Cuba enfrenta uma crise energética que já dura mais de três meses e obrigou a ONU a tomar uma decisão sem precedentes: importar combustível para a ilha com um orçamento de 7,5 milhões de dólares, porque sem diesel não consegue distribuir a ajuda humanitária que 20% da população cubana precisa para sobreviver.
Cuba vive uma paralisia que se mede em contêineres parados nos portos, cirurgias adiadas e crianças sem vacina. A escassez de combustível que assola o país há mais de três meses atingiu um ponto tão crítico que a ONU presente na ilha há décadas precisou recorrer a uma medida que nunca havia adotado em Cuba: importar diesel com recursos próprios, a um custo estimado de 7,5 milhões de dólares, apenas para conseguir transportar a ajuda humanitária que já está no país, mas não consegue sair dos portos. Cerca de 200 contêineres com kits de cozinha, painéis solares, sistemas de purificação de água e alimentos estão retidos, principalmente no sudeste da ilha
A decisão reflete a gravidade de uma crise que vai muito além da falta de gasolina. O Coordenador Residente da ONU em Cuba, Francisco Pichon, alertou que a crise energética tem impacto humanitário sistêmico e crescente, afetando saúde, água, saneamento, alimentação, educação, transporte e telecomunicações. Os números são alarmantes: mais de 96 mil procedimentos cirúrgicos adiados incluindo 11 mil em crianças, 32 mil mulheres grávidas sem acesso estável a atendimento pré-natal, 3 mil crianças com vacinação atrasada e quase meio milhão de estudantes frequentando aulas em dias reduzidos. Cuba, que possui a população mais idosa da América Latina, vê seus idosos incapazes de chegar aos centros de saúde por falta de transporte.
Por que Cuba está sem combustível há mais de três meses
Segundo o portal VEJA, a raiz da crise de combustível em Cuba é uma combinação de fatores que se reforçam mutuamente. O embargo econômico dos Estados Unidos, em vigor há seis décadas, foi significativamente endurecido em janeiro de 2025 com a imposição de um bloqueio petrolífero que reduziu drasticamente a capacidade de Cuba de importar petróleo e derivados.
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O país, que já enfrentava dificuldades crônicas de abastecimento, perdeu sua principal margem de manobra para garantir o mínimo de energia necessária ao funcionamento básico da infraestrutura nacional.
A chegada pontual de quantidades limitadas de combustível incluindo um carregamento de petróleo enviado pela Rússia e autorizado pelos Estados Unidos na semana passada não alterou o quadro geral. Cuba continua operando muito abaixo da capacidade mínima necessária para manter hospitais, transporte público e distribuição de alimentos funcionando.
A população convive com apagões prolongados e mais de um milhão de pessoas já dependem de entregas de água por caminhões-pipa, um sistema que também depende de combustível para funcionar. O ciclo se retroalimenta: sem diesel, não se distribui água; sem água, a crise sanitária se agrava; sem energia nos hospitais, os procedimentos médicos são adiados.
O que a ONU nunca havia precisado fazer em Cuba até agora
A decisão da ONU de importar combustível para Cuba é descrita por seus próprios representantes como inédita na história da organização no país. Étienne Labande, representante do Programa Mundial de Alimentos (PMA) em Cuba, explicou que a organização dispõe de um orçamento de 7,5 milhões de dólares que cobre as necessidades de toda a comunidade humanitária envolvida no plano da ONU para Cuba até dezembro. O dinheiro será usado especificamente para comprar e importar diesel, sem o qual os caminhões que transportam ajuda humanitária simplesmente não se movem.
A escala do problema é concreta: cerca de 200 contêineres estão parados nos portos de Cuba, carregados com suprimentos essenciais que incluem kits de cozinha, painéis solares, sistemas de purificação de água do UNICEF e alimentos do PMA.
Mesmo depois que os fundos forem arrecadados, a ONU estima que levará pelo menos um mês e meio para o combustível chegar à ilha. Enquanto isso, a organização começou a usar transportadoras privadas para mover parte da carga retida uma solução improvisada e mais cara que evidencia o grau de urgência da situação em Cuba.
Os números que revelam a dimensão da crise humanitária em Cuba
Os dados apresentados pela ONU traçam um retrato de Cuba em colapso funcional. Mais de 96 mil procedimentos cirúrgicos foram adiados em todo o país, dos quais 11 mil envolvem crianças. Em um sistema de saúde que já operava sob pressão crônica, o adiamento massivo de cirurgias significa que condições tratáveis se tornam emergências e emergências se tornam fatalidades.
