Movimento do DFC em Goiás põe Serra Verde e Aclara no radar da estratégia dos EUA para reduzir dependência da China, garantindo escoamento de terras raras brasileiras e levando o refino para fora, enquanto Brasília ainda negocia regras de processamento e contrapartidas antes de qualquer acordo oficial entre governos bilateral.
Recentemente contratos do DFC com mineradoras em Goiás colocaram as terras raras brasileiras no centro de uma disputa industrial que avança sem acordo formal entre os governos brasileiro e americano. A arquitetura financeira abre caminho para que compradores dos EUA tenham prioridade de acesso a parte da produção.
O pacote envolve a Serra Verde, única operação de terras raras em atividade no país, e a Aclara, que está em estágio avançado de projeto no norte goiano. Os acordos incluem empréstimos com possibilidade de conversão em ações e, no caso da Aclara, o anúncio em outubro de uma refinaria nos Estados Unidos até 2028, deslocando valor agregado para fora do Brasil.
Por que o DFC entrou nas terras raras

O DFC (Development Finance Corporation) é um banco estatal americano que financia empreendimentos fora dos EUA e declara que seus investimentos buscam contrabalançar a influência chinesa em cadeias estratégicas.
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No caso das terras raras, o objetivo declarado é ampliar fornecedores fora da China, que concentra 60% da extração global e 90% da capacidade de refino.
A entrada do DFC em projetos no Brasil ocorre antes de qualquer acordo oficial entre governos sobre minerais críticos.
Essa antecipação reduz margem de negociação do Brasil sobre contrapartidas como processamento local, transferência de tecnologia e política industrial associada às terras raras brasileiras.
Serra Verde: US$ 465 milhões para ampliar produção em Goiás
Conforme Folha de S. Paulo, a Serra Verde anunciou em novembro um empréstimo de US$ 465 milhões (R$ 2,5 bilhões) do DFC para viabilizar a ampliação da mina no norte de Goiás.
O contrato não foi divulgado, e pessoas que acompanham o setor avaliam que é provável a existência de compromissos comerciais ligados ao direcionamento de parte da produção ao mercado americano.
Em entrevista no início de dezembro à Reuters, o presidente da Serra Verde, Thras Moraitis, disse que a empresa remodelou contratos com clientes chineses para permitir que parte da produção siga para clientes ocidentais.
O ponto central é que o concentrado exportado é uma etapa anterior ao refino, com menor valor agregado do que óxidos e produtos separados.
A Serra Verde projeta produzir 5.000 toneladas de óxido contido no concentrado de terras raras até o início de 2027 e chegar a 10.000 toneladas até 2030.
O financiamento do DFC é descrito como o mecanismo para acelerar essa curva de produção em Goiás.
Aclara: US$ 5 milhões, estudo de viabilidade e refinaria fora do Brasil
A Aclara fechou em setembro um financiamento de US$ 5 milhões (R$ 27,05 milhões) com o DFC, também com possibilidade de conversão em ações, para completar o estudo de viabilidade de sua mina no norte de Goiás.
Em outubro, a Aclara anunciou que construirá até 2028 uma refinaria nos Estados Unidos para separar o concentrado produzido no Brasil.
Segundo a própria empresa, a refinaria pretende suprir mais de 75% da demanda americana por elementos pesados de terras raras para veículos elétricos até 2028.
Os investimentos previstos para a planta nos EUA são de US$ 277 milhões (R$ 1,5 bilhão), abaixo dos US$ 680 milhões (R$ 3,7 bilhões) projetados para o empreendimento em Goiás.
Em nota, a Aclara afirmou que o contrato com o DFC não garante aportes futuros nem impõe obrigação de direcionamento da produção a compradores dos EUA.
A divergência prática está no local do processamento: processar fora do país reforça a posição industrial americana, ainda que o minério venha das terras raras brasileiras.
Refinar é a etapa estratégica e hoje a China domina
Hoje, refinarias chinesas e uma na Malásia conseguem separar os elementos de terras raras em escala industrial, etapa necessária para obter óxidos usados na indústria automobilística e de defesa.
Empresas americanas, com apoio governamental, investem bilhões para criar alternativas, e os financiamentos do DFC operam como alavanca para acelerar esse movimento.
Para o Brasil, o contexto é sensível: o país abriga a terceira maior reserva de terras raras do mundo, atrás de China e Vietnã.
Quando o refino acontece fora, parte relevante do valor agregado e do aprendizado industrial também sai do alcance de políticas públicas e de clusters em Goiás.
Governo brasileiro quer processamento local e negociações seguem abertas
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinalizou que a geração de valor agregado no Brasil seria condicionante para um eventual acordo com os EUA sobre minerais críticos.
Autoridades brasileiras estiveram nos EUA no início de dezembro para tratar do tema, mas não há indicação de acordo iminente, segundo a própria dinâmica relatada por interlocutores.
O Ministério de Minas e Energia informou que mantém diálogo contínuo com parceiros estratégicos sobre minerais críticos e estratégicos.
Um possível modelo citado no debate é o acordo entre EUA e Austrália, assinado em outubro, no qual os americanos se comprometeram a investir US$ 8,5 bilhões no processamento de minerais críticos no país da Oceania.
O que os EUA buscam além do dinheiro e por que isso afeta a barganha
Especialistas ouvidos por quem acompanha o assunto apontam que, para receber financiamento do DFC, uma empresa tende a aceitar cláusulas que garantam que parte da produção seja destinada aos Estados Unidos.
Ainda que a redação final varie, o efeito econômico é aproximar oferta e demanda americana antes da mesa bilateral.
O executivo Erasto Almeida, da Safe, avaliou que acordos entre governos não são essenciais para projetos avançarem, dado que a mineração brasileira é aberta ao investimento estrangeiro.
Do lado americano, pessoas envolvidas no tema disseram que o governo Trump tem interesse em acordos que assegurem prioridade a empresas americanas em ofertas de minerais críticos extraídos no Brasil ou em reservas licitadas, citando como referência o pacto firmado no início de dezembro com a República Democrática do Congo.
O avanço do DFC sobre Serra Verde e Aclara em Goiás muda o ritmo da disputa por cadeias industriais de terras raras brasileiras ao antecipar acesso a produção e concentrar o refino fora do país.
A decisão que resta ao Brasil é transformar reserva em indústria antes que a vantagem comercial e tecnológica se consolide.
Para acompanhar o tema, monitore os próximos anúncios de capacidade, licenças e investimentos em processamento no Brasil, além das tratativas bilaterais em 2026.
