Retorno ao campo, parceria familiar e tecnologia mudaram o rumo do Sítio Dois Irmãos, em Nuporanga, onde Ronaldo e Rogério Cano trocaram a aposentadoria por uma granja de frangos integrada à Seara JBS e já projetam expandir a atividade.
Ronaldo e Rogério Cano deixaram para trás quase 40 anos de trajetória no setor elétrico para transformar o Sítio Dois Irmãos, em Nuporanga, no interior de São Paulo, em uma granja de alta tecnologia voltada à avicultura de corte.
Ao voltar para a propriedade herdada dos avós e dos pais, os irmãos recolocaram a família no campo, preservaram a história rural do sítio e abriram caminho para um novo negócio depois da aposentadoria.
Criados na pequena área familiar, os dois passaram boa parte da vida adulta longe da lida rural, enquanto construíam carreiras em cooperativas e grandes empresas de energia, com passagens por cidades como Franca e Guaíra.
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Com a aposentadoria, ganhou força o desejo de retornar às origens e dar função produtiva ao patrimônio familiar, sem romper o vínculo afetivo que os irmãos mantinham com a propriedade desde a infância.
Avicultura em Nuporanga virou alternativa para pequena propriedade
Por causa do tamanho reduzido da área, culturas tradicionais como soja e milho não ofereciam a escala necessária para sustentar o sítio, o que levou Ronaldo e Rogério a buscar uma atividade mais compatível com a realidade local.
Nesse cenário, a proximidade com o frigorífico da Seara JBS foi decisiva para a escolha da avicultura de corte, já que a localização favorecia a integração da propriedade à cadeia regional de produção de frangos.
A partir dessa oportunidade, os irmãos passaram a enxergar os aviários como uma forma de manter o sítio produtivo, preservar o legado familiar e evitar que a área herdada perdesse relevância econômica após a sucessão.

Mesmo com o projeto definido, a viabilidade financeira ainda representava o maior entrave, porque a construção dos galpões exigia investimento elevado e os bancos não liberavam crédito suficiente diante da falta de garantias para hipoteca.
Sociedade familiar destravou o crédito para os aviários
Para superar a barreira do financiamento, Ronaldo e Rogério ampliaram a base do negócio e convidaram o cunhado Leandro e o amigo de infância Marcelo, apresentado como investidor experiente, para participar da sociedade.
Com a entrada de Marcelo, o grupo obteve o respaldo financeiro necessário para destravar as negociações bancárias, permitindo que a construção dos aviários avançasse depois de um período marcado por incertezas e negativas de crédito.
A divisão das funções seguiu a experiência de cada sócio, combinando operação, administração, compras, manutenção e suporte financeiro em uma estrutura pensada para reduzir falhas no começo da atividade rural.
Dentro dos galpões, Rogério assumiu o manejo diário das aves, acompanhando ambiência, cama e comportamento do plantel, enquanto Ronaldo passou a cuidar dos pagamentos e da parte burocrática do empreendimento.
Na área de apoio, Leandro ficou responsável pela busca de fornecedores, compra de insumos e manutenção pesada, ao passo que Marcelo permaneceu como investidor estratégico do grupo, dando sustentação financeira ao projeto iniciado em meados de 2025.
Galpões automatizados exigiram adaptação rápida
A chegada à avicultura exigiu uma adaptação intensa dos irmãos, que vinham de uma carreira no setor elétrico e encontraram uma rotina marcada por sensores, automação, controle ambiental e decisões constantes durante o alojamento das aves.
Rogério resume esse início com a frase “tudo aconteceu no primeiro lote”, referência ao volume de informações que precisou absorver rapidamente diante das tecnologias instaladas nos galpões e das exigências do manejo.
Entre dúvidas sobre equipamentos, respostas do sistema automatizado e cuidados com as aves, as primeiras semanas tiveram madrugadas de atenção e ligações frequentes para técnicos extensionistas da integradora, que acompanharam a adaptação dos novos produtores.
Apesar da falta de experiência anterior na criação de frangos, a granja alcançou desempenho expressivo já no começo, resultado atribuído ao acompanhamento próximo da operação e ao cuidado diário com os detalhes do ambiente produtivo.
No segundo lote, a propriedade apareceu entre os 10 melhores lotes de eficiência da integração regional, com destaque para a observação visual das aves, o manejo da cama e o controle de ambiência nos galpões.
Esse resultado reforçou que a tecnologia, sozinha, não garantiria o desempenho esperado, já que a rotina de observação, a leitura do comportamento do plantel e a tomada rápida de decisões também passaram a pesar na produtividade.
Sucessão familiar ganha força no Sítio Dois Irmãos
Fora dos galpões, a mudança também alterou a dinâmica familiar de Rogério, que antes tinha uma rotina profissional distante do sítio e agora passou a conviver mais de perto com os filhos e a propriedade.
A esposa Cátia, professora, ajuda na granja aos fins de semana, enquanto Pedro Augusto e Maria Cecília acompanham a rotina dos aviários e crescem cercados pelo ambiente rural que marcou a história da família.
Para os sócios, a produção de frango pesado passou a unir negócio, memória e continuidade da propriedade, com um plano financeiro que prevê a quitação total do investimento em um prazo de oito a nove anos.
Além de organizar o pagamento do investimento inicial, o grupo já avalia uma nova etapa de crescimento, motivado pelo desempenho dos primeiros lotes e pela possibilidade de consolidar a granja na avicultura paulista.
A próxima etapa projetada é a construção de mais dois aviários modernos em Nuporanga, expansão que ainda depende do andamento financeiro do empreendimento, mas já aparece como prioridade no planejamento dos irmãos.
Depois de quase quatro décadas longe da lida rural, a trajetória dos Cano mostra como planejamento, parceria e sucessão familiar podem mudar o destino de uma pequena propriedade; será que mais famílias do campo vão seguir o mesmo caminho?
