A defesa parte de uma constatação incômoda: o aço dentro do concreto enferruja e condena a obra em poucas décadas, enquanto catedrais de pedra atravessam séculos. Mas o caso real de Londres é mais sutil do que parece, e até quem defende a pedra reconhece que o concreto não vai sair de cena tão cedo.
Um debate sobre o futuro da construção vem ganhando força entre arquitetos. O argumento é direto: enquanto o concreto armado tende a se deteriorar em algumas décadas e virar entulho, edifícios de pedra maciça podem ficar de pé por séculos e ainda ser desmontados para erguer outro prédio, é o que defendem profissionais que construíram em Londres um edifício sustentado por blocos de calcário tirados praticamente direto da pedreira.
O exemplo citado é o 15 Clerkenwell Close, edifício projetado pelo arquiteto Amin Taha e pelo escritório Groupwork, concluído em 2017 no centro de Londres, que usa um exoesqueleto de calcário como estrutura. É importante, porém, tratar o tema com equilíbrio: trata-se da defesa apaixonada de arquitetos entusiastas da pedra, e não de um consenso da engenharia, e o próprio caso londrino é mais sutil do que o slogan sugere, como veremos a seguir.
O argumento contra o concreto armado

Segundo os defensores da pedra, o ponto fraco do concreto armado está no aço em seu interior, os vergalhões, que podem começar a se corroer depois de cerca de 50 anos, a menos que sejam tomadas medidas caras de proteção, comprometendo a estrutura e gerando resíduos difíceis de reaproveitar, num contraste com prédios de pedra que permanecem de pé por gerações.
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Vale uma ressalva técnica, no entanto: dizer que o concreto simplesmente apodrece em 50 anos é uma simplificação.
O problema está sobretudo na corrosão da armadura de aço em obras mal executadas ou muito expostas, e existem construções de concreto duráveis e bem conservadas.
Ainda assim, os críticos lembram que o material se popularizou no século XX pela economia do pós-guerra, que exigia construir rápido e barato, e pela liberdade de formas que ele dava aos arquitetos, e não necessariamente por ser a opção mais durável.
O prédio de Londres que virou símbolo

O 15 Clerkenwell Close, que abriga apartamentos e o escritório do próprio arquiteto Amin Taha, tem um exoesqueleto feito de blocos de calcário bruto, com as marcas da extração ainda visíveis, que funciona como estrutura de sustentação, e não como mero revestimento decorativo, algo raro na arquitetura atual.
É preciso, contudo, ser preciso sobre a obra: o prédio não é feito apenas de pedra.
Ele combina um núcleo e lajes de concreto com o exoesqueleto de calcário que sustenta a carga da fachada, num sistema híbrido.
Segundo os arquitetos, a escolha da pedra estrutural reduziu o carbono incorporado da construção em cerca de 90% em comparação com uma estrutura típica de aço ou concreto.
O projeto chegou a receber uma ordem de demolição da prefeitura local, por questões estéticas e de conformidade, decisão depois revertida após recurso.
Por que a pedra seria mais sustentável
O segundo grande argumento é ambiental.
Os defensores afirmam que construir com pedra exige menos extração do que o concreto, já que, para a pedra, basicamente se abre uma pedreira, enquanto o concreto demanda agregado, cimento, feito da queima de calcário, areia e o aço dos vergalhões, multiplicando os impactos no ambiente, além das emissões associadas à produção do cimento.
Outro ponto destacado é a possibilidade de reutilização.
Historicamente, blocos de pedra de uma construção eram reaproveitados em outra, como antigos anfiteatros que viraram igrejas, e os defensores veem nisso um modelo para o futuro, em que cada edifício de pedra seria uma espécie de pedreira em potencial.
Há ainda a vantagem da massa térmica: paredes de pedra muito espessas ajudam a regular a temperatura interna, podendo reduzir a necessidade de isolamento adicional, como em projetos europeus recentes.
Como funciona a construção em pedra maciça
A técnica defendida tem nome e método.
Chamado de pedra maciça pré-cortada, o sistema consiste em serrar a pedra em blocos grandes e de dimensões precisas, na própria pedreira ou no canteiro, montando o edifício como uma espécie de conjunto de peças encaixáveis, o que, segundo seus defensores, torna a obra rápida e reduz custos com o uso de máquinas para cortar e erguer os blocos.
Como a pedra resiste bem à compressão, mas tende a quebrar sob tensão, ela costuma ser usada em paredes portantes, arcos e abóbadas.
Para os pisos, que trabalham sob tração, os defensores citam alternativas como a pedra protendida, em que um cabo de aço comprime os blocos uns contra os outros, ou o uso de madeira e aço.
É uma volta ao modelo antigo, em que as próprias paredes sustentam o edifício, em vez da estrutura independente com paredes de vedação típica do concreto e do aço.
Dá para construir alto e a que custo
Duas objeções comuns são a altura e o preço.
Sobre a altura, os defensores lembram que já existem torres de pedra de muitos andares, como edifícios projetados pelo arquiteto francês Fernand Pouillon em Marselha e na Argélia, além de monumentos como a Catedral de Colônia, na Alemanha, que chega a cerca de 157 metros, mostrando que a pedra pode ir além de construções baixas.
Sobre o custo, o argumento é que boa parte da pedra extraída nas pedreiras é descartada, o que tornaria certos tipos, os de aparência mais simples, bastante acessíveis.
Aqui também cabe equilíbrio: a viabilidade depende de fatores como transporte, disponibilidade local e escala, e o concreto segue imbatível em rapidez e em vencer grandes vãos.
Os entusiastas defendem que, na França, já se constrói habitação social de pedra, e sugerem que o material poderia até ser incentivado, mas reconhecem que a adoção em larga escala é, antes de tudo, uma escolha a ser feita.
O debate sobre a pedra maciça reacende uma pergunta interessante sobre como queremos construir as cidades do futuro: priorizando a rapidez e o baixo custo imediato ou a durabilidade e a possibilidade de reaproveitar materiais por séculos.
Os defensores da pedra apresentam argumentos consistentes sobre sustentabilidade e longevidade, ainda que se trate de uma visão entusiasta, e não de um veredito definitivo da engenharia, e que o próprio caso de Londres combine pedra e concreto.
Mais do que eleger um vilão ou um herói entre os materiais, o valor dessa discussão está em fazer pensar sobre o que esperamos de um edifício e por quanto tempo queremos que ele dure.
E você, o que acha da ideia de voltar a construir com pedra maciça em vez de concreto? Acredita que vale a pena investir em edifícios mais duráveis, mesmo que custem mais no início? Deixe seu comentário, compartilhe sua opinião com respeito às diferentes visões e ajude a divulgar a matéria para quem se interessa por arquitetura, construção e sustentabilidade.


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