Falta de eletricistas qualificados pressiona construção, indústria e energia no Brasil, com salários de até R$ 4,1 mil no regime CLT.
A falta de eletricistas qualificados deixou de ser um problema isolado de canteiros de obras e passou a atingir construção civil, manutenção industrial, energia solar, redes prediais e empresas de distribuição. Em janeiro de 2025, o Ministério do Trabalho e Emprego informou que o setor da construção enfrenta falta de mão de obra qualificada e idade média dos trabalhadores em 42 anos, enquanto a CBIC passou a discutir ações com o governo para formar novos profissionais.
O alerta aparece em um momento contraditório do mercado de trabalho brasileiro. O IBGE informou que a taxa anual de desocupação foi de 5,6% em 2025, a menor da série histórica iniciada em 2012, e que o país chegou a 103 milhões de pessoas ocupadas. Mesmo assim, empresas continuam relatando dificuldade para preencher vagas técnicas, especialmente em funções que exigem qualificação, segurança e experiência prática.
A escassez de eletricistas aparece dentro de uma crise maior de mão de obra qualificada na construção civil e na indústria brasileira
O caso dos eletricistas faz parte de um problema mais amplo. A CBIC divulgou, em setembro de 2025, uma pesquisa da Falconi em parceria com o Ecossistema Sienge na qual a falta de mão de obra liderou as preocupações da construção civil, citada por 71% dos respondentes, contra 52% em 2023. No mesmo levantamento, treinamento e qualificação da mão de obra aparecem entre os caminhos apontados pelas empresas para enfrentar o problema.
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A indústria também enfrenta uma pressão semelhante. Segundo a Agência de Notícias da Indústria, com base no Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027, o Brasil precisará qualificar 14 milhões de pessoas em ocupações industriais até 2027, sendo 2,2 milhões em formação inicial e 11,8 milhões em treinamento e desenvolvimento.
Esse cenário atinge diretamente áreas como manutenção, construção, operação industrial e serviços técnicos, onde eletricistas aparecem como profissionais estratégicos.
O que os dados confirmam é uma escassez ampla de mão de obra qualificada nos setores que mais contratam eletricistas, especialmente construção civil, manutenção industrial, infraestrutura elétrica e energia.
O salário do eletricista CLT mostra por que a profissão virou uma alternativa forte em meio ao apagão de técnicos
Dados do Portal Salário indicam que um eletricista no Brasil recebe em média R$ 2.993,09 por mês para uma jornada média de 43 horas semanais.
A mesma base aponta piso médio de R$ 2.699,21 e teto salarial de R$ 4.180,98, considerando 83.606 profissionais admitidos e desligados nos últimos 12 meses no regime CLT.
Esse valor pode variar muito conforme região, tipo de empresa, experiência, atuação em baixa ou alta tensão, trabalho predial, industrial, manutenção, energia solar ou prestação de serviço autônomo.
Dentro do regime CLT, a profissão já aparece com remuneração média acima de vários cargos de entrada no Brasil e com potencial maior em funções especializadas.
A NR-10 transforma o eletricista em um profissional técnico, regulado por segurança e cada vez mais difícil de improvisar
Um dos motivos para a escassez é que a função não pode ser preenchida apenas com boa vontade ou experiência informal.
A NR-10, norma do Ministério do Trabalho e Emprego para segurança em instalações e serviços com eletricidade, estabelece requisitos e condições mínimas para medidas de controle e sistemas preventivos em trabalhos que envolvem eletricidade.
A norma se aplica a geração, transmissão, distribuição e consumo de energia, incluindo projeto, construção, montagem, operação e manutenção de instalações elétricas.
Isso significa que obras, fábricas, comércios, condomínios, usinas, empresas de energia e serviços de manutenção precisam de profissionais capazes de atuar com segurança e documentação adequada.
Essa exigência ajuda a explicar por que empresas não conseguem substituir rapidamente um eletricista experiente.
O profissional precisa unir formação, prática, domínio de normas, capacidade de diagnóstico e atenção a riscos que podem provocar acidentes graves, paralisações, incêndios e prejuízos materiais.
