Com 6.673 demissões e 28 lojas fechadas em seis estados em maio de 2026, o Grupo Mateus vive a maior crise desde que saiu de uma mercearia no Maranhão para se tornar a quarta maior rede varejista do Brasil, enquanto tenta se recuperar de erro de R$ 1,1 bilhão no estoque
Ilson Mateus Rodrigues foi garimpeiro em Serra Pelada nos anos 1980. Não encontrou ouro. Pegou carona num pau de arara de volta ao Maranhão, ouviu de um conhecido sobre uma cidade chamada Balsas que estava crescendo com a soja e foi para lá. Em 1986, abriu uma mercearia de 50 metros quadrados. A principal fonte de faturamento inicial era a venda de cachaça.
Quarenta anos depois, o Grupo Mateus era a 4ª maior rede de varejo alimentar do Brasil, com receita bruta de R$ 43,5 bilhões, mais de 300 lojas espalhadas por nove estados e um IPO que arrecadou R$ 4,63 bilhões na B3 em 2020, o maior de uma empresa nordestina na história do país.
Em maio de 2026, a empresa anunciou o fechamento de 28 lojas e a demissão de 6.673 funcionários em seis estados.
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Os cortes que ninguém esperava de quem fatura R$ 43 bilhões

O número de colaboradores do Grupo Mateus caiu de 47,9 mil para 41,2 mil entre 2025 e o primeiro trimestre de 2026. Uma redução de 13,9% da força de trabalho. Os cortes se concentraram nos estados do Maranhão, Pará, Piauí, Ceará, Sergipe e Bahia, exatamente as regiões onde a empresa construiu seu império e onde a expansão havia sido mais agressiva nos últimos anos.
Das 28 lojas fechadas, 13 eram unidades do segmento de eletrodomésticos e móveis, encerradas ao longo de 2025. As demais foram desativadas no primeiro trimestre de 2026, quando a empresa inaugurou apenas quatro novas unidades no mesmo período. O presidente do conselho de administração, Ilson Mateus Rodrigues, afirmou que mais reduções de despesas estão previstas, mas que elas não envolverão novos cortes de pessoal.
Mesmo após os fechamentos, o grupo encerrou o trimestre com 306 unidades em operação, sendo 228 voltadas ao varejo alimentar.
O erro de R$ 1,1 bilhão que está por trás de tudo
Para entender o que levou a empresa ao processo de enxugamento, é preciso voltar ao terceiro trimestre de 2025, quando o Grupo Mateus revelou ao mercado um problema grave: os estoques registrados no balanço patrimonial de 2024 estavam superavaliados em R$ 1,1 bilhão.
O erro estava nos cálculos do custo médio das mercadorias vendidas, um dos pontos mais sensíveis na contabilidade de qualquer varejista. A empresa registrava menos custos do que deveria, o que inflava artificialmente o lucro bruto e a margem bruta dos trimestres anteriores. Quando o problema foi identificado, o valor dos estoques caiu de R$ 6 bilhões para R$ 4,9 bilhões.
O impacto foi imediato e severo. O patrimônio líquido da empresa encolheu R$ 695 milhões. As reservas de lucro caíram 84%, de R$ 824 milhões para R$ 130 milhões. As ações do GMAT3 despencaram 16,5% em seis meses, apagando R$ 1,9 bilhão em valor de mercado. A empresa contratou uma nova auditoria para reconstruir a confiança dos investidores.
“Eles relatavam um custo de mercadoria de R$ 80, por exemplo, e na verdade ele era de R$ 100. E aí, se você não calcula isso corretamente, o preço de venda fica errado também, e você só vai saber isso na hora de fazer o inventário”, afirmou uma fonte do setor ao jornal O Liberal. O problema, segundo a mesma fonte, era que a empresa também estava com inventários atrasados.
O que o CEO disse sobre o cenário atual
Durante a teleconferência de resultados do primeiro trimestre de 2026, divulgados em maio, o CEO do Grupo Mateus foi direto sobre o momento da empresa.
