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EUA precisam tomar emprestados US$ 2 trilhões só este ano e dívida nacional bate US$ 39 trilhões

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 11/05/2026 às 19:32 Atualizado em 11/05/2026 às 19:37
Tesouro dos EUA precisará emitir mais de US$ 2 trilhões em 2026. Dívida nacional chega a US$ 39 tri e juros já passam orçamentos de Defesa e Educação juntos.
Tesouro dos EUA precisará emitir mais de US$ 2 trilhões em 2026. Dívida nacional chega a US$ 39 tri e juros já passam orçamentos de Defesa e Educação juntos.
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A projeção é do Escritório de Administração e Orçamento da Casa Branca. Para cada mês de 2026, o Tesouro americano precisará emitir mais de US$ 166 bilhões em nova dívida. Só de juros, o governo dos Estados Unidos já pagou US$ 628 bilhões neste ano fiscal, valor que rivaliza com os orçamentos somados de Defesa e Educação.

O Tesouro dos Estados Unidos terá que tomar emprestado mais de US$ 2 trilhões ao longo do atual ano fiscal, apenas para manter o governo americano funcionando, segundo estimativas oficiais divulgadas em 5 de maio de 2026 pelo Treasury Borrowing Advisory Committee. A projeção do Escritório de Administração e Orçamento (OMB) da Casa Branca para o déficit federal de 2026 chegou a US$ 2,06 trilhões, número superior à estimativa do Escritório de Orçamento do Congresso (CBO), que cravou US$ 1,85 trilhão. Em ritmo de emissão, isso significa que, para cada mês deste ano fiscal, o governo americano precisará lançar mais de US$ 166 bilhões em nova dívida, equivalente a cerca de R$ 920 bilhões pela cotação atual. A dívida nacional dos Estados Unidos, que cruzou a barreira de 100% do PIB em março de 2026, está hoje em US$ 38,91 trilhões e caminha para ultrapassar US$ 39 trilhões ainda neste ano. Os juros pagos apenas entre outubro de 2025 e março de 2026 somaram US$ 530 bilhões, valor que rivaliza com o orçamento de Defesa do Pentágono. Pelos cálculos do CBO atualizados em 8 de maio, o serviço da dívida chegou ao impressionante patamar de US$ 3 bilhões por dia.

E o detalhe mais sombrio dessa equação é o que ainda nem entrou na conta.

O que você vai entender neste texto

  • Por que o Tesouro americano terá que pedir empréstimo de US$ 1,6 trilhão a mais do que o previsto, e qual decisão judicial criou esse buraco.
  • Como a dívida americana saltou de US$ 29 trilhões para quase US$ 39 trilhões em apenas alguns anos.
  • Por que os juros, antes considerados gasto secundário, hoje superam o orçamento de Defesa dos Estados Unidos.
  • Como as tarifas de Trump, que pareciam controlar o problema, deixaram o Tesouro mais exposto.
  • O que esse cenário significa para o Brasil, que também vê sua própria dívida pública crescer em ritmo recorde.

A conta de US$ 88 bilhões por mês

Tesouro dos EUA precisará emitir mais de US$ 2 trilhões em 2026. Dívida nacional chega a US$ 39 tri e juros já passam orçamentos de Defesa e Educação juntos.

Aqui está o que dá medida do que o governo americano gasta hoje apenas para honrar dívidas passadas.

Segundo o relatório de 8 de maio do Congressional Budget Office (CBO), o Tesouro pagou US$ 628 bilhões em juros líquidos no atual ano fiscal, que começou em outubro de 2025 e tem dados consolidados até abril. O valor anterior, divulgado no fim de março, era de US$ 530 bilhões. Em outras palavras, em apenas cerca de 30 dias, o governo dos Estados Unidos somou quase US$ 100 bilhões à sua conta de juros.

Para se ter ideia do peso, isso equivale a:

  • Mais de US$ 88 bilhões por mês.
  • Cerca de US$ 22 bilhões por semana.
  • Aproximadamente US$ 3 bilhões por dia, segundo o cálculo da revista Fortune publicado em 11 de maio.

O número rivaliza diretamente com o orçamento de Defesa dos Estados Unidos, que em 2025 foi de aproximadamente US$ 850 bilhões para o ano inteiro. Em ritmo proporcional, o governo americano está pagando, todo dia, mais em juros do que gastou em todo o programa Apollo. E mais do que destina, somado, aos orçamentos federais de educação e defesa nacional.

