1. Início
  2. / Energia Solar
  3. / Era do silício sozinho na energia solar chega ao fim com a chegada da perovskita, material que captura espectro de luz mais amplo, é aplicado como filme fino e, junto com silício, atinge limite teórico de 45% de eficiência em módulos tandem.
Tempo de leitura 9 min de leitura Comentários 4 comentários

Era do silício sozinho na energia solar chega ao fim com a chegada da perovskita, material que captura espectro de luz mais amplo, é aplicado como filme fino e, junto com silício, atinge limite teórico de 45% de eficiência em módulos tandem.

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 19/05/2026 às 21:07
Atualizado em 19/05/2026 às 21:10
Assista o vídeoPerovskita combinada ao silício em painéis tandem já atinge 29,51% de eficiência e promete revolucionar a energia solar com a GCL liderando produção em massa.
Perovskita combinada ao silício em painéis tandem já atinge 29,51% de eficiência e promete revolucionar a energia solar com a GCL liderando produção em massa.
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
90 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo

A perovskita vem sendo apontada como o salto tecnológico que pode quebrar a barreira do silício na energia solar. Aplicada como filme fino e combinada com o silício em painéis tandem, ela já alcançou 29,51% de eficiência em módulo certificado. A GCL e a LONGi lideram a corrida global por escala industrial dessa nova geração de células de perovskita.

Em 2 de junho de 2025, a GCL Optoelectronics, divisão chinesa do grupo GCL especializada em materiais fotovoltaicos, anunciou ter atingido 29,51% de eficiência em um módulo solar tandem de perovskita e silício de 2.048 cm², resultado certificado pelo Instituto Nacional de Metrologia da China e divulgado por veículos especializados como o PV Magazine International. Cerca de três semanas depois, em 26 de junho de 2025, a mesma empresa inaugurou em Kunshan, na província de Jiangsu, a primeira fábrica do mundo em escala de gigawatt destinada exclusivamente à produção de módulos tandem com perovskita, com investimento total de 700 milhões de dólares, capacidade inicial de 1 GW e meta de chegar a 2 GW por ano de saída.

O movimento simboliza o início de uma nova fase na história da energia solar, em que o silício, base da indústria fotovoltaica há mais de 50 anos, ganha um sócio capaz de superar suas limitações físicas. A perovskita não substitui o silício, mas se combina a ele em painéis chamados tandem, em que duas camadas de células absorvem faixas diferentes do espectro solar. Estudos técnicos reunidos pela literatura especializada apontam que o limite teórico de eficiência para esse tipo de painel pode ficar entre 43% e 45%, muito acima dos cerca de 33,7% do silício de junção única, abrindo uma nova janela para a expansão global da energia solar fotovoltaica.

O que é perovskita e por que ela pode revolucionar a energia solar

Perovskita é o nome dado a uma família de minerais e compostos cristalinos com uma estrutura química específica, originalmente identificada no século 19 a partir do mineral CaTiO3 descoberto nos Montes Urais. Para uso em células solares, o material é replicado em laboratório a partir de haletos metálicos como iodeto de chumbo combinado com cátions orgânicos ou inorgânicos. O resultado é um composto que tem coeficiente de absorção óptica até dez vezes maior que o silício, o que permite usar uma camada extremamente fina, com poucos micrômetros de espessura, para capturar luz solar suficiente para gerar eletricidade.

A primeira célula solar de perovskita funcional foi desenvolvida em 2009 pelo professor japonês Tsutomu Miyasaka, da Universidade Toin de Yokohama, com eficiência de cerca de 3,8%. Em pouco mais de 15 anos, módulos comerciais alcançaram patamares acima de 19% de eficiência em laboratório, salto que o silício levou décadas para alcançar. Em janeiro de 2024, a MIT Technology Review listou as células de perovskita entre as dez tecnologias revolucionárias do ano, atrás apenas da inteligência artificial. O dado mostra o quanto a comunidade técnica enxerga a perovskita como o próximo passo natural da indústria fotovoltaica.

