Onde antes havia o quarto maior lago do planeta, hoje sobram navios encalhados na areia e nuvens de poeira salgada que adoecem populações inteiras. A aposta agora são plantas capazes de crescer em solo salino e bombas movidas a sol, embora os próprios cientistas admitam que o mar jamais voltará ao tamanho de antes.
Um dos maiores desastres ambientais da história ganhou uma nova frente de combate. Para conter as tempestades de sal que assolam a Ásia Central, cientistas da China e do Uzbequistão uniram forças no antigo leito do Mar de Aral, plantando espécies tolerantes ao sal e usando energia solar para tentar trazer vida de volta a uma terra que virou deserto, num esforço que mistura ciência, cooperação internacional e realismo sobre os limites do que é possível recuperar.
O Mar de Aral, na verdade um grande lago de água salgada situado entre o Uzbequistão e o Cazaquistão, já foi o quarto maior do mundo, mas perdeu mais de 90% de sua área desde a década de 1960, quando começou a secar. O processo, considerado uma catástrofe causada pelo homem, deixou para trás um vasto deserto salgado. A seguir, explicamos o que aconteceu com esse lago, como funciona a iniciativa de recuperação conduzida desde os últimos anos e por que, apesar do avanço, especialistas pregam cautela sobre os resultados.
Como o quarto maior lago do mundo virou deserto

Durante a era soviética, os dois grandes rios que alimentavam o lago foram desviados para irrigar lavouras, sobretudo de algodão, no meio do deserto da Ásia Central, e essa retirada maciça de água fez o Mar de Aral encolher de forma acelerada a partir dos anos 1960, até perder a maior parte de sua superfície original.
-
Mega mansão de 8,3 mil m² com 65 cômodos e vila subterrânea supera a Casa Branca, abriga piscina de 70 pés, garagem para 25 carros e é ligada a bilionário russo em propriedade avaliada em 300 milhões de libras
-
A maior biblioteca do mundo fica em Washington, nos Estados Unidos, e opera em uma escala que se aproxima mais da lógica de uma grande metrópole do que da imagem tradicional de um prédio cheio de livros.
-
O menino de três anos cujo talento extraordinário para falar em público o transformou no palestrante motivacional mais jovem do mundo e surpreendeu o Guinness
-
Pela primeira vez na história a Índia passou os Estados Unidos em quanto adicionou de energia solar em um único ano e virou a segunda maior do mundo nesse quesito em 2025, atrás só da China, segundo o relatório da IRENA divulgado em 2026
O que restou foi o deserto de Aralkum, uma extensão de cerca de 60 mil quilômetros quadrados de solo coberto de sal e resíduos.
Cidades que viviam da pesca, como Moynaq, no Uzbequistão, ficaram a dezenas de quilômetros da água, e hoje exibem navios enferrujados encalhados na areia, num cenário que se tornou símbolo do desastre e atrai pesquisadores e visitantes de todo o mundo.
As tempestades de sal que adoecem a região

O fundo exposto do antigo Mar de Aral se transformou em uma das principais fontes de tempestades de areia e poeira da região, que carregam sal e substâncias tóxicas por centenas de quilômetros, prejudicando a saúde das populações, a qualidade do ar e a economia local do Uzbequistão e dos países vizinhos.
Essas tempestades agravam problemas respiratórios, contaminam o solo agrícola e tornam a vida ainda mais difícil em uma região já castigada pela perda do lago.
É justamente para tentar conter esse fenômeno que entram em cena as iniciativas de recuperação, que buscam estabilizar o solo e reduzir a quantidade de poeira salgada lançada no ar, mesmo sem a expectativa de devolver o mar ao seu tamanho original.
A parceria entre China e Uzbequistão
É nesse ponto que a cooperação internacional ganha protagonismo.
Cientistas do Instituto de Ecologia e Geografia de Xinjiang, ligado à Academia Chinesa de Ciências, trabalham com pesquisadores do Uzbequistão aplicando a experiência chinesa no combate à desertificação e à salinização do solo, acumulada em regiões áridas do noroeste da China, com condições semelhantes às da bacia do Mar de Aral.
Segundo a Academia Chinesa de Ciências, no início de 2025 o instituto chinês enviou cerca de 1,5 tonelada de sementes de plantas tolerantes ao sal ao Uzbequistão para a criação de um jardim conjunto de espécies salinas, além de levar mais de 200 variedades resistentes ao sal e à seca.
A ideia é cultivar essas plantas nas margens e, depois, no próprio leito seco do lago, apoiando a restauração do ecossistema e servindo de base para pesquisas de biodiversidade.
Plantas que sobrevivem ao sal e bombas movidas a sol
A estratégia combina biologia e tecnologia limpa.
O coração da iniciativa são as chamadas plantas halófitas, espécies tolerantes ao sal, como o arbusto saxaul, cujas raízes profundas ajudam a fixar o solo arenoso, conter as tempestades de poeira e reter água, sendo uma das principais apostas para recuperar o terreno degradado ao redor do Mar de Aral.
À tecnologia das plantas soma-se o uso de energia solar.
De acordo com o instituto chinês, foram instalados na região sistemas de irrigação por gotejamento movidos a painéis fotovoltaicos, incluindo um modelo inteligente voltado ao cultivo de algodão, que, segundo a instituição, teria triplicado a produtividade e reduzido o consumo de água e os custos.
A energia limpa permite levar irrigação eficiente a áreas remotas e secas, onde não há rede elétrica disponível.
Avanços do lado uzbeque e o alerta dos especialistas
O Uzbequistão também conduz seus próprios esforços de recuperação.
Desde 2021, o país plantou mais de 45 milhões de árvores em cerca de 1,9 milhão de hectares do leito seco na região de Karakalpakstan e criou lagos artificiais abastecidos por um dos rios da bacia, segundo o Ministério da Ecologia, em ações apoiadas também por organismos internacionais como o Banco Mundial e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.
Apesar dos avanços, os próprios especialistas fazem questão de não vender ilusões.
Pesquisadores e organizações que acompanham a região alertam que o Mar de Aral dificilmente voltará ao tamanho que tinha, e que plantar árvores e arbustos não é uma solução mágica, mas uma forma de mitigar os danos, estabilizando o solo e reduzindo as tempestades de poeira.
Muitas das espécies em uso, como a planta Arundo donax, ainda estão em fase de testes de campo, e os resultados definitivos dependerão de anos de acompanhamento.
A história do Mar de Aral é, ao mesmo tempo, um alerta sobre o impacto das decisões humanas no meio ambiente e um exemplo de como a ciência e a cooperação entre países podem oferecer respostas, ainda que parciais, a tragédias ecológicas.
O uso de plantas tolerantes ao sal e de energia solar não vai ressuscitar o lago que existia, mas pode tornar a vida mais suportável para quem ficou, reduzindo as tempestades de sal e devolvendo algum verde a uma terra castigada.
É um lembrete de que recuperar o que foi destruído costuma ser muito mais difícil, lento e caro do que preservar.
E você, já conhecia a história do Mar de Aral e do desastre ambiental que o transformou em deserto? O que acha do uso de plantas tolerantes ao sal e de energia solar para recuperar a região? Deixe seu comentário, compartilhe sua opinião e ajude a divulgar a matéria para quem se interessa por meio ambiente, ciência e os grandes desafios ecológicos do planeta.


-
1 pessoa reagiu a isso.