Com 22,3 km, 34 curvas fechadas e altitude de 2.032 metros, a Silvretta High Alpine Road atravessa os Alpes austríacos em um dos trajetos mais impressionantes da Europa.
Há estradas que você dirige para chegar a algum lugar. E há estradas onde o trajeto é o próprio destino. A Silvretta High Alpine Road, na Áustria, definitivamente pertence ao segundo grupo. Com 22,3 quilômetros de extensão, 34 curvas em grampo, e uma subida brutal que atinge 2.032 metros de altitude, esta estrada serpenteia através dos Alpes Austríacos conectando dois estados, Vorarlberg e Tirol, numa rota que deixa até motoristas experientes com as mãos suadas no volante.
Mas não é só a dificuldade que a torna famosa. É o visual absolutamente espetacular: glaciares brilhando ao sol, lagos azul-turquesa de tirar o fôlego, picos nevados que parecem tocar o céu, e uma engenharia tão audaciosa que parece desafiar as leis da física.
Motociclistas do mundo inteiro consideram dirigir nessa estrada um item obrigatório na lista de desejos. Ciclistas profissionais a classificam como uma das subidas mais difíceis da Europa. E mais de 400 mil visitantes por ano pagam pedágio só para ter o privilégio de passar por ela. A Silvretta não é apenas uma estrada. É uma obra-prima de engenharia alpina que levou 29 anos para ser concluída e que, mesmo hoje, fecha metade do ano devido a condições extremas de neve.
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Como a Silvretta High Alpine Road foi construída de trás para frente em 29 anos
A história da Silvretta começou em 1925, mas não como estrada turística. Era uma estrada de construção para um projeto de usina hidrelétrica.
A empresa Illwerke precisava transportar equipamento pesado e trabalhadores para construir uma barragem gigantesca no alto das montanhas. O problema? O terreno era tão íngreme e acidentado que uma estrada convencional seria impossível.
A solução foi radical: construir a estrada de trás para frente, descendo da montanha.
Entre 1925 e 1930, criaram as primeiras rotas de transporte até o Lago Vermunt. Em 1938, durante a construção da barragem de Silvretta, abriram o trecho entre o lago e Bielerhöhe, o ponto mais alto.
Mas o pedaço mais difícil ainda faltava: a subida de Partenen até Vermunt. O terreno era quase vertical. Falésias de rocha. Rios cortando o caminho.
Em 1951, engenheiros usaram uma escavadeira gigante, originalmente feita para cavar reservatórios, para literalmente esculpir a estrada através da paisagem vertical. Trabalhando de cima para baixo.
Finalmente, em 23 de junho de 1954, uma estrada contínua de Partenen a Galtür estava completa. Foram 29 anos de construção. Em 1961, foi expandida para duas pistas completas. Hoje, a estrada que começou como necessidade industrial é uma das rotas panorâmicas mais famosas da Europa.
As 34 curvas em grampo com inclinação de 12% que desafiam motoristas e ciclistas
A Silvretta High Alpine Road não é para cardíacos. A estrada sobe 1.051 metros de Partenen (altitude inicial) até 2.032 metros em Bielerhöhe em apenas 15,1 km do lado de Vorarlberg. Isso é uma inclinação média de 6,6%.
Mas a média engana. Em alguns trechos, a inclinação atinge 12% quase vertical. Nas curvas fechadas, a estrada “alivia” para 5%, mas isso significa que nos trechos retos entre curvas, você está subindo a mais de 10% constantemente.
E depois tem as curvas. 34 curvas em grampo ao longo do percurso total. Curvas de 180 graus onde você precisa reduzir para primeira marcha, girar o volante completamente, e confiar que a engenharia não vai te deixar cair montanha abaixo.
O asfalto é perfeito, descrito por ciclistas como “liso como mesa de bilhar”. Mas isso não torna a estrada fácil. Só torna possível.
Motociclistas amam as curvas. São suaves, bem sinalizadas, e oferecem visibilidade excelente. Mas exigem perícia real, uma freada muito forte ou uma entrada torta, e você está em apuros.
Ciclistas profissionais classificam a Silvretta como categoria 1, mesma classificação de algumas das subidas mais duras do Tour de France. Apenas ciclistas bem treinados conseguem chegar ao topo sem sofrer. Recomendação de equipamento: marcha 34×32 (ou até 34×34 para amadores).
Um ciclista holandês que subiu em 2022 relatou: “A inclinação média é enganosa. A estrada é íngreme do início ao fim, exceto nas próprias curvas e perto do reservatório. Minhas pernas queimavam. Mas as vistas… valem cada gota de suor.”
Glaciares, lagos turquesa e vista de 4 países: o que você vê ao subir para 2.032 metros
Conforme você sobe, o cenário muda dramaticamente. Nos primeiros quilômetros, você passa por pastagens alpinas verdes com vacas usando sinos, o som metálico dos sinos ecoando entre montanhas. Casas de madeira tradicionais com varandas floridas.
