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Governo planeja contratar 22,8 mil servidores até 2026, mais que o dobro da última gestão, segura decisão sobre Reforma Administrativa e acende alerta de gastos por décadas com supersalários e penduricalhos no serviço público federal

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 15/12/2025 às 10:01 Atualizado em 15/12/2025 às 10:04
servidores pressionam por Reforma Administrativa enquanto supersalários e penduricalhos elevam gastos públicos federais com novas contratações até 2026.
servidores pressionam por Reforma Administrativa enquanto supersalários e penduricalhos elevam gastos públicos federais com novas contratações até 2026.
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Com previsão de 22,8 mil novos servidores efetivos e 24 mil temporários até 2026, governo Lula repõe quadros após aposentadorias em massa, adia a Reforma Administrativa, mantém supersalários e penduricalhos e aumenta a pressão sobre os gastos públicos federais.

O governo Luiz Inácio Lula da Silva projeta chegar ao fim de 2026 com 22,8 mil novos servidores efetivos na administração federal, mais que o dobro dos cerca de 10 mil provimentos registrados durante a gestão Jair Bolsonaro, de acordo com dados do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos. Até 2025 já foram autorizados 19,1 mil provimentos, e a programação prevê 3.652 vagas adicionais em 2026, em um cenário de recomposição acelerada após a onda de aposentadorias iniciada com a Reforma da Previdência de 2019.

Enquanto o Executivo prepara concursos para milhares de novos servidores, mantém em suspenso a decisão sobre a Reforma Administrativa que tramita no Congresso desde o governo anterior, adiando mudanças em carreiras, critérios de desempenho e limites a supersalários e penduricalhos. Especialistas alertam que, sem novas regras aprovadas antes da entrada desses quadros, o país pode consolidar por décadas um patamar mais alto de gasto com pessoal no serviço público federal, em meio a projeções oficiais de que até 456.410 servidores poderão se aposentar entre 2024 e 2074.

Quantas vagas o governo pretende abrir até 2026

Pelos números do Ministério da Gestão, a gestão Lula deve fechar o mandato com 22,8 mil servidores efetivos adicionais na administração federal.

A conta inclui provimentos já autorizados desde 2023 e vagas projetadas até 2026, em ritmo bem mais acelerado que o da gestão anterior, que somou cerca de 10 mil provimentos.

Até este ano, foram 19,1 mil provimentos autorizados.

Para 2026, a estimativa é preencher 3.652 vagas, sendo 3.144 de nível superior e 508 de nível intermediário.

Desse total, 2.480 vagas são imediatas e 1.172 devem ser preenchidas em curto prazo após a homologação dos concursos.

Em paralelo, o governo prevê 24 mil contratações temporárias, principalmente recenseadores do IBGE, com custo menor e menos direitos que servidores efetivos.

Aposentadorias em massa e argumento da recomposição

O Ministério da Gestão sustenta que o aumento das contratações de servidores desde 2023 é um movimento de recomposição da máquina pública após uma combinação de aposentadorias em massa e congelamento de concursos na gestão Jair Bolsonaro.

Depois da Reforma da Previdência de 2019, 38,5 mil servidores se aposentaram, reduzindo a força de trabalho em áreas estratégicas da administração federal.

Mesmo com a entrada de novos servidores, o governo projeta saída líquida de pessoal.

A estimativa oficial é que a gestão Lula possa terminar o mandato com um déficit de até 47 mil funcionários públicos federais entre 2023 e 2026.

A conta combina a criação de até 22 mil vagas no período com a possibilidade de aposentadoria de até 69 mil servidores, o que, na visão da equipe econômica, justificaria a recomposição acelerada.

Pressão futura: 456 mil aposentadorias e folha por décadas

No horizonte de longo prazo, o Ministério da Gestão calcula que 456.410 servidores poderão se aposentar entre 2024 e 2074.

Para especialistas em administração pública, esse volume reforça a necessidade de planejar, desde já, o perfil dos novos servidores e o desenho das carreiras, sob pena de manter uma estrutura de gasto rígida e pouco adaptável às mudanças tecnológicas e sociais.

Em 2023, primeiro ano do atual governo, 12 mil servidores se aposentaram apenas na administração pública federal.

A pasta projeta que aproximadamente 57 mil servidores do Executivo federal poderão se aposentar entre 2024 e 2026, o que reforça a sensação de urgência na recomposição.

Ao mesmo tempo, cada servidor efetivo que entra hoje pode permanecer décadas na folha de pagamento, o que torna a decisão sobre regras de ingresso e progressão central para o equilíbrio fiscal futuro.

Reforma Administrativa parada e impasse político no Planalto

A Reforma Administrativa, que pretende alterar regras de remuneração, avaliação de desempenho e benefícios no setor público, segue parada no Congresso sob relatoria do deputado Pedro Paulo, do PSD do Rio de Janeiro.

O texto não está entre os projetos prioritários para votação neste ano e enfrenta resistências dentro do próprio governo, o que alimenta a leitura de que falta uma decisão clara do núcleo político do Planalto.

Pedro Paulo relata que há opiniões divididas na Esplanada dos Ministérios.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já se manifestou favorável a partes da proposta, como a limitação de supersalários e a criação de regras de desempenho mais rigorosas para servidores.