A falta de combustível afeta diretamente a cadeia de frio necessária para conservar medicamentos e vacinas, o transporte de pacientes e o funcionamento de geradores em hospitais.
Aproximadamente 32 mil mulheres grávidas em Cuba estão com acesso instável a serviços pré-natais um dado especialmente grave em um país que historicamente se orgulhava de seus indicadores de saúde materna. Três mil crianças estão com a vacinação atrasada, e quase 500 mil estudantes frequentam aulas em dias reduzidos por causa dos cortes de energia nas escolas. A população idosa, a maior proporcionalmente na América Latina, enfrenta dificuldades para se deslocar até centros de saúde. Francisco Pichon, da ONU, foi direto: as consequências humanitárias continuam a piorar diariamente, apesar dos esforços pontuais de fornecimento de combustível pela Rússia.
O papel do embargo americano no agravamento da crise em Cuba
É impossível analisar a crise de combustível em Cuba sem considerar o papel do embargo econômico dos Estados Unidos, em vigor desde os anos 1960. O bloqueio petrolífero imposto em janeiro de 2025 representou uma escalada significativa, restringindo ainda mais a capacidade de Cuba de adquirir petróleo e derivados no mercado internacional. O mecanismo funciona porque empresas e países que negociam com Cuba correm o risco de sofrer sanções secundárias americanas, o que reduz drasticamente o número de fornecedores dispostos a vender combustível à ilha.
A Rússia, aliada histórica de Cuba, enviou um carregamento de petróleo na semana passada com autorização dos Estados Unidos. Mas o volume foi insuficiente para alterar a situação estrutural do país. Cuba depende de importações para a quase totalidade de seu consumo energético, e sem acesso regular a fornecedores, qualquer carregamento pontual funciona como um paliativo que se esgota em dias. O resultado é que a maior parte da infraestrutura do país opera em regime de emergência permanente, com apagões que duram horas e comunidades inteiras sem acesso a serviços básicos.
O que 20% da população de Cuba depende da ONU para receber
Aproximadamente um em cada cinco cubanos depende diretamente da ajuda humanitária distribuída pela ONU. Essa proporção torna Cuba um dos países do hemisfério ocidental com maior dependência de assistência internacional, e qualquer interrupção no fluxo de suprimentos tem impacto imediato sobre milhões de pessoas. Os itens retidos nos portos não são supérfluos: kits de cozinha para famílias que perderam equipamentos no furacão Melissa, painéis solares para comunidades sem acesso à rede elétrica, sistemas de purificação de água para regiões onde o abastecimento convencional colapsou e alimentos para populações em insegurança alimentar.
O furacão Melissa, que atingiu Cuba recentemente, adicionou uma camada extra de emergência à crise energética já existente. O Coordenador Residente da ONU alertou que os efeitos do desastre natural se sobrepõem à escassez de combustível, criando uma situação em que a capacidade de resposta do Estado cubano e da comunidade internacional está severamente comprometida. Sem combustível, os caminhões não entregam água; sem água tratada, surgem riscos sanitários; sem energia, os hospitais não operam e sem a ajuda humanitária da ONU, a rede de proteção de milhões de cubanos simplesmente deixa de existir.
O que pode mudar na situação de Cuba nos próximos meses
O horizonte de curto prazo para Cuba é de incerteza. A ONU estima que, mesmo no cenário mais otimista, o combustível importado com os 7,5 milhões de dólares levará ao menos um mês e meio para chegar à ilha o que significa que a crise de distribuição de ajuda humanitária deve persistir pelo menos até meados de maio ou junho. O orçamento cobre as operações até dezembro, mas depende da arrecadação efetiva dos fundos, que ainda está em andamento.
No plano geopolítico, a perspectiva de flexibilização do embargo americano permanece distante. Cuba segue presa em um ciclo no qual não tem recursos para importar energia, não consegue gerar o suficiente internamente e depende de gestos pontuais de aliados que não alteram a equação fundamental. A decisão inédita da ONU de importar seu próprio combustível para operar em Cuba é, ao mesmo tempo, um ato pragmático e um indicador da gravidade do momento: quando a maior organização humanitária do mundo precisa comprar diesel para entregar comida, o problema deixou de ser apenas energético e se tornou existencial.
Cuba vive uma crise de combustível que paralisou até a ONU e a solução improvisada de importar diesel com dinheiro da ajuda humanitária revela o tamanho do problema. Você acha que o embargo americano deveria ser revisado nesse contexto? A comunidade internacional está fazendo o suficiente? Deixe sua opinião nos comentários.

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