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Enquanto o mar engole vilarejos inteiros na Indonésia, uma mulher planta 15 mil manguezais por ano para tentar salvar sozinha a última casa que ainda resiste à água

Escrito por Ana Alice
Publicado em 14/04/2026 às 08:32
Atualizado em 14/04/2026 às 10:12
Na Indonésia, mulher planta 15 mil mudas de mangue por ano para conter o avanço do mar e proteger a última casa da vila na costa de Java. (Imagem: Ilustrativa)
Na Indonésia, mulher planta 15 mil mudas de mangue por ano para conter o avanço do mar e proteger a última casa da vila na costa de Java. (Imagem: Ilustrativa)
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Na costa norte de Java, uma rotina cercada por água, raízes e isolamento expõe um fenômeno ambiental que avança há anos e transforma a paisagem, a moradia e a relação entre terra e mar em um mesmo cenário.

Na costa norte de Java, na Indonésia, a rotina de Pasijah passou a sintetizar, em escala doméstica, um problema ambiental que atinge diferentes áreas do país.

Aos 55 anos, ela segue vivendo em Rejosari Senik, na regência de Demak, em Java Central, onde a água avançou sobre a antiga área habitada e deixou sua casa como a única ainda ocupada naquele trecho da vila.

Há cerca de duas décadas, ela responde ao avanço do mar com o plantio de aproximadamente 15 mil mudas de mangue por ano.

O caso foi relatado pela Reuters a partir da região de Demak.

Segundo a reportagem, a água já cobre a área que antes era terra firme, e a casa de Pasijah permanece cercada por fileiras improvisadas de bambu e por estruturas danificadas pelo avanço do mar.

Dentro do imóvel, o piso foi elevado para reduzir os efeitos das inundações frequentes.

A distância também mostra o grau de isolamento.

De acordo com a Reuters, o pedaço de terra firme mais próximo fica a cerca de dois quilômetros, enquanto a cidade de Demak está a 19 quilômetros.

O trajeto só pode ser feito de barco, que se tornou o principal meio de deslocamento da família.

Apesar da saída dos vizinhos, Pasijah decidiu permanecer.

Em depoimento à Reuters, ela afirmou que pretendia continuar no local e que mantinha o vínculo com a casa onde vive há 35 anos.

Ao redor dela, antigos terrenos de cultivo, hortas e áreas de arroz foram abandonados à medida que a água avançou sobre a comunidade.

Rejosari Senik - Imagem: Reprodução/REUTERS/Ajeng Dinar Ulfiana
Rejosari Senik – Imagem: Reprodução/REUTERS/Ajeng Dinar Ulfiana

O que os manguezais fazem na borda do mar

A estratégia adotada por Pasijah tem base em estudos sobre proteção costeira.

Manguezais ajudam a reduzir a força das ondas, contribuem para conter a erosão e estabilizam o solo por meio das raízes.

Organismos internacionais como a FAO e agências ligadas à ONU apontam esses ecossistemas como parte das chamadas soluções baseadas na natureza para áreas costeiras expostas a alagamentos e ressacas.

Além da função de barreira natural, os manguezais também têm relevância climática.

Esses ambientes armazenam grandes quantidades de carbono e servem de abrigo para espécies marinhas e costeiras, o que amplia seu papel ambiental.

No caso da Indonésia, dados públicos indicam que o país reúne uma das maiores áreas de manguezais do planeta, o que torna esse ecossistema especialmente importante nas políticas de adaptação e conservação.

No cotidiano de Pasijah, porém, essa função aparece de forma prática.

Todos os dias, ela sai em um barco improvisado com tambores plásticos azuis, observa os arbustos já plantados e coloca novas mudas na água, que em alguns pontos chega à altura do peito.

À Reuters, ela relatou que a inundação não chegou de uma vez, mas em ondas sucessivas, e disse ter percebido que os manguezais poderiam ajudar a proteger a casa do vento e das ondas.

