Engenheiro Elifas Gurgel converteu um Volkswagen Gol em carro elétrico, atingiu 150 km de autonomia e conseguiu regularizar o veículo no Brasil.
Segundo o Correio Braziliense, o responsável por um dos projetos mais simbólicos da eletrificação automotiva artesanal no Brasil é Elifas Chaves Gurgel do Amaral, engenheiro de computação formado pelo Instituto Militar de Engenharia, coronel da reserva do Exército e integrante do grupo que desenvolveu a urna eletrônica usada nas eleições brasileiras desde 1996. Depois de atuar também na presidência da Anatel, ele decidiu encarar um desafio completamente diferente: converter um Volkswagen Gol em um carro 100% elétrico.
O resultado foi um projeto que chamou atenção não apenas pela engenharia improvisada, mas pela ousadia de fazer a conversão funcionar e, depois, enfrentar o sistema regulatório brasileiro para colocar o veículo em condição legal de circular. Em vez de criar um automóvel do zero, Gurgel escolheu aproveitar a base estrutural de um carro popular já existente e adaptar o conjunto mecânico para a propulsão elétrica.
Gol elétrico nasceu da decisão de aproveitar a engenharia pronta de um carro popular
Segundo o Correio Braziliense, Gurgel avaliou que construir um carro elétrico partindo da prancheta seria muito mais difícil do que aproveitar a engenharia já consolidada de um automóvel a combustão.
-
Donos de Toyota Hilux devem tomar cuidado: modelo se torna alvo de quadrilhas que conseguem abrir os veículos sem acionar os alarmes, aponta investigação
-
O Celta pode voltar sem gasolina, com tomada e alma chinesa: Chevrolet prepara novo hatch elétrico no Ceará para tentar cutucar BYD Dolphin Mini, Geely EX2 e o mercado de compactos no Brasil
-
Toyota Camry 2012 virou o sedã japonês de luxo que custa menos que muito SUV compacto usado, entrega motor V6, 504 litros de porta-malas e conforto de diretoria para quem aceita sair do óbvio no mercado de usados
-
Donos da Hilux estão tendo dor de cabeça e Toyota aposta em solução de R$ 2.500 com detalhe de apenas 5 mm que promete reduzir vibrações para 1/10 e mudar o comportamento da picape na estrada
Por isso, o projeto partiu de um Volkswagen Gol, que teve removidos os sistemas típicos do motor convencional, como escapamento, arrefecimento, injeção e alimentação, mantendo principalmente o câmbio como parte essencial da estrutura aproveitada.

O grande desafio técnico passou a ser conectar o novo motor elétrico a essa transmissão. Para isso, foi necessário desenvolver uma peça específica de acoplamento, produzida sob medida em uma torneadora em Taguatinga, no Distrito Federal.
Segundo o Portal veiculo elétrico, a conversão utilizou um kit importado dos Estados Unidos, com motor elétrico, controlador e bomba de vácuo, além de um conjunto de 40 baterias de íon-lítio trazidas da China.
Essa escolha de engenharia foi decisiva porque reduziu a complexidade do projeto e permitiu concentrar os esforços no sistema elétrico. Em vez de reinventar toda a arquitetura do veículo, Gurgel adaptou o que já existia e transformou o Gol em uma plataforma experimental de mobilidade elétrica.
Projeto foi montado em garagem, galpão e oficina com soluções improvisadas
Segundo o Correio Braziliense, a construção do Gol elétrico aconteceu longe de qualquer linha de montagem industrial. Gurgel trabalhou em espaços cedidos, incluindo um galpão na Cidade do Automóvel, o Museu do Automóvel e a própria garagem, sempre tratando o carro como um “laboratório sobre rodas”.