À medida que ganha altitude, a vegetação diminui. As árvores desaparecem. Você entra na zona alpina, rochas nuas, neve persistente mesmo no verão, ar rarefeito.
Então você avista o primeiro lago: Vermuntsee (Lago Vermunt). Água azul-turquesa brilhante, cercada por picos rochosos. É um reservatório artificial parte da usina hidrelétrica que justificou a construção da estrada.
Mais acima, o visual fica ainda mais impressionante: Silvretta Stausee (Lago Silvretta) aparece como uma joia turquesa incrustada nas montanhas. A água tem essa cor surreal porque é alimentada por glaciares, a luz solar reflete nas partículas de rocha moída que os glaciares carregam.
Atrás do lago, imponente, está o Piz Buin com 3.312 metros, o pico mais alto da região de Silvretta. Mesmo no verão, seu cume está coberto de neve e gelo.
E então você chega a Bielerhöhe, o ponto mais alto da estrada, a 2.032 metros. Daqui, em dias claros, você consegue ver quatro países: Áustria (onde você está), Suíça, Alemanha, e até Itália ao longe.
É comum visitantes pararem aqui por horas. Tem um restaurante, uma loja de souvenirs, e trilhas de caminhada que começam direto do estacionamento. A trilha ao redor do lago Silvretta leva cerca de 2 horas e oferece vistas ainda mais espetaculares.
Pedágio de €18 mantém estrada alpina funcionando após remoção de 6 metros de neve
Diferente de muitas estradas alpinas, a Silvretta não é gratuita. É uma estrada com pedágio operada pela Illwerke VKW, a mesma empresa de energia que a construiu originalmente.
Preços do pedágio (2023):
- Carro: €18,00
- Carro elétrico: €14,00 (desconto ambiental)
- Motocicleta: €14,50
- E-motocicleta: €11,50
- Ônibus: €4,50 por pessoa (mínimo €36)
- Ciclistas e pedestres: GRÁTIS
Muitos reclamam do preço. “€18 por 22 km?” Um visitante no TripAdvisor escreveu: “Parece muito para uma estrada tão curta.”
Mas há uma razão. Manter uma estrada alpina a 2.000 metros de altitude é absurdamente caro.
Todo ano, antes da estrada reabrir, equipes precisam:
- Remover neve — às vezes com 6 metros de profundidade
- Reinstalar placas e barreiras de proteção
- Reparar o asfalto danificado por gelo
- Remover rochas soltas que caíram durante o inverno
- Especialistas em rocha (“rock clearers”) sobem as encostas acima da estrada para remover pedras instáveis que poderiam cair sobre carros
E tem mais: Em 2024 e 2025, tempestades severas e chuvas torrenciais causaram danos geológicos graves. Deslizamentos de terra. Erosão massiva. Rochas desestabilizadas. Por causa disso, em 2026, o lado de Vorarlberg da estrada vai permanecer completamente fechado. Apenas o lado de Tirol (de Galtür até Bielerhöhe) estará aberto e sem pedágio como compensação.
A empresa está investindo em:
- Barragens de contenção
- Redes de proteção contra queda de rochas
- Redesenho de 500 metros de estrada
Visitantes de Vorarlberg ainda poderão chegar ao topo usando o teleférico Vermuntbahn e um ônibus pelo túnel. Portanto, o pedágio não é lucro. É sobrevivência operacional.
Estrada fecha de outubro a junho: como visitar a Silvretta nos 6 meses de abertura
A Silvretta High Alpine Road só funciona no verão.
Período de abertura: Normalmente de início de junho até final de outubro.
Fechamento de inverno: De final de outubro até junho seguinte.
Por que? Neve. Muita neve.
A 2.032 metros de altitude, o inverno alpino é brutal. Neve acumula 6 metros ou mais em algumas seções. Avalanches são comuns. Temperaturas caem para -20°C ou pior.
Mesmo em setembro — tecnicamente ainda verão — pode nevar. Visitantes sem correntes de neve nos pneus são barrados na entrada.
Um turista indiano relatou sua experiência: “Tentei subir em setembro de 2019. Nevou algumas horas antes. Fui barrado no pedágio. Sem correntes, sem passagem. Recomendo ir no pico do verão julho/agosto para garantir.”
Mas atenção: No pico do verão, a estrada fica lotada. Mais de 400 mil visitantes por ano, concentrados em 5 meses. Isso significa 2.600 veículos por dia em média. Nos finais de semana, muito mais.
O estacionamento em Bielerhöhe fica impossível de encontrar vaga depois das 10h. Chegue cedo ou espere ficar circulando.
Motociclistas, ciclistas profissionais e turistas: quem visita a Silvretta High Alpine Road
A Silvretta atrai públicos muito diferentes.
Motociclistas: Consideram a estrada “a montanha-russa dos Alpes”. Curvas perfeitas, asfalto excelente, vistas de tirar o fôlego. Grupos de motos percorrem a estrada repetidamente só pelo prazer de dirigir.
