionar como revestimento ativo para superfícies externas uma camada adicional que transforma paredes passivas em painéis de captura de carbono. Em uma exposição de arquitetura em Veneza, estruturas experimentais semelhantes a troncos de árvores já demonstraram resultados comparáveis aos de árvores maduras.

O papel da impressão 3D no concreto vivo dos cientistas suíços

A impressão 3D não é um detalhe estético no projeto é o que torna o concreto vivo tecnicamente possível. Os cientistas da ETH Zurich utilizam a impressão tridimensional para criar a geometria interna precisa do hidrogel, garantindo que os canais por onde circulam luz, água e CO₂ estejam dimensionados para maximizar a atividade fotossintética das cianobactérias. Uma estrutura mal projetada deixaria partes do material sem acesso a luz ou nutrientes, reduzindo drasticamente sua eficiência.

A tecnologia de impressão 3D também permite que o material seja fabricado em formatos modulares, adaptáveis a diferentes tipos de fachada. Os cientistas já trabalham no desenvolvimento de painéis que podem ser instalados em edifícios existentes, sem a necessidade de demolir ou reconstruir estruturas. Essa modularidade é o que separa uma inovação de laboratório de uma solução aplicável em escala urbana. Se os painéis puderem ser produzidos em série e fixados em prédios já construídos, o impacto potencial da tecnologia se multiplica enormemente não é preciso esperar por novas construções para começar a capturar carbono.

O que falta para o concreto vivo sair do laboratório e chegar às cidades

Os cientistas da ETH Zurich são transparentes sobre os desafios que ainda precisam ser superados. A durabilidade do material em condições reais de exposição chuva, granizo, variações extremas de temperatura ainda precisa ser testada fora do ambiente controlado do laboratório. Os 400 dias de testes demonstraram que o conceito funciona, mas um revestimento de fachada precisa durar décadas para justificar o investimento, não apenas meses.

Para aumentar a longevidade do sistema, os cientistas estudam duas frentes: modificações genéticas nas cianobactérias para torná-las mais resistentes a condições ambientais adversas e a inclusão de nutrientes de liberação lenta no hidrogel.

A ideia é que o material possa operar de forma autônoma por longos períodos sem necessidade de manutenção ou reabastecimento. O custo de produção em escala também é uma variável em aberto o hidrogel impresso em 3D com cianobactérias vivas é, por definição, mais complexo e caro de fabricar do que um revestimento convencional. A viabilidade econômica dependerá de avanços na impressão 3D e na bioengenharia que reduzam o preço por metro quadrado a um nível competitivo.

Por que essa descoberta pode mudar a construção civil como a conhecemos

A proposta dos cientistas da ETH Zurich vai além de criar um material novo. Eles estão propondo uma mudança de paradigma: em vez de edifícios que degradam o ambiente ao longo de sua vida útil, construções que melhoram ativamente a qualidade do ar enquanto se fortalecem. É a diferença entre uma infraestrutura passiva, que apenas resiste ao tempo, e uma infraestrutura ativa, que interage com o ambiente de forma benéfica.

Se a tecnologia se provar viável em escala, as implicações são enormes. Fachadas de prédios comerciais, residenciais e industriais poderiam se tornar superfícies de captura de carbono, complementando florestas urbanas e parques no combate à poluição. Os cientistas estimam que a combinação de painéis modulares com cianobactérias otimizadas pode tornar edifícios funcionalmente equivalentes a árvores no que diz respeito à absorção de CO₂. A arquitetura respirável, como os pesquisadores a chamam, deixaria de ser metáfora e se tornaria descrição literal: prédios que absorvem poluição, se curam sozinhos e ficam mais fortes a cada ano. O concreto convencional tem 2 mil anos de história. O concreto vivo pode ser o próximo capítulo.

Cientistas transformaram cianobactérias e impressão 3D em um concreto que absorve poluição e se regenera sozinho. Você acredita que essa tecnologia pode realmente escalar para as cidades, ou os desafios de custo e durabilidade vão mantê-la presa ao laboratório? Deixe sua opinião nos comentários.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Tags
Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x