Por que o mar avança nessa parte de Java

O avanço da água na costa norte de Java não é explicado por um único fator.

De um lado, há a elevação do nível do mar.

De outro, especialistas também apontam a subsidência, que é o afundamento gradual do solo, como parte central do problema em várias áreas da ilha.

Segundo dados citados pela Reuters com base na agência meteorológica e geofísica da Indonésia, o nível do mar ao longo das costas do país subiu, em média, 4,25 milímetros por ano entre 1992 e 2024.

Vista aérea da casa de Pasijah - REUTERS/Ajeng Dinar Ulfiana
Vista aérea da casa de Pasijah – REUTERS/Ajeng Dinar Ulfiana

A mesma fonte informou que esse ritmo se acelerou nos anos mais recentes.

Ainda de acordo com o órgão, esse movimento está associado às mudanças climáticas e já contribuiu para o desaparecimento de pequenas ilhas no arquipélago.

Ao mesmo tempo, autoridades e pesquisadores chamam atenção para o efeito da extração de água subterrânea em trechos da costa de Java.

Esse bombeamento intensifica a subsidência e agrava o impacto das marés e das inundações costeiras.

Em áreas urbanas e rurais, a combinação entre o solo que afunda e o mar que sobe aumenta o risco de alagamentos permanentes.

Um estudo divulgado em 2026 pela Columbia Climate School, com base em artigo publicado na revista Science Advances, reforçou esse diagnóstico para o norte de Java.

Segundo os pesquisadores, em grande parte do litoral da ilha o afundamento do terreno já tem peso maior que a elevação do oceano no aumento do risco costeiro.

A análise cita Demak entre as regiões em que a subsidência aparece como fator relevante para a elevação relativa do nível do mar.

Imagem: Reprodução/REUTERS/Ajeng Dinar Ulfiana
Imagem: Reprodução/REUTERS/Ajeng Dinar Ulfiana

Entre as obras de contenção e a proteção natural

A resposta do poder público na Indonésia inclui projetos de grande escala.

O governo indonésio voltou a defender a construção de um dique marítimo de cerca de 700 quilômetros ao longo da costa norte de Java, entre Banten e Java Oriental.

A proposta foi apresentada como uma tentativa de reduzir os danos causados por enchentes costeiras e pelo avanço do mar em cidades e vilas da região.

Enquanto isso, a experiência de Pasijah mostra uma resposta local baseada na recuperação do ecossistema costeiro.

O plantio contínuo de manguezais não elimina, sozinho, os efeitos combinados da elevação do nível do mar e da subsidência.

Ainda assim, segundo especialistas que estudam adaptação costeira, esse tipo de vegetação pode ajudar a amortecer impactos, reduzir erosão e preservar áreas vulneráveis por mais tempo.

A família de Pasijah segue vivendo da pesca feita pelos filhos, vendida no mercado mais próximo.

Imagem: Reprodução/REUTERS/Ajeng Dinar Ulfiana
Imagem: Reprodução/REUTERS/Ajeng Dinar Ulfiana

Segundo a Reuters, eles afirmam que pretendem continuar no local enquanto ainda for possível conter o avanço da água.

O caso reúne, num mesmo espaço, temas que costumam aparecer separados no debate climático: adaptação, perda territorial, proteção costeira e o uso de soluções naturais em áreas onde obras maiores ainda são insuficientes ou não chegaram.

Em Rejosari Senik, a presença da última casa ocupada naquele trecho da vila mostra como a transformação da paisagem já alterou a vida cotidiana, o acesso ao território e a relação entre moradia e ambiente costeiro.

Nesse cenário, o plantio anual de milhares de mudas de mangue deixou de ser apenas uma atividade de recuperação ambiental e passou a integrar a tentativa concreta de manter a permanência da família em uma área que hoje convive diretamente com a água.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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