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Em Agbogbloshie, em Accra (Gana), até 250 mil toneladas de lixo eletrônico por ano viram cobre a céu aberto, mas a fumaça tóxica transforma o bairro em um dos pontos mais contaminados do planeta

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 10/02/2026 às 17:40 Atualizado em 10/02/2026 às 17:42
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Em Agbogbloshie, em Accra (Gana), até 250 mil toneladas de lixo eletrônico por ano geram renda com cobre, mas expõem moradores a contaminação extrema e riscos à saúde.

Em Agbogbloshie, um distrito localizado na região central de Accra, capital de Gana, África Ocidental, existe um dos casos mais documentados de colapso ambiental urbano do século XXI. O local tornou-se símbolo global do problema do lixo eletrônico após sucessivos estudos conduzidos por instituições como a Pure Earth (antiga Blacksmith Institute), a Universidade das Nações Unidas (UNU) e reportagens investigativas da BBCThe Guardian e Al Jazeera. Os dados mais citados indicam que até 250 mil toneladas de resíduos eletrônicos por ano passam pela área ou por sua cadeia informal de reciclagem, número amplamente divulgado em estudos publicados entre 2013 e 2020.

O período de consolidação do problema coincide com o aumento da importação de equipamentos eletrônicos usados vindos principalmente da Europa, Estados Unidos e Ásia, intensificado a partir dos anos 2000, quando o descarte ilegal começou a ser mascarado como “doação de equipamentos de segunda mão”.

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A principal fonte institucional sobre o impacto ambiental do local é a Pure Earth, organização que incluiu Agbogbloshie repetidamente em seus relatórios anuais sobre os lugares mais poluídos do mundo, além de pesquisas conduzidas por universidades como a University of Ghana, a ETH Zurich e a UNU.

Como Agbogbloshie virou um polo global de lixo eletrônico

Agbogbloshie não nasceu como um lixão. Até a década de 1990, a região era ocupada por áreas alagadas próximas à lagoa Korle e por comunidades de baixa renda. A transformação ocorreu quando sucata eletrônica começou a chegar em grande volume ao porto de Tema, a cerca de 30 km de Accra. Parte desse material seguia para mercados formais, mas o que não tinha valor comercial acabava sendo direcionado a Agbogbloshie.

Segundo a UNU, uma fração significativa dos equipamentos importados já chega inutilizável, apesar de ser declarada como produto reutilizável. Televisores de tubo, computadores antigos, geladeiras, impressoras e cabos se acumulam em pilhas visíveis a quilômetros de distância.

O bairro passou a funcionar como um enorme centro informal de desmontagem manual. Jovens e adultos utilizam ferramentas rudimentares — martelos, pedras e fogo aberto — para extrair cobre, alumínio e pequenas quantidades de metais valiosos, como ouro presente em placas eletrônicas.

O valor escondido no lixo: cobre, alumínio e metais raros

O que mantém Agbogbloshie ativo não é o lixo em si, mas o valor econômico dos metais. De acordo com estudos da UNU, uma tonelada de placas eletrônicas pode conter mais ouro do que uma tonelada de minério extraído de minas convencionais.

O cobre, principal alvo da queima de cabos, é vendido diariamente no mercado local e alimenta cadeias industriais informais.

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Esse comércio sustenta milhares de pessoas, muitas delas migrantes internos vindos do norte de Gana. Relatórios da BBC estimam que entre 4 mil e 6 mil trabalhadores atuem direta ou indiretamente no local, sem contratos, sem equipamentos de proteção e sem qualquer tipo de controle ambiental.

A fumaça invisível: o que é liberado no ar, no solo e na água

O maior problema de Agbogbloshie não é visual, mas químico. A queima de fios e carcaças plásticas libera uma combinação altamente tóxica de substâncias, incluindo dioxinas, furanos, chumbo, mercúrio, cádmio e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos.

Pesquisas publicadas na revista Science of the Total Environment identificaram níveis de chumbo no solo dezenas de vezes acima dos limites recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Amostras de água da lagoa Korle apresentaram concentrações elevadas de metais pesados, afetando ecossistemas aquáticos e comunidades vizinhas.

Pure Earth classifica a contaminação de Agbogbloshie como um risco grave à saúde pública, principalmente para crianças e jovens trabalhadores, que são mais vulneráveis à absorção de metais pesados pelo organismo.

Impactos diretos na saúde da população local

Embora não exista um número oficial único sobre expectativa de vida em Agbogbloshie, estudos médicos conduzidos pela University of Ghana e por pesquisadores internacionais documentam problemas respiratórios crônicos, lesões cutâneas, distúrbios neurológicos e possíveis impactos no desenvolvimento cognitivo.

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Análises de sangue feitas em trabalhadores revelaram níveis elevados de chumbo e mercúrio, associados a dificuldades motoras, fadiga extrema e risco aumentado de doenças cardiovasculares. A exposição constante ocorre sem qualquer equipamento de proteção individual, o que agrava o quadro.

Tentativas de intervenção e os limites das soluções

Desde 2015, o governo de Gana, em parceria com a UNU e a Pure Earth, anunciou planos para transformar Agbogbloshie em um polo formal de reciclagem, com técnicas seguras e controle ambiental. Algumas iniciativas piloto foram implementadas, incluindo centros de desmontagem sem queima aberta.

No entanto, reportagens da Reuters e da BBC mostram que a escala do problema supera as soluções implementadas. O fluxo constante de resíduos e a dependência econômica da população local dificultam a erradicação do modelo informal.

Além disso, especialistas da UNEP (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) apontam que o problema não se resolve localmente: ele é consequência direta do modelo global de consumo e descarte, que empurra os custos ambientais para países em desenvolvimento.

Agbogbloshie como espelho do sistema global de lixo eletrônico

Agbogbloshie não é um caso isolado, mas um símbolo. Segundo a UNU, o mundo gerou mais de 50 milhões de toneladas de lixo eletrônico em 2019, e menos de 20% foi reciclado formalmente. O restante seguiu para aterros, exportações ilegais ou circuitos informais como o de Accra.

Enquanto países ricos exportam o problema, comunidades como Agbogbloshie pagam o preço com saúde, solo contaminado e ciclos de pobreza difíceis de romper. O bairro tornou-se um retrato cru do paradoxo moderno: bilhões de dólares em metais recicláveis coexistindo com condições sanitárias extremas.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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