Shiro Nishimura contou como o congelamento financeiro do Plano Collor deixou fazenda e indústria sem caixa, obrigando a venda de patrimônio rural para pagar contas, indenizações e manter a Jacto em operação
Shiro Nishimura revelou como precisou vender mais de 13 mil cabeças de gado, fazendas e quase todo o patrimônio rural da família para evitar a quebra da Jacto durante a crise provocada pelo Plano Collor, que congelou recursos bancários no Brasil e deixou a empresa, com cerca de 1.300 funcionários, sem capital para manter sua operação.
Plano Collor atingiu caixa da fazenda e da Jacto
O relato de Shiro Nishimura, pecuarista reconhecido pela seleção de gado Nelore e pela consolidação da Fazenda Araponga, expõe o impacto direto do congelamento financeiro sobre produtores rurais e empresas brasileiras no início dos anos 1990.
No episódio #186 do AGRO360 Podcast, apresentado por Rafael Vilella, ele relembrou que a crise começou de forma repentina. Ao chegar à fazenda, foi informado pelo contador de que havia apenas 50 dólares na conta.
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Shiro contou que sempre mantinha reserva suficiente para dois meses de despesas da fazenda. O dinheiro era usado para pagar empregados, vacinas, manutenção e demais custos da atividade pecuária.
Com o bloqueio dos recursos, a rotina da fazenda foi interrompida. Na pecuária, o pagamento pelo boi abatido podia demorar até 30 dias, o que tornava o caixa essencial para manter a operação.

Venda de gado virou medida urgente para pagar contas
Sem dinheiro disponível, Shiro precisou buscar alternativas imediatas. Ele relatou que procurou frigoríficos e pediu prioridade no pagamento dos primeiros bois abatidos, porque precisava quitar compromissos urgentes.
O pecuarista afirmou que, naquele momento, o mercado estava travado. Não havia negociação em condições normais, porque compradores e vendedores também enfrentavam falta de dinheiro.
A crise também atingiu diretamente a Jacto, empresa fundada por seu pai e sediada em Pompeia. Segundo Shiro, a indústria tinha cerca de 1.300 empregados e estava praticamente sem recursos, na mesma situação enfrentada pela fazenda.
Diante do risco de colapso, ele avaliou que a empresa poderia quebrar. A falta de capital afetava salários, custos operacionais e a capacidade de manter a estrutura funcionando.
Patrimônio rural foi usado para salvar a Jacto
A decisão mais dura foi vender patrimônio para levantar recursos. Shiro explicou que seu plano pessoal era seguir na pecuária, enquanto outros membros da família continuariam na indústria. A crise, porém, mudou o rumo da trajetória.
As fazendas pertenciam à empresa, mas eram administradas por ele. Para gerar caixa, Shiro vendeu boi, boi magro, vacas e fazendas. As negociações ocorreram em um período de desvalorização e falta de compradores.
Segundo o relato, em alguns casos a venda de fazendas era paga com gado. Depois, o gado precisava ser vendido novamente para transformar o patrimônio em dinheiro.
O objetivo era levar recursos para a Jacto e reduzir os danos sociais e financeiros. A empresa precisou diminuir o quadro de funcionários de 1.300 para 700 empregados.
Shiro afirmou que as fazendas serviram, basicamente, para viabilizar a dispensa de 600 pessoas, já que era necessário pagar indenizações. Ele destacou que não bastava mandar os funcionários embora sem cumprir as obrigações.
70 mil hectares foram vendidos durante a crise
No podcast, Shiro revelou que tinha 70 mil hectares naquele período. O patrimônio foi liquidado de forma acelerada, em meio ao cenário de crise econômica e desvalorização.
Ele contou que tudo foi sendo vendido barato, em um processo de descapitalização. Ao final, restou apenas uma pequena fazenda onde mantinha vacas P.O.
O relato também mostra o peso emocional daquele período. Shiro mencionou brigas, tensão familiar e dificuldades internas causadas pela pressão financeira.
A crise provocada pelo Plano Collor, implementado durante o governo do ex-presidente Fernando Collor de Mello, completou 36 anos em 2026.
A medida congelou bilhões de cruzados novos de contas bancárias e atingiu famílias, produtores rurais e empresas.
Exportações ajudaram empresa a atravessar o pior momento
Com o mercado brasileiro sem liquidez, a Jacto encontrou uma alternativa nas exportações. Shiro explicou que países como Paraguai, Bolívia, Argentina e México não enfrentavam o mesmo bloqueio financeiro vivido no Brasil.
A família passou a direcionar vendas de equipamentos agrícolas para mercados externos. Segundo ele, havia matéria-prima e mão de obra parada, o que permitia manter parte da atividade industrial.
O desafio era transformar exportações em caixa. As vendas tinham prazo de pagamento de seis meses, e a empresa precisava descontar letras no Banco do Brasil para conseguir dólares e pagar salários.
Mesmo com dificuldades, essa estratégia ajudou a Jacto a sobreviver até a economia começar a se estabilizar.
Shiro afirmou que, depois, o governo percebeu o tamanho da medida e começou a liberar dinheiro.
Além desse episódio, Shiro Nishimura é reconhecido pelo trabalho de melhoramento genético na Fazenda Araponga, em Mato Grosso.
O projeto focou qualidade de carne, precocidade, rendimento de carcaça e marmoreio em animais Nelore, com uso de ultrassonografia de carcaça e avaliações genéticas da Embrapa Geneplus.
Esta matéria foi elaborada com base em informações do AGRO360 Podcast, episódio #186, apresentado por Rafael Vilella, com dados, números e declarações preservados conforme o material consultado.


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