A La Niña deixou os Estados Unidos com a seca mais ampla em décadas em maio de 2026, com quase 60% do país em situação de seca e mais de 20% em estágio extremo. O período de janeiro a março foi o mais seco já registrado em 132 anos pela NOAA. Meteorologistas projetam um El Niño histórico no outono.
Em 13 de abril de 2026, segunda-feira, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), por meio do seu Centro Nacional de Informações Ambientais (NCEI), divulgou o relatório climático mensal que oficializou um marco histórico: o trimestre de janeiro a março de 2026 foi o mais seco já registrado nos 48 estados contíguos do país em 132 anos de medições, com precipitação média de apenas 4,79 polegadas, equivalente a 121,7 milímetros, valor inferior aos 5,27 polegadas (133,9 milímetros) de 1910, antigo recorde, e bem abaixo de qualquer outro trimestre desde a Dust Bowl da década de 1930. O agravamento da seca vem sendo atribuído principalmente à La Niña, fenômeno de resfriamento das águas do Pacífico Equatorial que reduziu o fluxo de umidade vindo do Golfo do México e do litoral sudeste americano.
O retrato divulgado pelo U.S. Drought Monitor é igualmente alarmante. Segundo o relatório de 31 de março, cerca de 59,9% do território contíguo dos Estados Unidos estavam em condição de seca, a maior extensão registrada desde novembro de 2022. Em levantamento posterior, datado de 7 de abril, mais de 80% do território passaram à categoria de seca anormal ou pior, e mais de 34% entraram em estágio severo a excepcional, segundo dados publicados pela Yale Climate Connections. Andrew Ellis, climatologista da Virginia Tech, declarou ao portal Earth.com em maio que as condições atuais estão entre as piores das últimas décadas justamente porque combinam intensidade e cobertura geográfica raras, com uma seca histórica avançando sobre regiões que normalmente não secam ao mesmo tempo.
Como a La Niña empurrou os Estados Unidos para a seca recorde

A La Niña é um fenômeno climático caracterizado pelo resfriamento anômalo das águas superficiais do Pacífico Equatorial. Sua atuação durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte tende a desviar as correntes de umidade que normalmente alimentariam chuvas no sul dos Estados Unidos. Estudos da NOAA documentam, há décadas, que anos de La Niña intensificam a seca na faixa sul do país, com efeito direto sobre estados como Texas, Oklahoma, Arkansas, Geórgia e Flórida, além de áreas das Montanhas Rochosas e das Grandes Planícies.
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Estados como Nova Jersey, Carolina do Norte, Carolina do Sul e a própria Geórgia dependem fortemente do fluxo de umidade vindo do Golfo do México e do litoral sudeste para sustentar as chuvas durante boa parte do ano. Em entrevista ao Earth.com, Ellis afirmou que essa fonte permaneceu praticamente fechada nos últimos seis a oito meses, justamente em consequência da La Niña. Sem essa entrada de umidade marítima, sistemas frontais perderam força e a estiagem ganhou amplitude geográfica, configurando uma seca extrema em vastas áreas do país.
Onde a seca extrema bate mais forte nos Estados Unidos
O Colorado e o Sudeste americano, com destaque para a Geórgia e a Flórida, encabeçam a lista de preocupações dos climatologistas no momento. Segundo a revista TIME, em reportagem de 10 de maio de 2026, estados como Geórgia, Carolina do Norte e Carolina do Sul registraram condições recordes de seca entre setembro de 2025 e março de 2026, em séries históricas que começam em 1895. No Sudeste do Alabama, na Geórgia e no noroeste da Flórida, a umidade do solo e o nível dos rios continuam extremamente baixos, segundo o U.S. Drought Monitor.
Já nas regiões centrais das Montanhas Rochosas e nas altas Grandes Planícies, os déficits hídricos são igualmente profundos, com impacto direto sobre pastagens, lavouras e abastecimento de reservatórios. A Califórnia, por exemplo, registrou em março de 2026 o mês mais seco e mais quente de sua história, recebendo menos de um quarto de polegada de chuva em todo o estado, equivalente a menos de 10% da média histórica de março, segundo a NOAA. Esse contexto reforça o caráter de seca recorde que afeta de forma simultânea o sul, o sudeste e o oeste americano.
Por que o inverno atípico tornou a La Niña ainda mais agressiva
Em um inverno típico de La Niña, as trajetórias das tempestades costumam se deslocar para latitudes mais altas e despejar precipitação sobre o Noroeste do Pacífico americano, área que historicamente compensa parte da estiagem registrada mais ao sul. Em 2026, no entanto, essa rota de tempestades praticamente não atingiu o Noroeste. Estados como Oregon, Montana e Wyoming registraram o mês de janeiro mais seco desde 2001, em uma anomalia que pegou pesquisadores de surpresa.
Esse desvio do padrão clássico ampliou o desastre. Quando o interior das Montanhas Rochosas também perdeu acumulado de neve durante o inverno, o cenário virou crítico. Cidades dessa região dependem do degelo da neve acumulada nas montanhas para abastecer rios e reservatórios durante o verão. Sem essa reserva, o ano hidrológico já chega à estação quente com déficit profundo. Para Ellis, é justamente essa combinação rara entre La Niña e a ausência de tempestades no Noroeste que está deixando a área afetada em um patamar nunca visto em décadas no continente.
