Escassez de trabalhadores, êxodo rural e sucessão familiar pressionam o agronegócio brasileiro em uma fase de avanço tecnológico, maior exigência de gestão profissional e busca por jovens preparados para assumir propriedades ligadas à produção de alimentos.
A falta de mão de obra qualificada e a baixa sucessão familiar pressionam o agronegócio brasileiro, sobretudo em cadeias que dependem de gestão técnica, investimento constante e permanência de jovens preparados para assumir propriedades rurais.
Entre 2010 e 2022, o Brasil perdeu 4,3 milhões de moradores rurais, segundo o IBGE, enquanto propriedades agrícolas passaram a exigir mais controle financeiro, planejamento, tecnologia e capacidade de liderança.
Dados do Censo Agropecuário 2017 indicam que o país tinha 15,1 milhões de pessoas ocupadas em estabelecimentos agropecuários e cerca de 77% das propriedades classificadas como agricultura familiar.
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Em Santa Catarina, a renovação geracional preocupa ainda mais porque, entre mais de 321 mil produtores rurais ativos, apenas um em cada dez apresenta indícios de continuidade familiar, conforme levantamento do Sebrae-SC.
Sucessão rural vira desafio estratégico
Manter jovens no campo deixou de ser apenas uma decisão familiar e passou a afetar diretamente a continuidade da produção em cadeias que dependem de eficiência, previsibilidade e gestão profissional.
Nas atividades de aves e suínos, comuns no Sul do país, as propriedades operam com alta exigência técnica e precisam de decisões rápidas sobre custos, manejo, equipes, investimentos e uso de tecnologia.
José Antônio Ribas Junior, diretor-executivo de Agropecuária da Seara, afirma que o setor enfrenta menor disponibilidade de trabalhadores, dificuldade de retenção no campo e um ambiente rural cada vez mais complexo.
“O agro é uma fortaleza para o nosso negócio. Mas hoje temos menos mão de obra disponível, uma dificuldade maior de retenção de pessoas no campo e um ambiente muito mais complexo de gestão”, disse.
Na avaliação do executivo, a sucessão precisa ir além da transferência de patrimônio, já que a nova geração deve administrar propriedades que funcionam como empresas rurais, com indicadores, metas, equipe e planejamento.
Programa forma jovens produtores
Para responder a esse cenário, a JBS, por meio da Seara, lançou o Jovem SuperAgro, programa de capacitação destinado a produtores rurais de 18 a 30 anos ligados a propriedades familiares integradas à companhia.
A primeira edição reúne 60 participantes no Oeste de Santa Catarina e no Norte do Rio Grande do Sul, com uma formação de 18 meses estruturada em parceria com o Sebrae.
Ao longo do programa, jovens produtores participam de aulas presenciais, mentorias, encontros virtuais e projetos aplicados nas propriedades, somando mais de 100 horas de capacitação em gestão financeira, sucessão familiar, liderança, tecnologia e sustentabilidade.
Segundo Ribas, a procura superou a expectativa inicial da empresa, já que quase 150 jovens se candidataram às 60 vagas abertas, sinalizando demanda por qualificação para assumir negócios familiares no campo.
O módulo inicial envolve pais e filhos, com foco exclusivo na sucessão familiar, para transformar a transição em um processo planejado e reduzir dificuldades comuns na transferência de responsabilidades entre gerações.
Tecnologia ajuda a manter jovens no campo
Com sistemas de controle, sensores, automação e acompanhamento remoto, a modernização das granjas tem aproximado jovens da atividade rural e aumentado a necessidade de conhecimento técnico no dia a dia produtivo.
Produtor de suínos em Seara, no Oeste catarinense, Maicon Toffoli, de 28 anos, participa do programa ao lado do pai, Larri Toffoli, em uma propriedade com capacidade para mais de 2 mil suínos em fase de terminação.
“Hoje a tecnologia é muito avançada. Sempre existe algo novo para aprender e isso facilita muito o trabalho”, afirmou Maicon.
Segundo ele, controles de temperatura, ventilação e sistemas digitais permitem acompanhar etapas da produção pelo celular ou pelo computador, o que torna a rotina mais eficiente e amplia o domínio sobre a granja.
Larri assumiu a atividade aos 18 anos, depois da sucessão com o pai, e avalia que os jovens de hoje têm mais acesso à informação, mais oportunidades de estudo e melhores condições para preparar a continuidade do negócio familiar.
Mulheres ganham espaço na gestão rural
A sucessão também tem ampliado a presença feminina em funções de gestão, como mostra a trajetória de Thalia Alberici, de 24 anos, de Entre Rios, em Santa Catarina, integrante da primeira turma do Jovem SuperAgro.
Na propriedade familiar, ela atua nas áreas administrativa, financeira e de recursos humanos de uma Unidade Produtora de Leitões com 1.800 matrizes, além de acompanhar uma granja de terminação com capacidade para 4 mil animais.
Antes de retornar à atividade rural, Thalia trabalhou como técnica de enfermagem, experiência que, segundo ela, contribuiu para a gestão de pessoas e para uma relação mais próxima com os colaboradores.
“A capacitação não substitui a experiência da família, mas prepara o jovem para um sistema completamente diferente do que existia antigamente”, disse Thalia.
Para a produtora, a rotina atual exige atualização constante, liderança e domínio de ferramentas de gestão, além de organização documental, planejamento patrimonial e processos internos mais bem estruturados.
Investimento busca fortalecer a cadeia
Dentro da Plataforma SuperAgro, programa de relacionamento da Seara com mais de 10 mil produtores integrados de aves e suínos no Brasil, o Jovem SuperAgro reforça a estratégia de qualificação da companhia.
Nos últimos dez anos, a Seara afirma ter investido mais de R$ 4 bilhões em capacitação, assistência técnica, tecnologia e competitividade das propriedades ligadas à sua cadeia produtiva.
Para Ribas, formar sucessores melhora a eficiência das granjas e contribui para a sustentabilidade da cadeia, pois jovens mais preparados tendem a tomar decisões rápidas, acompanhar indicadores e fortalecer a permanência das famílias na atividade rural.
A renovação no campo segue ligada à capacidade de transformar propriedades familiares em negócios profissionalizados, sem romper o legado construído por gerações de produtores rurais.

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