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A China baniu o pastoreio livre de cabras e ovelhas em partes do planalto mais erodido do planeta e, junto com terraços e milhares de barragens, conseguiu reverdecer encostas que despejavam 1,6 bilhão de toneladas de terra por ano no Rio Amarelo, num dos maiores resgates ambientais da história

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 23/05/2026 às 16:41
Atualizado em 23/05/2026 às 16:43
Assista o vídeoA China baniu o pastoreio e usou terraços e barragens para reverdecer o planalto mais erodido do mundo, que despejava 1,6 bilhão de toneladas de terra no Rio Amarelo.
A China baniu o pastoreio e usou terraços e barragens para reverdecer o planalto mais erodido do mundo, que despejava 1,6 bilhão de toneladas de terra no Rio Amarelo.
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A medida sozinha não explica o milagre: ela veio acompanhada de terraços, reflorestamento pago e milhares de pequenas barragens que entupiram os barrancos de propósito. O resultado tirou 2,5 milhões de pessoas da pobreza e fez o sedimento despejado no rio cair mais de 1 bilhão de toneladas por ano, num esforço que durou décadas.

A China baniu o pastoreio livre de cabras e ovelhas em partes do Planalto de Loess, reconhecido como a região de erosão de solo mais severa do planeta, e, combinando essa proibição com a construção de terraços e de milhares de pequenas barragens, conseguiu reverdecer encostas que chegaram a despejar cerca de 1,6 bilhão de toneladas de terra por ano no Rio Amarelo. O esforço, iniciado em parceria com o Banco Mundial em 1994 e ampliado a partir de 1999, é considerado um dos maiores resgates ambientais da história.

Localizado no curso médio do Rio Amarelo, no norte da China, o Planalto de Loess sofreu séculos de degradação causada por desmatamento, agricultura em encostas íngremes e pastoreio descontrolado. A enorme quantidade de sedimentos que escorria das encostas para o rio rendeu ao Rio Amarelo sua famosa cor barrenta e o triste apelido de tristeza da China, por causa das enchentes catastróficas que provocava ao longo de milhares de anos. Reverter esse quadro exigiu uma das mais ambiciosas intervenções ecológicas já tentadas.

O planalto mais erodido do mundo

A China baniu o pastoreio e usou terraços e barragens para reverdecer o planalto mais erodido do mundo, que despejava 1,6 bilhão de toneladas de terra no Rio Amarelo.
O Planalto de Loess se estende por uma vasta área no norte da China, em uma das regiões que serviram de berço para a civilização chinesa.

Seu solo, chamado loess, é um sedimento fino trazido pelo vento, extremamente fértil e bom para a agricultura, mas também muito fácil de ser levado pela água da chuva. No passado, florestas e pastagens naturais mantinham essa camada de solo no lugar, em equilíbrio com o ambiente.

O problema começou quando os seres humanos passaram a tratar a terra como um depósito inesgotável de recursos. As florestas foram derrubadas para virar lenha, as encostas foram aradas para a agricultura, e rebanhos de cabras e ovelhas devoravam os últimos brotos de vegetação. Sem a cobertura vegetal para segurar o solo, a água da chuva passou a escorrer livremente pelas encostas, arrancando a terra fértil e cavando ravinas profundas, num processo de erosão que se tornou o mais grave do planeta.

O Rio Amarelo e a tristeza da China

A China baniu o pastoreio e usou terraços e barragens para reverdecer o planalto mais erodido do mundo, que despejava 1,6 bilhão de toneladas de terra no Rio Amarelo.
Todo esse solo arrancado das encostas tinha um destino: o Rio Amarelo.

Considerado o rio-mãe da China, ele alimenta a civilização chinesa há mais de quatro mil anos e ainda hoje fornece água para dezenas de milhões de pessoas. Mas o excesso de sedimentos transformou esse mesmo rio em uma ameaça, já que a lama elevava o leito e fazia a água transbordar com facilidade, provocando inundações devastadoras ao longo da história.

Os números da degradação impressionam. Entre o início e meados do século XX, o Planalto de Loess chegou a despejar cerca de 1,6 bilhão de toneladas de sedimentos por ano no Rio Amarelo, a maior carga de sedimentos registrada em qualquer rio do mundo. Foi a percepção de que o desmatamento e a erosão a montante agravavam as enchentes que levou a China a agir em larga escala, entendendo que a degradação do solo ameaçava não só o ambiente, mas a segurança alimentar e hídrica do país.

O banimento do pastoreio foi só uma das peças

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Aqui é fundamental esclarecer um ponto que costuma ser simplificado. O banimento do pastoreio livre de cabras e ovelhas foi sim uma das medidas centrais do resgate, mas não foi a única, nem foi aplicado no planalto inteiro. A proibição valeu para áreas críticas e veio acompanhada de um conjunto integrado de ações, conduzidas pelo governo chinês em parceria com o Banco Mundial, dentro do chamado Projeto de Reabilitação da Bacia do Planalto de Loess.

Segundo o Banco Mundial, o projeto se baseou em quatro decisões de política fundamentais: proibir o plantio em encostas muito íngremes, banir o pastoreio livre, incentivar o confinamento dos animais e garantir os direitos de uso da terra aos agricultores. Em vez de deixar os rebanhos subirem livremente as encostas e devorarem a vegetação que tentava se recuperar, os moradores passaram a criar os animais em currais, cortando e levando o pasto até eles, num modelo conhecido como corte e transporte.

