Em Monteiro Lobato, Bernardo e Bruno levaram quase dois anos para erguer sozinhos uma residência feita de bambu, terra e materiais reaproveitados, em meio à natureza
Em meio à Serra da Mantiqueira, entre rios e vegetação densa, dois irmãos decidiram transformar um terreno virgem em um projeto de vida. Bernardo e Bruno, bioconstrutores autodidatas, ergueram com as próprias mãos uma casa feita majoritariamente de bambu e terra — um processo que levou quase dois anos e que hoje resulta em um dos espaços mais procurados da região de Monteiro Lobato, no interior de São Paulo.
A história começou do zero. Quando os irmãos chegaram ao terreno, não havia energia elétrica, infraestrutura ou qualquer estrutura prévia. Diante desse cenário, eles decidiram que toda a construção seguiria princípios de sustentabilidade, reaproveitamento e baixo impacto ambiental. A informação sobre o processo completo de construção foi divulgada pelo canal Entre Pra Morar, no YouTube, em reportagem publicada no dia 23 de agosto de 2024.
A escolha do bambu e os desafios de erguer uma estrutura natural

O primeiro grande desafio do projeto foi a seleção do material principal: o bambu. Segundo os irmãos, não se tratava de qualquer variedade. Eles optaram por um tipo específico, conhecido como bambu de bosque — diferente do bambu de touceira, mais comum em construções improvisadas. Para dar início à obra, foram selecionadas, uma a uma, 100 varas de cinco metros de comprimento, todas trazidas para secar e passar por tratamento antes da montagem da estrutura.
-
Cientistas decidem descobrir o que aconteceria se um avião de papel fosse lançado da Estação Espacial Internacional, a cerca de 400 quilômetros da Terra
-
Empresa cria o chocolate mais fino do mundo, com apenas 0,03 milímetro de espessura, usando máquina exclusiva desenvolvida durante um ano e meio no Japão
-
Aos 22 anos, Andréia largou a faculdade de Direito na 9ª fase para virar caminhoneira e hoje, 6 anos depois, roda o Brasil transportando grãos da Copercampos com 130 mil seguidores
-
Aos 81 anos, agricultor catarinense guarda em sua propriedade um engenho de cana que ainda funciona, uma atafona centenária e dezenas de ferramentas feitas à mão que contam a história de toda uma vida dedicada à roça e às tradições do interior de Santa Catarina
Apenas essa etapa inicial, de seleção e preparo do bambu, consumiu cerca de três meses de trabalho. Depois, vieram as etapas de fechamento das paredes, feitas com a técnica de pau a pique — método tradicional que combina estrutura de madeira ou bambu com barro. Ao todo, considerando atrasos causados pela pandemia, a obra completa levou aproximadamente dois anos para ser concluída.
Contudo, o uso do bambu como material estrutural exige cuidados específicos. De acordo com Bernardo e Bruno, a planta é resistente, mas delicada: pode trincar com naturalidade, o que exige reforços com braçadeiras — prática comum na maioria das construções desse tipo. Além disso, o bambu não pode ficar exposto a ciclos constantes de chuva e sol sem proteção adequada, o que tornou necessário projetar um telhado mais amplo, capaz de evitar a incidência direta da água sobre a estrutura.
Para garantir a durabilidade do material, os irmãos também realizaram um processo de tratamento por imersão. Em uma cova revestida com lona, o bambu já seco foi submerso em uma solução diluída de sulfato de cobre e ácido bórico, na proporção de 1 para 100, por um período de sete a dez dias. Esse processo faz com que o bambu substitua sua seiva natural — atrativa para insetos — por componentes minerais, tornando-se menos vulnerável a pragas. Segundo os bioconstrutores, essa etapa é o que garante a longevidade da estrutura ao longo dos anos.
Uma casa suspensa, sustentável e construída com materiais reaproveitados

Outra decisão importante do projeto foi erguer a casa suspensa do solo. A escolha tem explicação técnica: a região, situada entre dois rios, apresenta umidade elevada constante. Por esse motivo, os irmãos optaram por elevar a estrutura — 35 centímetros na parte de trás e mais de um metro na parte frontal — utilizando madeira de demolição para compor o piso e o baldrame, a base que sustenta as paredes.