“A gente percebe que o mercado infelizmente desacelerou bastante”, afirmou o executivo, explicando que a pressão sobre as margens tem três fontes principais: a desaceleração do consumo nas regiões Norte e Nordeste, a deflação de commodities alimentícias que reduziu o ticket médio, e os custos da própria reestruturação.
Os números do trimestre confirmaram o diagnóstico. O lucro líquido caiu 22% na comparação anual, para R$ 213 milhões. O Ebitda recuou 18,2%, chegando a R$ 400 milhões contra R$ 489 milhões no mesmo período de 2025. A margem Ebitda cedeu 1,6 ponto percentual, chegando a 4,3%. O CEO sinalizou que o segundo trimestre segue “bastante desafiador”.
A receita líquida, por outro lado, avançou 12,9% na comparação anual, somando R$ 9,4 bilhões no trimestre. O crescimento, porém, veio quase todo da expansão física e não do desempenho das lojas já existentes. As vendas nas mesmas lojas caíram 1,1%, sinal de que o crescimento orgânico perdeu força.
A concorrência que está mudando as regras do jogo
Por trás dos números do Grupo Mateus há uma transformação estrutural no varejo alimentar brasileiro que vai além dos problemas internos da empresa. O modelo do supermercado tradicional, que foi a base do crescimento da rede maranhense, enfrenta a concorrência crescente do atacarejo, formato operado por gigantes como Assaí Atacadista, Atacadão e Fort Atacadista.
Essas redes chegaram ao Norte e Nordeste com preços mais baixos, margens menores e um apelo direto ao consumidor de baixa renda, exatamente o público que o Grupo Mateus havia conquistado ao longo de décadas. O modelo de atacarejo permite que o consumidor compre tanto em pequenas quanto em grandes quantidades, sem precisar de uma loja separada para cada formato.
O Grupo Mateus percebeu o movimento e tentou se adaptar ainda nos anos 2010, implementando o sistema de atacarejo no Mix Mateus. Mas o avanço dos concorrentes especializados foi mais rápido do que a adaptação da rede. O enxugamento das lojas de eletrodomésticos e a concentração nas unidades mais rentáveis de varejo alimentar fazem parte dessa resposta tardia.
O que dizem os analistas
Apesar do cenário difícil, as maiores casas de análise do país mantêm recomendação positiva para as ações do Grupo Mateus. BTG, XP e Itaú BBA recomendam compra ou “outperform” para o papel GMAT3. Apenas o Santander mantém classificação neutra.
A lógica dos analistas favoráveis é que a reação do mercado ao erro contábil foi exagerada em relação ao impacto real nos resultados operacionais. A empresa segue gerando caixa, tem dívida controlada, com relação dívida líquida/Ebitda de apenas 0,41 vez, e ainda mantém posição de liderança nas regiões onde atua. Para a Bendorf Research, os papéis estão sendo negociados a um preço que não reflete a real posição financeira da companhia.
O que está em jogo agora é a capacidade da empresa de estabilizar as margens, restaurar a confiança dos investidores após o episódio contábil e encontrar um equilíbrio entre a eficiência operacional e a manutenção da presença regional que a tornou grande.
De volta ao começo
A história do Grupo Mateus é, em muitos sentidos, a história do varejo do Norte e Nordeste brasileiro. Uma empresa que cresceu junto com as regiões onde atua, que conhecia o consumidor local como ninguém, que foi da mercearia de Balsas ao maior IPO nordestino da história.
Ilson Mateus voltou do garimpo sem ouro, mas com o que a maioria dos garimpeiros não encontra: uma ideia de negócio e disposição para executá-la. Ele transformou 50 metros quadrados em R$ 43 bilhões de receita anual.
O fechamento de 28 lojas e a demissão de 6.673 funcionários não apagam essa história. Mas marcam o fim de uma fase de expansão acelerada e o começo de algo mais difícil: crescer com eficiência num mercado que mudou, com concorrentes maiores, juros altos e consumidores mais pressionados do que antes.


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