Megaprojeto no Senegal expõe como a dessalinização avança sobre o Atlântico, combina túneis submarinos, engenharia costeira e abastecimento urbano em larga escala, enquanto iniciativas brasileiras miram soluções semelhantes para enfrentar estiagens, pressão sobre reservatórios e a busca por novas fontes de água potável.
A usina de dessalinização de Mamelles, em Dakar, avança como uma das obras mais relevantes da África Ocidental para reforçar o abastecimento de água potável em uma região pressionada pelo crescimento urbano e pela escassez hídrica.
O projeto no Senegal prevê produção inicial de 50 milhões de litros por dia, com expansão planejada para 100 milhões de litros diários, volume equivalente a 100 mil metros cúbicos.
A estrutura foi projetada para captar água diretamente do Oceano Atlântico por meio de obras submarinas executadas com microtunelamento, técnica usada para instalar dutos sob a faixa costeira com menor interferência na superfície.
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Segundo empresas envolvidas na obra, dois emissários subaquáticos de 340 metros foram construídos para a captação da água do mar e para a devolução controlada da salmoura.
A iniciativa senegalesa chama atenção porque combina engenharia costeira, segurança hídrica e tratamento em larga escala em uma mesma operação.
Em vez de depender apenas de rios, reservatórios ou poços, Dakar passa a incorporar o mar como fonte complementar de abastecimento, em um modelo que já desperta interesse em países sujeitos a estiagens prolongadas.
Usina de dessalinização no Senegal usa túneis submarinos no Atlântico
O sistema de Mamelles usa dutos instalados sob o leito marinho para levar a água salgada até a estação em terra firme.
Depois da captação, o líquido passa por etapas de pré-tratamento e dessalinização, processo que remove sais e impurezas até atingir padrões de potabilidade adequados ao consumo humano.
A obra submarina foi desenhada para atravessar a zona costeira sem abrir grandes valas na superfície, reduzindo impactos diretos sobre a praia e áreas urbanas próximas.

No microtunelamento, equipamentos escavam o caminho subterrâneo enquanto os tubos são instalados de forma controlada, técnica comum em projetos que exigem precisão sob áreas sensíveis.
Outro ponto central é a gestão da salmoura, resíduo mais concentrado em sais após a separação da água potável.
Em projetos desse tipo, o descarte precisa seguir licenciamento e controle ambiental, porque a devolução inadequada ao mar pode alterar condições locais de salinidade e afetar organismos marinhos.
A produção prevista para Dakar coloca o empreendimento em uma escala muito superior à dos dessalinizadores usados em comunidades pequenas.
Ainda assim, a lógica técnica é a mesma: captar água salina, retirar o excesso de sais por processos físicos e devolver ao sistema de abastecimento uma água própria para consumo.
Brasil amplia projetos de dessalinização em áreas secas e no litoral
No Brasil, a dessalinização aparece em duas frentes distintas.
A primeira é formada por sistemas menores, voltados principalmente ao semiárido, onde poços com água salobra podem ser tratados para abastecer comunidades rurais.
A segunda envolve projetos costeiros de maior porte, pensados para reforçar regiões metropolitanas próximas ao mar.
O Programa Água Doce, coordenado pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, utiliza sistemas de dessalinização para tratar água salobra de poços e ampliar o acesso à água potável em áreas com escassez.
Até 2025, o programa havia implantado mais de mil sistemas em estados do semiárido brasileiro, segundo dados divulgados pelo governo federal.
Na escala urbana, o Ceará lidera o projeto mais ambicioso em andamento no país.
A Dessal Ceará, prevista para a Praia do Futuro, em Fortaleza, terá capacidade de produzir mil litros de água por segundo, o equivalente a um metro cúbico por segundo, para reforçar o abastecimento da Região Metropolitana de Fortaleza.
O empreendimento cearense passou por etapas de licenciamento ambiental e tem custo estimado em torno de R$ 3 bilhões, considerando construção e operação ao longo de 30 anos.
A proposta busca reduzir a dependência de reservatórios sujeitos à irregularidade das chuvas, problema recorrente no Nordeste e agravado em períodos de seca prolongada.