Por que o silício está chegando ao seu limite físico

O silício cristalino, base da grande maioria dos painéis solares em operação no mundo, tem um teto físico conhecido como limite de Shockley-Queisser, calculado em torno de 33,7% para células solares de junção única. Na prática, módulos comerciais atuais entregam entre 20% e 24% de eficiência, e os principais avanços recentes do setor, como as tecnologias PERC, TOPCon, HJT e back contact, vêm empurrando esse número aos poucos para mais perto do limite teórico, mas com ganhos cada vez menores a cada geração.

A PERC adicionou uma camada refletiva na parte traseira da célula e contribuiu com um salto de cerca de 4 pontos percentuais em eficiência média. A TOPCon trouxe uma engenharia mais sofisticada, com camada de óxido de túnel e silício dopado, agregando outros 4 pontos. Em paralelo, a transição das células do tipo P para o tipo N reduziu a degradação ao longo dos anos. Apesar disso, todas essas tecnologias continuam baseadas no silício e enfrentam, hoje, retornos decrescentes. É justamente por causa desse plateau que a perovskita ganhou tanto espaço na agenda de pesquisa global.

Como funcionam os painéis solares tandem com perovskita e silício

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

O painel solar tandem é uma estrutura em duas camadas: a superior, feita de perovskita, captura comprimentos de onda mais curtos da luz solar, como o azul e o violeta. A inferior, feita de silício, absorve a luz vermelha e infravermelha, que escapa da primeira camada. Como cada material trabalha melhor em uma faixa específica do espectro, a soma das duas células gera muito mais eletricidade por metro quadrado do que qualquer painel tradicional baseado apenas no silício.

Essa combinação é hoje a frente mais promissora da pesquisa em energia solar. Em 2024, a empresa chinesa LONGi anunciou um recorde de eficiência de 33% em uma célula tandem de perovskita e silício de grande área. Em 2025, a GCL chegou a 29,51% em um módulo completo de 2.048 cm², resultado que já considera perdas reais de área e interconexão entre células. O limite teórico de células tandem com esses dois materiais é estimado em torno de 43% pela literatura técnica, e algumas projeções mais otimistas, com camadas adicionais, citam até 45%. O salto frente aos módulos de silício de hoje, na casa dos 22% a 24%, é considerável e justifica o interesse global pela tecnologia tandem.

O avanço da fabricação industrial: a fábrica de 2 GW da GCL na China

A grande virada para a perovskita aconteceu na transição de laboratórios para linhas industriais. Em junho de 2025, a GCL Optoelectronics inaugurou em Kunshan o que é considerada a primeira fábrica do mundo em escala de gigawatt para módulos tandem com perovskita. O investimento total foi de 700 milhões de dólares, com capacidade inicial de 1 GW e meta de chegar a 2 GW de produção anual, fabricando módulos de grandes dimensões, com 2,76 metros quadrados de área cada um.

Em outubro de 2025, segundo a própria GCL Tech, o primeiro módulo de perovskita em tamanho cheio, com dimensões de 2.400 milímetros por 1.150 milímetros, saiu da linha de produção em gigawatt da empresa, marcando o que a companhia chamou de entrada formal da tecnologia em uma nova era de produção comercial em massa global. A GCL informou, em comunicado, que sua estratégia combina produção em larga escala com demonstrações em diferentes cenários climáticos, em projetos piloto distribuídos por vários países. O custo projetado é de cerca de 0,075 dólar por watt, aproximadamente metade dos atuais 0,15 dólar por watt dos módulos convencionais de silício cristalino.

O desafio da durabilidade e da certificação internacional

Por anos, o principal questionamento sobre a perovskita foi a durabilidade. Os primeiros protótipos feitos em laboratório se degradavam rapidamente diante de exposição à umidade, ao oxigênio e à radiação ultravioleta. O setor solar é exigente: módulos comerciais costumam ter garantia de 25 a 30 anos de operação, e qualquer tecnologia que não consiga sobreviver a esse intervalo dificilmente encontra mercado em larga escala. Esse era, por anos, o grande obstáculo à comercialização das células de perovskita.

