Fóssil encontrado em 2021 no Maranhão ajuda a explicar como continentes estavam ligados antes da abertura do Oceano Atlântico
Uma descoberta realizada no Maranhão está ajudando cientistas a reconstruir o mapa da Terra como ele existia há mais de 120 milhões de anos. Embora o achado envolva restos fossilizados de um grande vertebrado pré-histórico, o impacto mais relevante não está no porte do espécime, mas sim no que ele revela sobre antigas conexões continentais.
A informação foi divulgada pela “Reuters”, com base em estudo publicado neste mês no Journal of Systematic Palaeontology. A pesquisa foi liderada por Elver Mayer, da Universidade Federal do Vale do San Francisco, e contou com a participação de pesquisadores de diferentes instituições brasileiras, incluindo a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Os fósseis foram encontrados em 2021 durante obras de infraestrutura próximas a Davinópolis, no Maranhão. Desde então, análises detalhadas vêm sendo conduzidas para compreender o significado paleogeográfico da descoberta.
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Entre os materiais recuperados, um fêmur com cerca de 1,5 metro de comprimento chamou atenção dos pesquisadores. Com base nesse elemento, os cientistas estimaram que o espécime poderia atingir aproximadamente 20 metros de comprimento total.
Contudo, mais importante do que a dimensão estimada é a relação evolutiva identificada pelos especialistas.
Relação com espécie descrita na Espanha aponta rota terrestre antiga

A análise comparativa indicou que o espécime brasileiro é o parente mais próximo conhecido do Garumbatitan morellensis, espécie descrita na Espanha.
Esse dado é crucial. Isso porque a proximidade filogenética sugere que a linhagem do grupo pode ter tido origem europeia. Portanto, os ancestrais teriam se dispersado para a região que hoje corresponde à América do Sul há cerca de 130 milhões de anos.
Segundo a Universidade Federal de Santa Maria, esse deslocamento provavelmente ocorreu através do norte da África. Naquele período, antes da abertura completa do Oceano Atlântico, ainda existiam conexões terrestres entre América do Sul, África e Europa.
Além disso, a própria Reuters destacou que evidências geológicas apontam que partes da América do Sul, da África e da Europa estiveram conectadas por rotas terrestres há cerca de 120 milhões de anos.
Assim, o achado reforça modelos científicos que descrevem o processo de fragmentação do supercontinente Gondwana e a posterior formação do Oceano Atlântico.
Evidência paleontológica fortalece estudos sobre a separação dos continentes

O estudo, publicado no Journal of Systematic Palaeontology, não se limita à descrição anatômica do material encontrado. Pelo contrário, ele contribui para o entendimento da dinâmica continental no período Cretáceo.
Ao identificar semelhanças estruturais entre o fóssil brasileiro e o material descrito na Espanha, os pesquisadores reforçam a hipótese de intercâmbio biogeográfico antes da separação definitiva dos continentes.
Consequentemente, o registro encontrado no Maranhão passa a integrar um conjunto de evidências que sustentam a existência de corredores terrestres entre massas continentais hoje isoladas pelo Atlântico.
Além disso, o nome atribuído ao espécime, Dasosaurus tocantinensis, faz referência à região onde os fósseis foram localizados, incluindo o rio Tocantins, cujas margens orientais ficam próximas ao sítio fossilífero.
Portanto, mais do que representar um registro de grande porte — estimado em cerca de 20 metros de comprimento — a descoberta amplia o entendimento científico sobre as conexões entre América do Sul, África e Europa há aproximadamente 130 milhões de anos.
Dessa forma, o achado reforça a importância do território brasileiro para a paleontologia global e para os estudos sobre a evolução geológica do planeta.
