Aos 31 anos, Samanta trocou a cidade por um sítio na Serra Catarinense e transformou estudo, agrofloresta e apicultura em renda. A história inclui um “mel negro” com selo de origem e produção ligada à bracatinga e à cochonilha.
Samanta, 31, aparece em um vídeo gravado no Cambará, localidade do município de Bom Retiro, na Serra Catarinense, contando por que decidiu voltar para a roça depois de anos morando e trabalhando na cidade. Ela relata que saiu ainda jovem para estudar, fez faculdade e mestrado, montou um negócio ligado ao mel em São Paulo e, após estruturar as vendas, voltou para tocar a produção no sítio da família.
No relato, a virada não é descrita como impulso, mas como uma escolha planejada de estilo de vida. A jovem diz que se encontrou na produção orgânica, na conexão com a natureza e na decisão de trabalhar sem veneno, inclusive para não colocar em risco as abelhas que sustentam parte central do negócio.
O cenário mostrado no vídeo também destaca o contraste entre modelos agrícolas dentro da própria família. Samanta afirma que o pai e o tio seguem uma linha mais convencional, enquanto ela optou por orgânicos, manejo de solo e criação de abelhas, com foco em mel e própolis.
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A história chama atenção porque encaixa em uma tendência que aparece cada vez mais em relatos rurais no Sul do Brasil, jovens que estudam fora e retornam com uma proposta diferente, unindo conhecimento técnico, produção e venda direta.
Do mestrado ao retorno para a Serra Catarinense; veja o vídeo
No vídeo, Samanta conta que a terra é da família há gerações e que ela saiu por um motivo comum a quem cresce no interior, estudar fora para ter acesso a formação. Ela diz ter feito mestrado com foco em restauração, e que essa base ajudou a orientar escolhas práticas no campo.
A volta teria acontecido após estruturar a comercialização do mel e perceber que a produção orgânica fazia mais sentido para o que ela buscava. Ela também descreve a cidade como um ambiente que passou a gerar estresse, reforçando que não se vê mais na rotina de apartamento.
O ponto central do retorno, segundo o relato, foi alinhar trabalho e propósito. Em vez de “ganhar pão a qualquer custo”, ela afirma que escolheu um modo de vida que combinasse renda, saúde e coerência com o que produz.
Agricultura orgânica e agrofloresta no sítio que virou laboratório de diversidade
Uma das cenas mais detalhadas do vídeo é a visita à horta e aos canteiros com consórcios de culturas. Samanta mostra pepino tutorado, beterraba, brássicas, rúcula, alface e outras espécies, explicando que mistura plantas com tempos de colheita diferentes para produzir mais em pouco espaço.
Ela também insiste em uma prática que virou marca do discurso, solo sempre coberto. A agricultora diz que usa cobertura vegetal como estratégia para manter umidade, alimentar microrganismos e reduzir a necessidade de capina, reaproveitando matéria orgânica como adubo no próprio canteiro.
Outro trecho do vídeo chama atenção por tocar em adaptação climática. Samanta afirma que já tentou replicar sistemas aprendidos em cursos de agrofloresta sem ajustar ao contexto de geadas, e que isso trouxe perdas e aprendizado, como o caso de bananeiras que não resistiram.
O contexto regional reforça por que esse ajuste importa. A Serra Catarinense está dentro de uma área reconhecida pela produção de mel de melato de bracatinga, cuja ocorrência está associada ao Planalto Sul Brasileiro e a características ambientais específicas.
Abelhas sem ferrão e própolis como estratégia de renda e conservação
No vídeo, Samanta mostra caixas de abelhas sem ferrão e comenta que trabalha com espécies que se adaptam melhor ao frio, citando mandaçaia e tubuna. Em Santa Catarina, a Epagri descreve a ocorrência natural de diversas espécies de abelhas sem ferrão no estado e a prática de meliponicultura como atividade ligada à biodiversidade e à produção.
Ela afirma que seu foco, neste momento, é ampliar o plantel e aumentar a produção de própolis, porque pretende usar extratos em produtos combinados com mel. Também diz que faz manejo e divisão de enxames de forma cuidadosa, evitando uma lógica apenas extrativista, por entender que a qualidade depende de como se produz.
O que torna o mel de melato de bracatinga tão disputado
O “personagem” mais curioso da história é o melato de bracatinga, vendido por ela como carro-chefe. Esse tipo de mel não vem do néctar das flores, mas de uma secreção açucarada ligada a insetos sugadores, em associação com a bracatinga, árvore conhecida como Mimosa scabrella, típica do bioma com araucárias.
Pesquisas e materiais técnicos descrevem que o melato de bracatinga é um mel escuro e classificado como mel de melato ou honeydew honey, formado na interação entre planta, cochonilha e abelha. Estudos publicados no SciELO detalham a produção de honeydew por insetos associados à bracatinga e relacionam esse processo ao mel conhecido como bracatinga honeydew honey.
A produção também é descrita como cíclica. Materiais técnicos apontam ocorrência bianual e, na prática, isso afeta estoque e renda, algo que a própria Samanta comenta ao falar de anos de quebra por geada ou excesso de chuva.
Nos últimos anos, o produto ganhou ainda mais status por causa do selo de origem. A Indicação Geográfica na modalidade Denominação de Origem do mel de melato de bracatinga do Planalto Sul Brasileiro abrange municípios de SC, PR e RS, e fontes institucionais citam safra a cada dois anos e produção em centenas de municípios.
Sobre “propriedades medicinais”, o tema exige cuidado para não virar promessa. Há estudos que investigam composição, minerais, fenólicos e atividades biológicas como capacidade antioxidante e ação antimicrobiana em amostras de mel de melato de bracatinga, o que ajuda a explicar o interesse crescente, mas isso não equivale a tratar doenças.
Clima, quebras de safra e o debate sobre romantizar a vida no campo
Um trecho do vídeo que dá mais credibilidade ao relato é quando Samanta descreve perdas concretas. Ela cita geada fora de época que derrubou florada, além de chuva intensa no período em que as abelhas deveriam trabalhar, fatores que reduziram colheita e exigiram investimento sem retorno imediato.
Esse tipo de risco é coerente com o que instituições e pesquisadores descrevem sobre a dependência de condições ambientais na produção do melato, inclusive com impacto de fatores climáticos na dinâmica do honeydew.
A história, por isso, tende a dividir opiniões. Para alguns, é inspiração de empreendedorismo rural e agricultura orgânica; para outros, pode soar como romantização, já que nem todo mundo consegue voltar para uma terra de família e transformar produção em marca e venda direta.
Se você acredita que a volta para a roça é uma saída real para mais gente ou um privilégio de poucos, deixe um comentário com seu ponto de vista. E na sua opinião, orgânico e convencional conseguem conviver sem conflito quando a renda da família depende de caminhos diferentes.