Ciclistas: É um teste de resistência. Subida de 15 km com 1.000 metros de desnível. Ciclistas profissionais a usam para treinamento. Amadores vêm para se desafiar. Completar a subida é um troféu pessoal.
Motoristas casuais: Vêm pela paisagem. Param a cada mirante. Tiram mil fotos. Almoçam no restaurante Silvrettasee no topo. Caminham ao redor do lago. Para muitos, é a viagem de carro mais bonita que já fizeram.
Caminhantes: A estrada é ponto de partida para trilhas alpinas. De Bielerhöhe, você pode caminhar até o Wiesbadener Hütte (2.443m), um refúgio alpino com vista espetacular do Piz Buin. Ou fazer a trilha ao redor do lago 6,3 km, 2 horas, sem necessidade de equipamento especial.
Entusiastas de carros clássicos: A Silvretta é famosa entre donos de carros antigos. A combinação de estrada desafiadora + paisagem cinematográfica + engenharia histórica a torna perfeita para rallies de carros clássicos.
Por que 400 mil visitantes por ano pagam para dirigir na estrada mais cênica dos Alpes
Tem algo sobre dirigir na Silvretta que muda as pessoas. Talvez seja a escala absurda das montanhas ao redor, você se sente minúsculo, insignificante.
Talvez seja a engenharia audaciosa: humanos literalmente esculpiram uma estrada através de montanhas que parecem intransponíveis.
Talvez seja a beleza bruta: glaciares, lagos azuis impossíveis, picos nevados perfurando o céu.
Ou talvez seja simplesmente a experiência de estar a 2.000 metros de altitude, respirando ar rarefeito, olhando para baixo e vendo o vale tão distante que parece outro mundo. Visitantes deixam comentários que soam quase espirituais:
“Uma das estradas mais bonitas que já dirigi na vida. Cada curva revela uma vista nova e ainda mais impressionante.”
“Planejei ficar 30 minutos. Fiquei 4 horas. Não conseguia ir embora.”
“Vale MUITO mais que os €18. Se eu pudesse, pagaria o dobro só para poder voltar.”
Mesmo ciclistas que sofrem na subida dizem que vale a pena. Um comentou: “Minhas pernas estavam mortas. Meu coração batendo a mil. Mas quando cheguei ao topo e vi o lago cercado de montanhas… esqueci toda a dor.”
Fechamento parcial em 2026: lado de Vorarlberg permanece fechado por danos geológicos
Importante: Em 2026, a Silvretta High Alpine Road não estará totalmente acessível.
Por causa de danos geológicos causados por tempestades em 2024-2025, o lado de Vorarlberg (de Partenen a Bielerhöhe) permanecerá fechado durante todo o verão de 2026.
Mas você ainda pode visitar:
Do lado de Tirol (de Galtür até Vermuntsee), a estrada estará aberta e sem pedágio.
De Vorarlberg, você pode pegar o teleférico Vermuntbahn (operando no verão 2026) + ônibus pelo túnel até Bielerhöhe.
Ou seja: Bielerhöhe, o ponto alto com o lago espetacular, ainda estará acessível. Você só não poderá dirigir até lá pelo lado de Vorarlberg.
A empresa Illwerke está trabalhando em medidas de segurança extensivas para reabrir completamente em 2027.
Silvretta vs Grossglockner: por que a “Estrada dos Sonhos dos Alpes” vale os €18 de pedágio
A Silvretta High Alpine Road não é a estrada alpina mais famosa da Áustria, esse título provavelmente vai para a Grossglockner High Alpine Road.
Mas muitos que dirigiram em ambas dizem que a Silvretta é superior. É menos turística. Menos comercializada. Mais autêntica.
As curvas são mais desafiadoras. As vistas são igualmente espetaculares. E há algo sobre a sensação de estar realmente isolado nas montanhas longe de multidões, cercado apenas por picos e glaciares que a Grossglockner não oferece.
Não é à toa que os austríacos a chamam de “Traumstraße der Alpen” – “Estrada dos Sonhos dos Alpes”.
Porque quando você está no volante, navegando curva após curva, com montanhas monumentais de ambos os lados, glaciares brilhando ao sol, lagos turquesa abaixo, e nada além de natureza selvagem e majestosa ao redor.
Você entende por que mais de 400 mil pessoas pagam para fazer essa jornada todo ano.
Você entende por que motociclistas atravessam continentes só para sentir essas curvas.
Você entende por que ciclistas sofrem subindo 1.000 metros de altitude só para dizer que conquistaram essa montanha.
E você entende por que, mesmo depois de 29 anos de construção brutal, mesmo cobrando €18 de pedágio, mesmo fechando metade do ano.
A Silvretta High Alpine Road continua sendo uma das experiências de direção mais desejadas do mundo.
É uma estrada que você não dirige para chegar a algum lugar.
Você dirige porque o caminho, por si só, vale cada centavo.