Fernando de Noronha também mostra como a dessalinização pode se tornar essencial em áreas isoladas.
A produção de água potável no arquipélago depende de sistema que transforma água do mar em água adequada ao consumo, com uso de osmose reversa e equipamentos de pressurização específicos para esse tipo de operação.
Licenciamento ambiental define futuro das usinas no litoral brasileiro
A água do mar passou a ser vista como alternativa estratégica, mas a implantação de usinas exige cuidados técnicos e ambientais.
Mesmo quando não há exigência de outorga nos mesmos moldes aplicados a rios e aquíferos, os empreendimentos precisam passar por licenciamento e apresentar estudos sobre captação, tubulações, consumo de energia e descarte da salmoura.
Esse debate é especialmente importante em cidades litorâneas, onde áreas turísticas, ecossistemas costeiros, cabos submarinos e infraestrutura urbana disputam espaço.
Em Fortaleza, por exemplo, o projeto de dessalinização já esteve associado a discussões técnicas envolvendo a localização das estruturas marítimas e a proteção de equipamentos instalados no litoral.
Na Baixada Santista, o foco atual está mais concentrado na modernização do saneamento e do abastecimento convencional do que em uma grande usina de dessalinização.
A região tem previsão de receber R$ 7,5 bilhões em investimentos da Sabesp até 2029, incluindo obras de água e esgoto nos nove municípios da Baixada.
Santos aparece em posição de destaque no Ranking do Saneamento 2026, elaborado pelo Instituto Trata Brasil com base nos dados do Sinisa de 2024.
A cidade foi apontada como a quarta melhor entre os 100 municípios mais populosos do país, resultado que reforça a importância de redes eficientes antes da adoção de soluções mais caras e complexas.
Cruzeiros mostram uso prático da dessalinização em alto-mar
A dessalinização em ambiente marítimo não é novidade para os grandes navios de cruzeiro.
Essas embarcações funcionam como pequenas cidades flutuantes e costumam produzir parte relevante da própria água potável a bordo, usando sistemas como osmose reversa e evaporação para transformar água do mar em água doce.
A Royal Caribbean afirma utilizar sistemas embarcados de osmose reversa e evaporação a vapor para produzir água fresca durante as viagens.
Esse modelo reduz a dependência de reabastecimento em portos e permite manter operações de hospedagem, alimentação, lavanderia e limpeza em travessias longas.
No processo de osmose reversa, a água salgada é pressionada contra membranas semipermeáveis que retêm sais e outras impurezas.
Já nos sistemas térmicos, a água é evaporada e depois condensada, separando o sal do líquido que será armazenado para uso a bordo.
A experiência dos cruzeiros ajuda a explicar por que a tecnologia avançou em eficiência, controle operacional e confiabilidade.
A diferença, nas usinas urbanas, está na escala e na necessidade de integrar a produção ao sistema público, com redes de distribuição, licenciamento ambiental e monitoramento contínuo da qualidade da água.
Em países com regiões costeiras populosas e reservatórios vulneráveis à seca, a dessalinização tende a ganhar espaço como fonte complementar, não como substituição imediata das formas tradicionais de abastecimento.
O desafio é combinar custo, energia, proteção ambiental e planejamento de longo prazo para que o mar seja usado sem ampliar pressões sobre os ecossistemas costeiros.


A Iniciativa é necessária para garantir o abastecimento de água potável à humanidade e inclusive reabastecer leito de rios, evitando tragédias ambientais e climáticas anunciadas e a possível desertificação em algumas áreas.
Porém penso que devolver a salmoura ao oceano, não é a melhor opção pois o aumento da salinização da água do mar também afetará/comprometerá todo o ecossistema marinho.
Então não só a dessalinização é necessária, mas também aproveitar o rejeito, neste caso o sal marinho, dando o devido tratamento e ou reuso, como a instalação de Salares que possam ser utilizados em outros processos industriais.
Eu me preocupo também se isso não afetará o equilíbrio do ciclo natural hidrológico em alguns lugares.
A salmoura que sobra volta para o mar de onde saiu e voltará a se dissolver na imensidão oceânica. Essa é uma preocupação que não possui qualquer sentido. Toda a água doce do planeta é produzida pela evaporação e dessalinizacao natural dos oceanos num ciclo perpétuo. Bebemos a mesma água que matou a sede dos dinossauros.