Como observou o Atlantic Council em coluna assinada pelo presidente do think tank, Frederick Kempe, em 11 de maio: “Esse dinheiro não está construindo estradas, financiando pesquisa, treinando trabalhadores ou projetando força militar. Ele está sendo transferido para detentores de bônus, instituições domésticas, governos estrangeiros e investidores globais, como o preço de empréstimos passados”.

A decisão da Suprema Corte que abriu o buraco

Tesouro dos EUA precisará emitir mais de US$ 2 trilhões em 2026. Dívida nacional chega a US$ 39 tri e juros já passam orçamentos de Defesa e Educação juntos.

E aqui entra o capítulo que poucos brasileiros conhecem.

Em 20 de fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, por 6 votos a 3, que o presidente Donald Trump não tinha autoridade para impor tarifas usando o International Emergency Economic Powers Act (IEEPA). A lei, criada em 1977, dá ao presidente poderes emergenciais para sancionar inimigos econômicos dos Estados Unidos. Trump havia interpretado a lei como autorização para impor tarifas amplas contra praticamente todos os parceiros comerciais americanos. A Corte derrubou.

Quatro dias depois, em 24 de fevereiro, Trump retomou a estratégia tarifária por outra via legal. Assinou ordem executiva impondo tarifa geral de 10% sobre quase todas as importações, usando agora a Seção 122 da Lei de Comércio. A Seção 122 permite ao presidente impor tarifas temporárias quando os Estados Unidos enfrentam “grandes e sérios déficits de balanço de pagamentos”. Mas tem um detalhe: as tarifas só podem durar 150 dias.

A receita gerada pelas tarifas até agora foi substancial. Segundo a Tax Foundation, as tarifas se aplicam a aproximadamente US$ 1,2 trilhão em importações anuais. Os dados do CBO mostram que a receita aduaneira do governo subiu 220% em comparação com o ano anterior. Entre outubro e abril de 2025, os Estados Unidos arrecadaram US$ 59 bilhões em tarifas. No mesmo período deste ano, o número saltou para US$ 190 bilhões.

Mas o relógio das tarifas estabelecidas pela Seção 122 está correndo. Quando expirarem, o Tesouro perderá essa fonte de receita. E é aí que entra o cálculo mais difícil.

Os US$ 1,6 trilhão a mais que viraram urgência

Tesouro dos EUA precisará emitir mais de US$ 2 trilhões em 2026. Dívida nacional chega a US$ 39 tri e juros já passam orçamentos de Defesa e Educação juntos.

Segundo análises técnicas circuladas após a reunião do Treasury Borrowing Advisory Committee de 5 de maio, o Tesouro americano poderá precisar tomar emprestado um adicional de US$ 1,6 trilhão para cobrir o buraco fiscal deixado pela derrota nas tarifas, somado a mais US$ 400 bilhões para pagar juros adicionais. Esses valores estão acima dos US$ 2 trilhões já previstos como déficit padrão.

Em termos práticos, se os números se confirmarem, o ano fiscal de 2026 pode terminar com o Tesouro americano emitindo entre US$ 3,5 e 4 trilhões em nova dívida. Um valor sem precedentes em tempos de paz.

Maya MacGuineas, presidente do Committee for a Responsible Federal Budget, classificou a trajetória como “alarmante”. O Government Accountability Office, braço técnico independente do Congresso americano, foi mais direto em relatório publicado em abril: descreveu o caminho fiscal dos Estados Unidos como “insustentável” e capaz de gerar “sérios desafios econômicos, de segurança e sociais se não for endereçado”.

O salto da dívida em uma década

Para o leitor brasileiro que acompanha o tema, vale recompor o salto.

Em 2015, a dívida nacional dos Estados Unidos era de aproximadamente US$ 18 trilhões. Em 2020, no fim do primeiro mandato de Donald Trump e em meio à pandemia de Covid-19, chegou a US$ 27 trilhões. Em 2025, o segundo mandato de Trump começou com a dívida em US$ 36 trilhões. Hoje, em maio de 2026, são US$ 38,91 trilhões, próximos da marca histórica de US$ 39 trilhões.

