1. Início
  2. / Ciência e Tecnologia
  3. / Espanha transforma reservatórios para gerar energia em escudo contra enchentes: barragens lotadas seguram cheias em fevereiro, evitam desastres e ainda geram energia a ponto de usina nuclear sair da rede
Tempo de leitura 8 min de leitura Comentários 0 comentários

Espanha transforma reservatórios para gerar energia em escudo contra enchentes: barragens lotadas seguram cheias em fevereiro, evitam desastres e ainda geram energia a ponto de usina nuclear sair da rede

Escrito por Carla Teles
Publicado em 17/02/2026 às 14:13
Atualizado em 17/02/2026 às 14:15
Assista o vídeoEspanha transforma reservatórios para gerar energia em escudo contra enchentes barragens lotadas seguram cheias em fevereiro, evitam desastres e ainda geram energia
Reservatórios e barragens na Espanha viram escudo contra enchentes, controlam a vazão dos rios e ampliam a geração hidrelétrica em eventos extremos. Imagem: Wikimedia/Commons
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo

Com barragens lotadas durante as tempestades de fevereiro, a Espanha passou a usar a mesma infraestrutura construída para água e eletricidade como escudo contra enchentes, segurando cheias em grandes rios e protegendo cidades em diferentes regiões do país.

Imagens de comportas abertas, paredes de água caindo em cascata e rios como o Douro descendo com força impressionante chamaram a atenção nas redes sociais. Por trás do espetáculo, porém, operava uma estratégia precisa: reservatórios projetados para abastecimento e geração hidrelétrica foram operados como escudo contra enchentes, absorvendo parte do volume das tempestades, reduzindo picos de vazão e evitando que episódios críticos se transformassem em desastres para quem vive a jusante das barragens.

Enquanto o público via apenas um show de engenharia e natureza, equipes técnicas trabalhavam com margens estreitas. No País Basco, no sistema do Zadorra, e no sul, em reservatórios como Iznájar, as estruturas precisaram receber volumes excepcionais em poucos dias e, ao mesmo tempo, liberar água de forma controlada. Em paralelo, o excesso de armazenamento hidrelétrico foi tão grande que tornou a energia nuclear menos competitiva, a ponto de a usina de Trillo ser retirada da rede em meio à abundância de geração hídrica.

Quando um inverno inteiro cai em poucos dias

Para entender o que aconteceu em fevereiro, é preciso olhar primeiro para o cenário hidrometeorológico. No País Basco, o inverno veio concentrado em episódios de chuva muito intensa em intervalos curtos.

Em vez de um regime distribuído ao longo dos meses, grandes volumes caíram em janelas de poucos dias, colocando à prova a capacidade de resposta dos sistemas de regulação.

Nessas condições, áreas montanhosas com solos já encharcados respondem rapidamente às tempestades, elevando de forma brusca o nível dos rios.

Foi o que ocorreu em bacias controladas pelos sistemas Zadorra e Añarbe, que precisaram ser operados com atenção permanente à combinação de vazão afluente, previsão de novas frentes frias e limites de segurança dos reservatórios.

Esse padrão não ficou restrito ao norte. Em outras partes da península, reservatórios próximos de 80 por cento da capacidade, como Santa Teresa no sistema do Tormes, tiveram de iniciar descargas preventivas para reduzir o risco a jusante.

Na Andaluzia, o reservatório de Iznájar, o maior da região, saiu de um nível crítico em torno de 25 por cento para mais de 50 por cento em cerca de duas semanas, atingindo patamares que não se via em uma década.

O resultado foi a combinação de alívio da seca com riscos localizados. Em áreas como Grazalema, em Cádiz, a saturação dos solos levou à emergência de água diretamente do terreno e à necessidade de evacuações preventivas para reduzir o perigo às comunidades.

Do abastecimento ao escudo contra enchentes

As grandes barragens espanholas foram construídas, em sua maioria, com objetivos claros: garantir água para consumo humano, irrigação e indústria e gerar eletricidade por meio de usinas hidrelétricas.

Elas não foram originalmente concebidas como barreiras dedicadas ao controle de cheias, mas hoje cumprem exatamente esse papel em situações de extremo.

Segundo o diretor de Planejamento e Obras Hidrológicas da Agência Basca de Águas, as estruturas de regulação se tornaram essenciais para moderar enchentes mesmo sem terem sido desenhadas especificamente para isso.

A razão é simples: um grande reservatório funciona como um pulmão do sistema, capaz de armazenar parte do volume que chegaria de forma instantânea aos vales e cidades.

Na prática, isso significa operar com o conceito de reserva. Em períodos de maior risco, as equipes deixam deliberadamente um espaço livre no reservatório, abrindo comportas antes da chegada das grandes frentes de chuva.

Esse volume disponível é o que permite que, durante a fase crítica da tempestade, o lago artificial absorva boa parte da água adicional sem precisar despejar tudo de uma só vez rio abaixo.

Ao agir como escudo contra enchentes, a barragem transforma um pico abrupto de vazão em uma curva mais suave, alongando no tempo a descarga e reduzindo o nível que chegaria às zonas urbanas. Essa lógica foi central para evitar cenários de inundação ampla nas bacias mais pressionadas em fevereiro.

Coordenação milimétrica entre comportas, rios e previsão do tempo

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

O exemplo do rio Zadorra ilustra o grau de precisão necessário em situações de crise. O sistema de reservatórios dessa bacia controla cerca de 60 por cento da área a montante, o que dá ao operador uma capacidade significativa de intervir no fluxo.

