Poeira cósmica artificial produzida em laboratório permite estudar moléculas ligadas à origem da vida e processos que ocorrem no espaço.
Uma pesquisa conduzida na Universidade de Sydney conseguiu reproduzir em laboratório um material semelhante à poeira presente no espaço, abrindo novas possibilidades para investigar como compostos fundamentais para a vida podem ter surgido no Universo. O trabalho feito pela doutoranda Linda Losurdo e o professor David R. McKenzie, teve os resultados publicados em janeiro de 2026 no periódico científico The Astrophysical Journal.
A experiência simulou ambientes extremos encontrados próximos a estrelas e explosões estelares. Para isso, os pesquisadores utilizaram uma combinação de gases submetida a condições semelhantes às do espaço, criando partículas microscópicas que reproduzem características observadas na chamada poeira cósmica. Segundo os autores, a descoberta poderá ajudar a responder uma das questões mais debatidas pela ciência: de onde vieram os ingredientes químicos que deram origem à vida na Terra.
Como a poeira cósmica artificial foi produzida
Para criar o material, a equipe removeu praticamente todo o ar de tubos de vidro utilizando uma bomba de vácuo. Em seguida, foram inseridos três gases:
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- Nitrogênio;
- Dióxido de carbono;
- Acetileno.
Após essa etapa, a mistura recebeu uma descarga elétrica de aproximadamente 10.000 volts durante cerca de uma hora.
Sob essa intensa energia, as moléculas presentes nos gases foram quebradas e reorganizadas em estruturas químicas mais complexas. Com o passar do tempo, esses compostos se depositaram sobre chips de silício posicionados dentro dos tubos, formando uma fina camada de poeira semelhante à encontrada em ambientes espaciais.
O que torna a poeira cósmica artificial tão importante
Os pesquisadores explicam que a poeira interestelar funciona como uma espécie de plataforma química capaz de favorecer a formação de moléculas orgânicas.

O material produzido em laboratório apresentou combinações de carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio, conjunto conhecido pela sigla CHON. Esses elementos participam da formação de diversas substâncias consideradas essenciais para a vida.
De acordo com o estudo, compreender como essas estruturas surgem pode ajudar a esclarecer se os componentes básicos da vida nasceram diretamente na Terra ou se chegaram ao planeta transportados por meteoritos, cometas e outras partículas espaciais.
Assinaturas químicas confirmam semelhança com material espacial
Um dos resultados mais relevantes do trabalho foi a identificação das mesmas marcas infravermelhas observadas na poeira encontrada no espaço.
Essas assinaturas funcionam como uma espécie de impressão digital química utilizada pelos cientistas para reconhecer materiais em regiões distantes do Universo.
A semelhança entre os sinais emitidos pelo material criado em laboratório e aqueles observados em ambientes cósmicos reforça que o experimento conseguiu reproduzir processos que realmente acontecem fora da Terra.
Declarações destacam o potencial da pesquisa
Linda Losurdo afirmou que os pesquisadores não precisam mais depender exclusivamente da chegada de asteroides ou cometas para analisar esse tipo de material. Segundo ela, a recriação desses ambientes em laboratório permite investigar sua composição e compreender melhor sua formação.
A pesquisadora também comparou o experimento à criação de uma pequena parte do Universo dentro do laboratório, destacando o potencial da técnica para estudar processos ocorridos em estrelas antigas e regiões onde novas estrelas estão nascendo.

O que os cientistas pretendem descobrir agora
Uma das metas futuras da equipe é construir uma ampla biblioteca de assinaturas infravermelhas obtidas a partir de diferentes amostras de poeira cósmica artificial. Esse banco de dados poderá auxiliar astrônomos na identificação de regiões espaciais com características semelhantes às reproduzidas nos experimentos.
O professor David McKenzie, coautor do estudo e orientador da pesquisa, afirmou que a técnica permitirá investigar condições impossíveis de serem observadas diretamente no espaço. Segundo ele, compreender fatores como temperatura e intensidade energética durante a formação da poeira pode revelar detalhes importantes sobre ambientes onde ocorrem reações químicas associadas à vida.
Entre aproximadamente 3,5 bilhões e 4,56 bilhões de anos atrás, a Terra recebeu grande quantidade de material vindo do espaço por meio de meteoritos, micrometeoritos e partículas interplanetárias. Apesar de essa hipótese ser amplamente estudada, ainda existem dúvidas sobre a origem dos compostos orgânicos transportados por esses corpos celestes.
A recriação da poeira cósmica artificial representa uma nova ferramenta para investigar esse enigma. Ao reproduzir em laboratório processos que ocorrem em estrelas, supernovas e nuvens interestelares, os cientistas passam a ter acesso a informações que podem ajudar a reconstruir etapas fundamentais da evolução química do Universo e, possivelmente, da própria origem da vida.