A última vez que o governo dos Estados Unidos registrou superávit anual foi em 2001, durante o último ano do mandato Clinton. De lá para cá, todos os anos terminaram em déficit. Em março de 2026, a dívida cruzou a barreira simbólica dos 100% do PIB, marca que economistas costumam citar como ponto de inflexão na sustentabilidade fiscal de qualquer economia. Em julho de 2025, Trump assinou a HR 1, pacote de extensão e ampliação dos cortes de impostos do primeiro mandato. O CBO estimou que o pacote sozinho adicionará US$ 3,4 trilhões à dívida ao longo dos próximos dez anos. Como parte do acordo, o teto da dívida foi elevado de uma vez para US$ 41,1 trilhões, dando margem para que o governo continue emitindo bônus sem precisar negociar novo aumento no Congresso por algum tempo.

A espiral fiscal

E aqui entra o conceito técnico que muda toda a leitura.

Quando a dívida cresce, o governo precisa pagar mais juros. Quando paga mais juros, o déficit aumenta. Quando o déficit aumenta, o governo precisa emitir mais dívida. Cada novo dólar de dívida americana emitido hoje aumenta a conta de juros de amanhã, que por sua vez exige nova dívida. É o que analistas chamam, em inglês, de fiscal spiral. Em português, espiral fiscal.

Por décadas, analistas trataram a espiral fiscal como risco distante. A combinação de baixa inflação, juros próximos de zero e demanda internacional contínua pelos títulos americanos sustentava o sistema. Mas a partir de 2022, três fatores se alinharam para mudar o cenário.

O primeiro foi a alta da inflação global. O segundo foi o ciclo de aperto monetário do Federal Reserve, que elevou os juros básicos americanos para o patamar mais alto em mais de duas décadas. O terceiro foi a deterioração estrutural da arrecadação federal, agravada pelos sucessivos pacotes de corte de impostos. A combinação dos três fatores transformou o que era risco em problema atual.

Como observou o ex-secretário do Tesouro Robert Rubin em coluna no Wall Street Journal, citada pelo Atlantic Council: “Não existe um nível especial em que a dívida passa de problemática a catastrófica. Mas a marca de três dígitos é um símbolo potente das pressões fiscais que se acumulam sobre os Estados Unidos há décadas”.

O que esse cenário significa para o Brasil

E aqui está o ponto que conecta a pauta com o leitor brasileiro.

O Brasil também vive expansão acelerada da própria dívida pública. Segundo dados do Tesouro Nacional, a Dívida Pública Federal brasileira ultrapassou R$ 7,7 trilhões em abril de 2026, número que representa em torno de 78% do PIB. A proporção é menor que a americana em termos de PIB, mas o ritmo de crescimento, considerando a base mais frágil de receita do governo brasileiro, preocupa.

Há ainda uma dimensão indireta. Quando o Tesouro americano emite volumes recordes de dívida, ele compete com governos do mundo inteiro por capital estrangeiro. Para atrair investidores em volume maior, os Estados Unidos precisam oferecer juros mais altos nos seus bônus, o que pressiona automaticamente os juros de longo prazo no mundo inteiro, incluindo no Brasil. Países emergentes pagam mais caro para se financiar.

Em outras palavras, quanto mais os Estados Unidos se endividam, mais o Brasil também paga para se endividar.

O que vem agora

A próxima reunião relevante do Treasury Borrowing Advisory Committee acontecerá em agosto, com nova projeção atualizada. Em paralelo, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, deve apresentar ao Congresso americano um plano de gestão da dívida no segundo semestre, com possíveis emissões adicionais de títulos de longo prazo.

Internamente, a campanha presidencial americana de 2028 já começa a aparecer no horizonte, e os números fiscais devem virar tema central. Externamente, países credores tradicionais (China, Japão, Reino Unido) seguem reduzindo gradativamente seus estoques de títulos do Tesouro americano nos últimos anos, sinalizando que parte do mundo está, devagar, repensando o lugar do dólar como reserva global indisputada.

A pergunta que organiza todo o debate hoje, segundo análises do Foreign Affairs e do Council on Foreign Relations, não é mais se os Estados Unidos têm um problema fiscal estrutural. É quanto tempo o sistema financeiro internacional vai conseguir continuar carregando esse problema sem absorver impacto.

E o número que define o tamanho do problema continua subindo. US$ 3 bilhões por dia.

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Bruno Teles

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