A expansão da energia solar colocou mais pressão sobre a procura por eletricistas no Brasil
A energia solar também entrou nessa equação. A ABSOLAR informa que a fonte solar já soma dezenas de gigawatts de capacidade instalada no Brasil e mais de 2 milhões de empregos gerados desde 2012, com forte presença de empresas instaladoras, integradoras, consultorias, distribuidoras e serviços de operação e manutenção.
Esse avanço amplia a demanda por profissionais capazes de instalar, revisar, conectar e manter sistemas fotovoltaicos.
Embora nem todo emprego gerado no setor solar seja de eletricista, a expansão da geração distribuída e dos grandes projetos solares aumenta a necessidade de mão de obra elétrica qualificada em telhados, usinas, inversores, quadros de proteção e sistemas de conexão.
O efeito prático é direto: o eletricista deixou de ser necessário apenas em obras residenciais e manutenção predial. Ele passou a disputar espaço também em empresas de energia renovável, concessionárias, indústrias, data centers, galpões logísticos, supermercados, condomínios e projetos de modernização elétrica.
A construção civil depende do eletricista em uma fase crítica, quando erro pode atrasar entrega e aumentar custo da obra
Na construção civil, a falta de eletricistas tem impacto especial porque o serviço elétrico aparece em fases decisivas da obra. Infraestrutura, eletrodutos, quadros, circuitos, tomadas, iluminação, aterramento, testes e adequações precisam conversar com arquitetura, hidráulica, acabamento e normas de segurança.
Quando falta eletricista qualificado, a obra não apenas perde velocidade. Ela pode acumular retrabalho, atrasar vistoria, gerar incompatibilidades com outros sistemas e elevar custos. Por isso, a preocupação da CBIC com qualificação tem peso estratégico para construtoras, incorporadoras e empresas de obras industriais.
O Ministério do Trabalho e Emprego também registrou que programas de treinamento em parceria com o Senai estavam sendo estruturados para qualificar trabalhadores e suprir a carência de profissionais especializados na construção civil.
A própria discussão entre MTE e CBIC tratou a qualificação como ponto central para sustentar o crescimento do setor com segurança e qualidade.
Empresas de energia já criam escolas próprias para formar eletricistas e reduzir a falta de profissionais
A dificuldade de contratar levou empresas a criarem programas próprios de formação. Em 2025, o Grupo Equatorial anunciou, em parceria com o Senai, 400 vagas gratuitas para o Programa Escola de Eletricistas em sete estados, voltado à formação de profissionais para atuar no setor de distribuição de energia elétrica.
A empresa informou que, desde a criação do programa em 2022, a iniciativa já havia formado 1.607 profissionais, dos quais 833 foram contratados, segundo mapeamento realizado em fevereiro de 2025. Esse dado mostra que a formação técnica não está sendo tratada apenas como projeto social, mas como estratégia concreta para abastecer o próprio mercado de trabalho.
Quando concessionárias, construtoras e indústrias investem em formação, o mercado envia um sinal claro: a oferta tradicional de mão de obra não acompanha a demanda.
A profissão exige tempo de capacitação, prática supervisionada e atualização constante, especialmente diante de novas tecnologias, automação, geração solar, baterias e sistemas inteligentes de energia.
A falta de jovens na profissão aumenta o risco de envelhecimento da mão de obra técnica
Outro ponto crítico é a idade média dos trabalhadores da construção civil. O Ministério do Trabalho e Emprego informou que o setor enfrenta aumento da idade média dos trabalhadores, atualmente em 42 anos, junto com a falta de mão de obra qualificada. Esse dado sugere um desafio de reposição geracional em funções operacionais e técnicas.
A baixa atratividade de profissões manuais e técnicas entre jovens cria um problema estrutural. Enquanto muitos trabalhadores experientes se aproximam da aposentadoria ou migram para atividades autônomas, empresas precisam encontrar novos eletricistas capazes de atuar com segurança em obras, manutenção, indústria e infraestrutura.
A consequência é uma disputa maior por profissionais prontos. Quem já tem experiência, NR-10, boa leitura técnica e capacidade de resolver problemas em campo tende a ser mais valorizado. Para quem busca uma carreira com entrada relativamente rápida e demanda constante, a elétrica aparece como uma das áreas técnicas mais relevantes do país.


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