Essa escolha trouxe benefícios além da proteção contra a umidade. Segundo os bioconstrutores, manter a casa suspensa também ajuda a evitar a entrada de animais como cobras e aranhas, comuns em áreas rurais como a Serra da Mantiqueira. Ainda assim, o benefício vai além da segurança: a estrutura elevada preserva a permeabilidade total do solo, contribuindo para o equilíbrio ambiental do entorno. Do ponto de vista térmico, o resultado também é positivo — no verão, o espaço se mantém mais fresco; no inverno, mais aquecido.
O telhado, por sua vez, foi feito com placas recicladas de embalagens longa vida, fornecidas por uma empresa especializada. Leve, resistente e com boa performance térmica e acústica, o material reduziu significativamente o custo da obra, já que permite espaçamento maior entre as vigas de madeira — de até um metro de distância entre elas.
Nesse sentido, a busca por sustentabilidade não ficou restrita ao bambu e à estrutura geral. Praticamente todos os itens internos da residência têm origem em reaproveitamento: portas e janelas foram adquiridas por meio de grupos de doação online e marketplaces de redes sociais; peças de ferro vieram de ferro-velho; e até eletrodomésticos, como fogão e geladeira, foram conseguidos por doação. O sistema de tratamento de esgoto também segue lógica ecológica, com o uso de círculo de bananeiras e bacia de evapotranspiração — métodos naturais de tratamento de águas residuais. Já o abastecimento de água da propriedade vem diretamente de uma nascente local.
Identidade, reaproveitamento de bambu e planos futuros para o espaço Entre Rios
Passado o período intenso de construção, os irmãos iniciaram uma nova fase: dar identidade à casa. Cerca de um ano após a mudança, pequenos ajustes começaram a moldar o espaço de forma mais pessoal e funcional. Um dos destaques desse processo foi o reaproveitamento criativo das sobras de bambu da obra, transformadas em vasos de planta, bancada, cabideiro e outros itens de decoração artesanal.
Além disso, os detalhes estéticos internos também carregam soluções sustentáveis. Para cobrir paredes feitas parcialmente com tijolo — usado estrategicamente em áreas que recebem tubulação, como cozinha e banheiro —, os irmãos criaram uma tinta de terra natural, produzida com cola, água e terra peneirada. O resultado, segundo eles, é praticamente indistinguível do restante do reboco de barro, feito com cal virgem hidratada, água, terra e areia.
Por outro lado, a casa também guarda planos para o futuro. Já em construção está um mesanino, pensado desde o início do projeto para ampliar o espaço de convivência. Também está prevista, para os próximos dias, a construção de um domo geodésico — outra estrutura suspensa pelo mesmo motivo da casa principal: a presença constante de umidade na região.
A propriedade, batizada de espaço Entre Rios, soma 62 mil metros quadrados. Embora o objetivo inicial fosse criar moradia para os próprios irmãos e um espaço para receber amigos, voluntários, cursos e eventos culturais, o local também passou a operar como hospedagem de curta duração por meio de plataformas de aluguel. Segundo Bernardo e Bruno, a procura por hospedagem na região tem crescido, especialmente entre visitantes de São Paulo em busca de descanso — o que abriu espaço para a construção de novos chalés no terreno, ampliando a fonte de renda e viabilizando outros projetos futuros.
Ainda assim, o propósito cultural permanece central no projeto. Os irmãos pretendem seguir promovendo eventos e atividades educativas na região, além de oferecer orientação gratuita para quem deseja empreender em bioconstrução. Segundo eles, esse compartilhamento de conhecimento técnico — batizado por eles de “democratização do conhecimento” — é parte essencial da missão por trás do espaço Entre Rios.
Histórias como a de Bernardo e Bruno reforçam um movimento crescente no Brasil: o de pessoas que buscam alternativas mais sustentáveis de moradia, unindo técnicas tradicionais, materiais naturais e reaproveitamento consciente. Portanto, mais do que uma simples residência, a casa de bambu e terra erguida na Serra da Mantiqueira se consolida como símbolo de um estilo de vida que prioriza simplicidade, conexão com a natureza e responsabilidade ambiental — provando que é possível construir um lar funcional, bonito e ecologicamente equilibrado com paciência, criatividade e poucos recursos.