Por outro lado, integrantes da área de gestão e setores da base governista temem que a reforma fragilize o serviço público e reduza o poder de barganha de categorias organizadas.

Enquanto essa disputa não se resolve, a admissão de novos servidores continua a seguir as regras atuais.

Supersalários, penduricalhos e o risco de cristalizar privilégios

Estudos recentes apontam que o Brasil lidera rankings de supersalários no funcionalismo, com gasto anual em torno de 20 bilhões de reais, quando se consideram remunerações acima do teto e benefícios acessórios.

Além desses supersalários, chamados de penduricalhos, como auxílios e vantagens retroativas, inflacionam superaposentadorias e ampliam a desigualdade interna entre servidores.

A proposta de Reforma Administrativa em discussão prevê tabela única de remuneração, metas obrigatórias de desempenho, fim de privilégios como férias acima de 30 dias e licença-prêmio, além de limitar a 10 por cento os auxílios de alimentação, saúde e transporte para quem recebe acima de 90 por cento do teto constitucional.

Sem essas travas aprovadas, especialistas apontam o risco de que a entrada de novos servidores sob o antigo desenho consolide supersalários e penduricalhos por mais uma geração.

Críticas à “hiperconstitucionalização” e à falta de foco na gestão

O secretário de Gestão de Pessoas do Ministério da Gestão, José Celso Cardoso Junior, avalia que o texto em discussão no Congresso é excessivamente abrangente, levando temas de gestão cotidiana para o nível constitucional.

Na avaliação dele, a reforma acaba criando uma espécie de hiperconstitucionalização de assuntos que poderiam ser tratados em lei ou regulamento, o que reduziria a flexibilidade para ajustes futuros.

De acordo com O Globo, para a professora de Administração Pública da Fundação Getulio Vargas, Alketa Peci, o debate precisa avançar para um modelo que combine avaliação de desempenho estruturada com limitação efetiva de penduricalhos e supersalários.

Na visão da pesquisadora, a ausência de regras claras abre espaço para respostas mais radicais, como as adotadas em momentos de forte polarização política, e aumenta o risco de reformas abruptas que fragilizem o serviço público em vez de modernizá-lo.

Oportunidade de modernização e salto qualitativo nas carreiras

Renata Vilhena, presidente do conselho da ONG República.org, considera que a onda de aposentadorias e a necessidade de repor servidores nos próximos anos constituem uma oportunidade rara de modernizar o serviço público.

Para ela, o foco deveria estar em três eixos: regularidade de concursos, transformação de carreiras e dimensionamento mais preciso da força de trabalho em cada área.

O professor de Administração Pública da Unicamp, Oswaldo Gonçalves Junior, destaca que a disputa de narrativas sobre o papel do Estado vem bloqueando o debate sobre uma reforma administrativa consistente.

Ele afirma que é preciso conciliar o fortalecimento de carreiras estratégicas com arranjos mais flexíveis para outras funções, de modo a permitir um salto qualitativo na gestão.

Sem esse redesenho, a reposição de servidores tende a repetir padrões antigos, com pouca integração entre desempenho, remuneração e entrega de serviços ao cidadão.

Novo projeto de carreiras e impacto de 4,2 bilhões por ano

Paralelamente à discussão da Reforma Administrativa, o governo Lula prepara o envio ao Congresso de um projeto de lei para reestruturar carreiras federais, em linha com a promessa de valorização dos servidores feita desde a campanha.

As mudanças previstas devem atingir cerca de 200 mil servidores, entre ativos e aposentados, com impacto anual estimado de 4,2 bilhões de reais nas contas públicas.

O texto em elaboração cria 8,6 mil cargos efetivos para universidades federais e 225 para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, a serem preenchidos por concursos.

Também propõe uma nova carreira de analista técnico no Executivo, com possibilidade de atuação em diferentes ministérios, substituindo funções hoje fragmentadas entre arquivistas, bibliotecários, contadores e outros cargos de apoio.

Na prática, isso amplia o espaço de ingresso de novos servidores em áreas técnicas, antes mesmo de qualquer definição sobre a Reforma Administrativa.

Contratações hoje definem o formato do Estado nas próximas décadas

Desde 2016, mais de 70 mil servidores já deixaram o serviço público federal, e a projeção de que centenas de milhares podem se aposentar até 2074 indica que o processo de reposição será contínuo.

Cada decisão tomada agora sobre concursos, carreiras, avaliação e benefícios ajuda a definir como será o Estado brasileiro nas próximas décadas, tanto em tamanho quanto em custo e capacidade de entrega.

Para analistas, o dilema central é equilibrar a necessidade de recompor áreas esvaziadas com a responsabilidade de evitar uma trajetória insustentável de gastos com servidores.

Sem uma decisão clara sobre a Reforma Administrativa e sem critérios mais rígidos para supersalários e penduricalhos, a contratação de 22,8 mil novos servidores efetivos até 2026 pode se transformar em oportunidade perdida de reorganizar a máquina pública em bases mais modernas.

Na sua opinião, o governo deveria aprovar uma Reforma Administrativa antes de contratar milhares de novos servidores, mesmo sob pressão de recompor rapidamente a máquina pública federal?

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Bruno Teles

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