Terraços e barragens: a engenharia que segurou a terra

Banir o pastoreio e a agricultura nas encostas não bastaria se as pessoas perdessem seu sustento. Por isso, a China reconstruiu a própria paisagem do planalto. Dezenas de milhares de hectares de encostas íngremes foram transformados em campos em terraços, plataformas planas escavadas na lateral das colinas que freiam a água da chuva degrau por degrau, dando ao solo tempo para absorver a umidade e reter os sedimentos em vez de deixá-los escorrer.

Ao mesmo tempo, foram construídas milhares de pequenas barragens de retenção, conhecidas como check dams, dentro das ravinas mais profundas. Essas estruturas funcionavam como pontos de sutura na paisagem: quando a água da enchente descia, elas freavam o fluxo e prendiam a lama atrás de si, criando aos poucos novas áreas planas e férteis para a agricultura. Os terraços, segundo o Banco Mundial, chegaram a aumentar a produtividade das lavouras entre 50% e 100% em relação às antigas terras inclinadas.

Pagar para mudar o modo de vida

Um dos aspectos mais inteligentes do projeto foi não apenas proibir, mas oferecer alternativas. Por meio do programa Grão por Verde, lançado em 1999, o governo chinês passou a pagar os agricultores para que parassem de cultivar nas encostas íngremes, fornecendo mudas de árvores, subsídios em alimentos e pagamentos em dinheiro para quem convertesse a terra em floresta ou pastagem. A ideia era aliviar a pressão humana sobre o ecossistema e dar à natureza a chance de se recuperar sozinha.

Essa abordagem evitou que a indústria pecuária entrasse em colapso, como muitos temiam. Pelo contrário, o número de animais de maior produtividade chegou a aumentar em vários lugares, agora criados de forma controlada. Vale registrar, em nome do equilíbrio, que estudos apontaram problemas pontuais: em algumas áreas, os pagamentos chegaram atrasados ou foram insuficientes, e nem todas as famílias tiveram liberdade total para decidir se queriam participar ou que árvores plantar.

Os resultados do maior resgate ambiental

Os números do resgate são expressivos. Segundo o Banco Mundial, o projeto recuperou mais de 35 mil quilômetros quadrados de terra em mais de mil microbacias do Rio Amarelo e tirou cerca de 2,5 milhões de pessoas da pobreza, com a renda local chegando a mais que dobrar em muitas áreas. A cobertura vegetal aumentou de forma significativa, e a quantidade de sedimentos que chega ao Rio Amarelo caiu mais de 1 bilhão de toneladas por ano em comparação com o passado.

Um estudo publicado na revista Nature Climate Change em 2016 mostrou que a China converteu mais de 11 mil milhas quadradas de lavouras de sequeiro do planalto em florestas ou pastagens, ajudando a cobertura vegetal a crescer cerca de 25% em apenas uma década. Imagens de satélite da NASA registraram o planalto mudando, ano após ano, de um marrom-amarelado árido para tons cada vez mais verdes, enquanto as tempestades de poeira diminuíam e os lençóis freáticos voltavam a subir.

O documentarista que mostrou a transformação ao mundo

Boa parte da repercussão internacional desse resgate se deve ao trabalho de John D. Liu, que antes de se dedicar a projetos ecológicos havia sido produtor e cinegrafista de uma rede de TV americana por cerca de 15 anos. Convidado pelo Banco Mundial para filmar e estudar a recuperação do Planalto de Loess, ele documentou ao longo de muitos anos a mesma colina, do mesmo ângulo, registrando as cores mudarem lentamente do amarelo árido para o verde.

Seu documentário sobre o tema viajou o mundo, foi exibido em conferências internacionais do clima e ajudou a transformar a forma como cientistas e governos pensam a restauração de ecossistemas. A mensagem central de Liu é poderosa: muitos dos chamados desastres naturais, como enchentes, deslizamentos e secas, podem ser, na verdade, resultado da destruição prolongada dos ecossistemas pela ação humana, e podem ser revertidos quando essa pressão diminui.

O caso do Planalto de Loess é hoje citado como um dos maiores exemplos mundiais de solução baseada na natureza, justamente porque não dependeu de máquinas futuristas ou tecnologia mirabolante, mas da decisão de parar de forçar o ecossistema além dos seus limites. A China mostrou que uma terra considerada quase morta pode voltar à vida quando os humanos param de destruí-la por tempo suficiente, combinando ciência, políticas públicas e mudança no modo de vida das pessoas. Resta a pergunta sobre se esse modelo pode ser replicado em outras terras degradadas pelo planeta.

Você acredita que esse modelo da China de reverdecer o Planalto de Loess poderia ser aplicado em áreas degradadas do Brasil, como regiões de desertificação no Nordeste? Acha que proibir certas atividades e pagar para a natureza se recuperar é o caminho certo? Deixe seu comentário, conte o que pensa sobre esse resgate ambiental e compartilhe a matéria com quem se interessa por meio ambiente, agricultura e sustentabilidade.

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Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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