O papel do calor recorde no agravamento da seca americana
A precipitação ainda é o principal fator da crise, mas o calor entrou como agravante decisivo. Março de 2026 foi o mais quente da história nos 48 estados contíguos americanos, com temperatura média 9,4 graus Fahrenheit (aproximadamente 5,2 graus Celsius) acima da média do século 20, segundo a NOAA. Foi a primeira vez na história dos registros climáticos modernos do país que um mês inteiro ultrapassou em mais de 9 graus Fahrenheit a média histórica do século passado, um marco simbólico do quanto a atmosfera vem se aquecendo.
O ar mais quente retira água do solo, das plantas e de corpos d água abertos por meio da evapotranspiração, processo que acelera os períodos de seca, mais do que a falta de chuva sozinha causaria. Estudos recentes sobre a megaseca no sudoeste dos Estados Unidos sugerem que o aquecimento global virou um fator tão significativo quanto a baixa precipitação para explicar a severidade da seca. Em outras palavras, há dois déficits simultâneos: menos chuva e mais umidade retirada do solo pela atmosfera, em uma combinação que torna o atual episódio especialmente severo.
O impacto sobre a agricultura e o risco de incêndios florestais
O setor agrícola americano sente a seca de forma direta. Em Campo, no Colorado, fazendas de pecuária com mais de cem anos de operação foram forçadas a reduzir drasticamente a área plantada, segundo reportagem da TIME publicada em 10 de maio. Produtores de trigo no Kansas e de hortaliças na Geórgia também enfrentam pressão sobre suas colheitas. Pecuaristas convivem com pastagens secas, redução de oferta de forragem e necessidade de antecipar o abate de gado para evitar perdas maiores.
Em paralelo, o potencial de incêndios florestais está acima da média histórica em partes do Sudoeste, do sul das Planícies, das altas Grandes Planícies centrais e em boa parte do Sul Profundo e do Sudeste americano. A combinação de vegetação seca, calor extremo e ventos típicos da época transforma essas regiões em zonas de alta combustão, com impacto potencial sobre comunidades inteiras. Para a defesa civil e para os corpos de bombeiros, o cenário deste ano exige preparo redobrado e maior coordenação entre estados, segundo alertas do National Interagency Fire Center.
Por que o oeste americano preocupa mais do que o sudeste
Andrew Ellis, da Virginia Tech, é claro ao apontar onde está o foco maior de preocupação. O Sudeste e o Meio-Atlântico americano ainda têm uma carta na manga: a umidade do Golfo do México e do Atlântico costuma trazer períodos chuvosos durante o verão, especialmente quando sistemas tropicais avançam pelo interior. Embora essas chuvas raramente eliminem uma seca profunda, podem aliviar as condições superficiais e reduzir parte do estresse sobre a agricultura.
O oeste americano, em compensação, depende quase totalmente da neve acumulada durante o inverno. A chuva de verão nas Montanhas Rochosas e nas Grandes Planícies não consegue reverter um déficit profundo, porque o volume típico do verão é insuficiente. Quando o inverno passa sem grandes tempestades de neve, o escoamento que abastece rios e reservatórios durante a estação quente simplesmente não acontece. O ano hidrológico já está em grande parte definido, e o impacto vai se sentir com força a partir de julho, especialmente em lavouras, pastos e florestas vulneráveis a incêndios.
O possível El Niño histórico no horizonte
A solução pode vir do mesmo oceano que ajudou a criar o problema. Em 14 de maio de 2026, a NOAA elevou oficialmente o status para alerta de El Niño, com 82% de probabilidade de formação entre maio e julho de 2026 e 96% para o trimestre entre dezembro deste ano e fevereiro de 2027. As águas subsuperficiais do Pacífico Equatorial vêm aquecendo de forma significativa há seis meses consecutivos, especialmente na costa do Peru, em sinal clássico de transição entre as duas fases do fenômeno climático ENOS.
Para a região sul dos Estados Unidos, um inverno com El Niño costuma significar clima mais úmido, com chance real de recuperar parte do terreno perdido durante a fase de La Niña. Ellis afirmou ao Earth.com que o cenário projetado pode produzir condições opostas às registradas no atual ciclo, com volumes de chuva acima da média de outubro a março. Pecuaristas no Colorado, agricultores na Geórgia e gestores de recursos hídricos em todo o Sudeste devem acompanhar de perto as próximas previsões, em um momento em que a expectativa de um El Niño forte ganha consistência em quase todos os modelos climáticos internacionais.
A seca americana de 2026 já entrou nos livros de história, com mais de 60% do país em situação crítica e o trimestre mais seco em 132 anos de registros oficiais. A La Niña empurrou o cenário para o limite, o calor recorde agravou a falta de água e a economia agrícola começa a sentir o golpe. A esperança real, por mais paradoxal que pareça, está em um possível El Niño forte chegando no outono e no inverno seguintes, com potencial de inverter o jogo climático em boa parte da faixa sul do continente.
Você acompanha o impacto da La Niña e do El Niño sobre a economia e a agricultura mundial? Acredita que esse novo ciclo climático vai afetar também o Brasil em 2026 e 2027, especialmente o agronegócio, a geração de energia e o abastecimento de água? Deixe seu comentário, conte como o clima tem mudado na sua região e compartilhe a matéria com quem acompanha meio ambiente, agricultura e mudanças climáticas globais.

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