O caráter artesanal apareceu em praticamente todas as etapas. Para preparar a caixa de baterias instalada no porta-malas, que pesa cerca de 224 kg, o engenheiro recorreu a materiais improvisados, como mangueiras de gás, presilhas de jato de jardim e borrachas de porta de Fusca.
O acelerador, que inicialmente era eletromecânico, foi sendo aperfeiçoado até se tornar totalmente eletrônico.
Esse processo mostra por que o projeto ganhou tanta atenção. Não se tratava apenas de eletrificar um carro, mas de resolver um conjunto de problemas técnicos sem cadeia industrial pronta, adaptando peças e criando soluções sob medida em um ambiente de prototipagem contínua.
Autonomia de 150 km e custo de R$ 0,07 por km transformaram o projeto em prova de viabilidade
Depois de rodar por bastante tempo, o carro deixou de ser apenas uma curiosidade mecânica e passou a apresentar números concretos de desempenho.
Segundo o blog Veículo Elétrico, após mais de 200 recargas e mais de 15 mil quilômetros percorridos, o VW Gol elétrico apresentava autonomia de 150 km, tempo médio de recarga de 8 horas e custo médio de R$ 0,07 por quilômetro rodado.
De acordo com os dados reproduzidos pelo blog, esse custo representava uma economia de cerca de 75% em relação ao gasto com combustível, e a quilometragem acumulada sem uso de gasolina significava também a não emissão de aproximadamente 2,5 toneladas de CO2 na atmosfera.
Segundo o TecMundo, o carro passou a ter 70 cv de potência, bateria de 24 kWh e autonomia compatível com os 150 km por carga. A transformação custou cerca de R$ 60 mil, sem incluir o valor do Gol zero-quilômetro usado como base, estimado em R$ 25 mil na época.
Maior batalha de Elifas Gurgel não foi técnica, mas jurídica
O ponto que realmente separa o projeto de Gurgel de muitas outras conversões artesanais é a regularização. Segundo o portal veiculoeletrico, depois de fazer o carro funcionar, o engenheiro enfrentou a etapa mais difícil: enquadrar legalmente o veículo em um sistema que não previa de forma simples a conversão de um carro a combustão em elétrico.

Após buscar apoio político e técnico, seu pedido foi aceito e publicado no Diário Oficial da União em abril de 2010. Para cumprir as exigências, Gurgel abriu a empresa 4GVE e acrescentou itens como airbags e ABS, permitindo que o veículo passasse a se chamar oficialmente Volkswagen Gol 4GVE elétrico EGA.
Esse detalhe é o que torna a história especialmente relevante. Muitas conversões caseiras podem até funcionar tecnicamente, mas permanecem fora das regras de circulação.
No caso de Gurgel, o carro não apenas andou como também venceu a barreira regulatória e se tornou referência em um tema que o Brasil ainda discute.
Gol elétrico de Elifas Gurgel antecipou um debate que hoje está no centro da eletromobilidade
Mesmo sendo um projeto antigo, o Gol elétrico de Elifas Gurgel continua importante porque antecipou um debate que só ganhou força anos depois: a conversão de carros usados em elétricos como alternativa de entrada na mobilidade elétrica. Em vez de depender exclusivamente da compra de veículos novos e caros, a lógica da conversão reaproveita uma estrutura automotiva já existente e reduz o descarte de veículos ainda utilizáveis.

O projeto também mostrou algo raro para o contexto brasileiro da época. Muito antes de a eletromobilidade ganhar espaço no mercado e no noticiário, um engenheiro aposentado conseguiu provar, na prática, que era possível eletrificar um carro popular, rodar milhares de quilômetros e ainda buscar um caminho legal para mantê-lo nas ruas.
No fim, a história de Elifas Gurgel não é apenas a de um inventor obstinado. É a de um projeto que chegou antes do seu tempo e mostrou, com um Volkswagen Gol convertido em carro elétrico, que a inovação brasileira também pode nascer na garagem, desde que haja persistência suficiente para vencer tanto a oficina quanto a burocracia.


Seja o primeiro a reagir!