Em um dos momentos mais delicados do episódio, o volume que entrava no sistema chegava a aproximadamente 260 metros cúbicos por segundo, enquanto a vazão liberada pelas comportas era de apenas 54 metros cúbicos por segundo.

Essa diferença representava, em termos práticos, a inundação que deixava de ocorrer a jusante graças ao amortecimento proporcionado pela barragem.

Já no sistema de Añarbe, responsável pelo abastecimento da região de Donostialdea, a situação era diferente. Ali, a infraestrutura controla apenas cerca de 23 por cento da bacia.

A maior parte da água segue livre pelo curso natural do rio, o que reduz a margem de manobra. Ainda assim, a estratégia era semelhante: fechar comportas nos momentos mais críticos para reter o máximo possível, dentro dos limites de segurança da estrutura.

Essa operação não acontece de forma isolada. Agências como a URA, a Autoridade da Bacia do Ebro e a Autoridade da Bacia do Cantábrico atuam em coordenação para alinhar decisões, compartilhar dados e ajustar a operação em função das previsões meteorológicas e das leituras em tempo real. Trabalha-se, nas palavras dos próprios técnicos, com um olhar nos rios e outro no céu.

Nem toda barragem protege da mesma forma

Em meio ao reconhecimento do papel das grandes barragens como escudo contra enchentes, surge uma aparente contradição: por que algumas estruturas em rios bascos vêm sendo demolidas nos últimos anos?

A resposta está na diferença entre grandes reservatórios de regulação e pequenas barreiras de baixa altura. As primeiras têm capacidade volumétrica e sistemas de descarga dimensionados para influenciar de fato o regime do rio em situações de cheia.

Já as segundas, muitas vezes antigas e sem função operacional relevante, podem até agravar enchentes locais ao elevar o nível da água em determinados pontos.

Por isso, a remoção de pequenos obstáculos segue dois critérios principais. Do ponto de vista ambiental, a eliminação de barreiras permite a migração de peixes e melhora a conectividade dos ecossistemas aquáticos.

Do ponto de vista hidráulico, a retirada de estruturas que pouco contribuem para a regulação reduz o risco de represamentos indesejados em eventos de chuva intensa.

Ou seja, reforça-se o papel das grandes infraestruturas que realmente funcionam como escudo contra enchentes, ao mesmo tempo em que se elimina o que pode aumentar a vulnerabilidade em escala local.

Sedimentos, clima extremo e a lição das chuvas de fevereiro

Se, por um lado, as barragens mostraram capacidade de evitar cenários mais graves, por outro, os eventos recentes expuseram limites importantes.

Chuvas torrenciais transportam grandes volumes de sedimentos que se acumulam no fundo dos reservatórios. Com o tempo, esse material ocupa parte do volume útil de armazenamento e reduz a folga disponível para absorver novas cheias.

Organizações ambientais e especialistas alertam que, além de diminuir a capacidade efetiva de amortecer enchentes, o assoreamento pode comprometer dispositivos de segurança, como saídas de fundo usadas para descargas controladas.

Quando a vida útil de um reservatório é encurtada pelo sedimento, perde-se justamente parte da função de proteção que se mostrou decisiva em episódios como o de fevereiro.

Há ainda um componente de mudança climática que torna o desafio mais complexo. Estudos sobre barragens em cenários de aquecimento apontam que estruturas projetadas com base em séries históricas de chuva e vazão tendem a operar com maior incerteza diante de eventos extremos mais frequentes e intensos.

Em alguns cenários, o risco de transbordamento pode aumentar várias vezes em comparação com o que se observava no século passado, se a gestão não for adaptada à nova realidade.

No plano energético, o episódio também deixou uma marca. Com tanta água acumulada nos reservatórios e alta disponibilidade para geração hidrelétrica, as condições de mercado levaram a usina nuclear de Trillo a ser desconectada da rede em determinado momento.

A energia armazenada sob a forma de água em altitude se tornou suficiente para suprir a demanda com menor custo naquele período específico.

Um teste de estresse para a infraestrutura hídrica espanhola

O conjunto de eventos de fevereiro funcionou como um teste de estresse em escala real para o sistema de barragens da Espanha.

Estruturas desenhadas décadas atrás, com objetivos centrados em abastecimento e energia, precisaram operar em um contexto de tempestades concentradas, solos saturados e necessidade de proteção de cidades e áreas rurais.

A resposta mostrou que, com planejamento, monitoramento e margem de reserva, essas obras podem atuar como escudo contra enchentes eficaz, reduzindo picos de vazão e ganhando tempo valioso para as populações a jusante.

Ao mesmo tempo, evidenciou que fatores como assoreamento, variabilidade climática e limites de projeto exigem atualização constante dos planos de operação e dos investimentos em manutenção e modernização.

No fim, a lição é clara: a mesma infraestrutura que garante água na torneira e energia nas tomadas pode ser decisiva para evitar desastres em períodos de chuva extrema, desde que seja gerida com critério técnico e visão de longo prazo.

E você, acha que países como o Brasil deveriam investir mais em usar reservatórios como escudo contra enchentes, adaptando a operação das barragens para lidar com eventos climáticos cada vez mais intensos?

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Carla Teles

Produzo conteúdos diários sobre economia, curiosidades, setor automotivo, tecnologia, inovação, construção e setor de petróleo e gás, com foco no que realmente importa para o mercado brasileiro. Aqui, você encontra oportunidades de trabalho atualizadas e as principais movimentações da indústria. Tem uma sugestão de pauta ou quer divulgar sua vaga? Fale comigo: carlatdl016@gmail.com

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
Ir para o vídeo em destaque
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x