Esse cenário começou a mudar. A GCL informa que suas linhas de pesquisa em perovskita avançam há mais de 12 anos e que a fórmula química patenteada em 2023 trouxe ganhos significativos de estabilidade. A tecnologia conta hoje com certificações internacionais, como a IEC 61215, voltada a desempenho, e a IEC 61730, focada em segurança elétrica, além de testes três vezes mais rigorosos que a IEC 61215 conduzidos pela TÜV Rheinland. Esses certificados são considerados o piso mínimo para qualquer módulo que pretenda ser instalado em projetos comerciais ou residenciais ao redor do mundo, e abrem caminho para a aceitação da tecnologia de perovskita no mercado regular.

O papel da inteligência artificial na produção em massa de perovskita

Outro componente decisivo para viabilizar a escala industrial da perovskita é a inteligência artificial. A própria GCL anunciou, ainda em 2025, o que classifica como o primeiro sistema de produção de células de perovskita controlado por IA do mundo. A linha utiliza 52 sensores de precisão e um motor de decisão baseado em algoritmos de aprendizado de máquina, produzindo cerca de 300 células por dia e analisando 1.800 conjuntos de dados de alta precisão no mesmo período.

Segundo a empresa, esse sistema reduz em até 90% o tempo de transferência das descobertas de laboratório para a fábrica, etapa historicamente lenta na indústria fotovoltaica. A variação de desempenho entre lotes ficou abaixo de 0,75%, indicador relevante para estabilidade de produção e padronização do produto final. A combinação de IA com processos de deposição química transforma a perovskita em algo próximo de uma tinta funcional, aplicada em superfícies por métodos que lembram impressão industrial, e abre caminho para aplicações até hoje fechadas ao silício, como módulos em fachadas de edifícios, vidros, telhados curvos e dispositivos portáteis.

O impacto da nova geração de painéis solares para o consumidor

Para o consumidor final, a chegada dos painéis tandem promete impactos práticos importantes. Painéis com 30% ou mais de eficiência podem produzir a mesma energia em uma área significativamente menor, o que reduz a necessidade de telhados grandes e abre espaço para aplicações em residências menores, prédios comerciais e até veículos. Em escala industrial e em usinas solares, isso significa menos terra ocupada por gigawatt instalado, com efeito direto sobre o licenciamento ambiental e o custo total dos projetos.

Outro ganho relevante é o peso. Módulos baseados em filme fino de perovskita são naturalmente mais leves e flexíveis que os tradicionais painéis de silício, que podem ultrapassar 25 quilos cada. Em coberturas de baixa capacidade estrutural, como galpões antigos e residências populares, isso muda a equação de viabilidade. Há ainda potencial de reduzir o uso de prata, material caro presente nos contatos elétricos dos módulos atuais, ajudando a baixar o custo final da energia solar fotovoltaica em larga escala em todos os continentes.

A perovskita não chega para destronar o silício, e sim para se somar a ele. Os painéis tandem que combinam os dois materiais devem ser a principal aposta da indústria solar para a próxima década, com fabricantes chinesas como GCL e LONGi liderando o caminho da pesquisa para a produção em massa. As primeiras unidades comerciais já estão saindo de fábricas em gigawatt e devem chegar aos mercados internacionais ao longo de 2026, em um movimento que promete redesenhar o tamanho, o peso e o custo dos sistemas fotovoltaicos no Brasil e no mundo.

Você já considerou instalar painéis com tecnologia de perovskita em casa ou no seu negócio? Acredita que essa nova geração de células tandem pode realmente baixar o custo da energia solar no Brasil? Deixe seu comentário, conte se você já tem painéis instalados e qual a sua experiência, e compartilhe a matéria com quem acompanha tecnologia, energia limpa e transição energética global.

Inscreva-se
Notificar de
guest
4 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Fernando Ferreira de Andrade
Fernando Ferreira de Andrade
23/05/2026 23:30

Estou fazendo o curso de fotovoltaico e gostaria de obter mais informações e onde encontrar o produto. Samos de Recife PE.
Gostaria de levar para sala de aula.

Maria do Carmo Oliveira
Maria do Carmo Oliveira
21/05/2026 05:56

Qual o valor?

Luiz
Luiz
20/05/2026 08:50

Seria interessante se os “donos do mundo a saber os que compõem o SISTEMA “, não usassem toda probabilidade visando LUCRO, mas para ajudar os povos a também viverem o melhor do mundo minimamente.

Tags
Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

Compartilhar em aplicativos
Ir para o vídeo em destaque
4
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x