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Descoberta de flechas envenenadas mostra ciência avançada das primeiras civilizações

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Escrito por Sara Aquino Publicado em 15/01/2026 às 07:22
Descoberta de flechas envenenadas mostra ciência avançada das primeiras civilizações
Fonte: IA
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Descoberta arqueológica de flechas envenenadas com 60 mil anos revela ciência e estratégia das primeiras civilizações humanas.

Descoberta arqueológica muda o que se sabia sobre as primeiras civilizações

Uma descoberta arqueológica feita na África do Sul revelou que humanos usavam flechas envenenadas há cerca de 60 mil anos, muito antes do surgimento das primeiras civilizações conhecidas. A pesquisa, conduzida por arqueólogos e publicada na revista Science Advances em janeiro de 2026, mostra que técnicas sofisticadas de caça já faziam parte do repertório humano no Pleistoceno tardio.

O achado ocorreu no sítio Umhlatuzana Rock Shelter, na província de KwaZulu-Natal, e ajuda a explicar como ciência, planejamento e estratégia já moldavam o comportamento dos primeiros Homo sapiens.

Flechas envenenadas indicam ciência e estratégia antes do Holoceno

Os pesquisadores identificaram 216 pontas de flecha feitas de quartzo enterradas no local, todas datadas de aproximadamente 60 mil anos. Entre elas, dez apresentaram resíduos microscópicos preservados. Dessas, cinco continham substâncias vegetais tóxicas, confirmando o uso intencional de flechas envenenadas como tecnologia de caça.

Até então, a arqueologia associava o uso de venenos em armas a um período muito mais recente. Os registros mais antigos conhecidos datavam de cerca de sete mil anos atrás, com vestígios encontrados na Kruger Cave, também na África do Sul. Portanto, essa descoberta empurra a origem dessa prática milhares de anos para trás.

Ciência aplicada na caça entre os primeiros Homo sapiens

As análises químicas identificaram os alcaloides buphanidrina e epibuphanisine nos resíduos das flechas. Essas substâncias estão associadas à planta Boophone disticha, conhecida por sua alta toxicidade. Ainda hoje, comunidades da África Austral utilizam essa planta como veneno para armas de caça, o que reforça a continuidade do conhecimento tradicional ao longo do tempo.

Além disso, os compostos afetam diretamente o sistema nervoso, podendo provocar convulsões e falência respiratória. Assim, o uso desse veneno aumentava a eficiência da caça, mesmo quando o animal não morria imediatamente após ser atingido.

Arqueologia revela pensamento abstrato e planejamento complexo

Segundo os autores do estudo, o uso de flechas envenenadas exige uma sequência de ações coordenadas. Primeiro, o caçador precisa identificar plantas com propriedades tóxicas. Em seguida, deve extrair corretamente os compostos e aplicá-los de forma que o veneno permaneça ativo na arma por longos períodos.

“Embora os caçadores do Pleistoceno Médio do Abrigo Rochoso de Umhlatuzana não possuíssem conhecimento químico formal, nosso estudo demonstra que eles tinham um sistema de conhecimento ou conhecimento processual que lhes permitia identificar, extrair e aplicar exsudatos tóxicos de plantas de forma eficaz”, explica o estudo.

Esse comportamento, portanto, aponta para pensamento abstrato, raciocínio causal e planejamento avançado, elementos fundamentais da ciência mesmo antes do surgimento das primeiras civilizações organizadas.

Flechas envenenadas exigiam conhecimento ecológico profundo

Além do domínio químico empírico, os caçadores precisavam compreender o comportamento das presas. O estudo destaca que o veneno não atuava de forma imediata, mas enfraquecia o animal com o passar do tempo, favorecendo a chamada caça por persistência.

“Eles também deviam ter o conhecimento necessário sobre ecologia e comportamento das presas (etologia) para saber que, se atingido por um tiro em um animal de presa, o efeito retardado do veneno o enfraqueceria após algum tempo”, detalham os pesquisadores.

Enquanto isso, como o veneno age quimicamente e não por força física, os caçadores precisavam antecipar resultados, planejar deslocamentos e coordenar ações de longo prazo.

A planta usada no veneno reforça a sofisticação da técnica

A Boophone disticha pertence à família Amaryllidaceae e é nativa do sul da África. Embora não existam evidências botânicas diretas de que a planta estivesse exatamente ao redor do abrigo rochoso há 60 mil anos, ela ainda ocorre a menos de oito quilômetros do sítio arqueológico.

Esse dado reforça a hipótese de que os grupos humanos conheciam bem o território que ocupavam. Além disso, demonstra que a ciência aplicada à sobrevivência fazia parte da rotina dessas populações muito antes do Holoceno.

Descoberta redefine o papel da ciência nas primeiras civilizações

O achado elucida o uso de técnicas avançadas de caça muito antes do Holoceno, período iniciado há cerca de 11.700 anos e associado ao surgimento da agricultura e das primeiras civilizações complexas. Assim, a arqueologia mostra que ciência, estratégia e inovação já estavam presentes na vida humana em épocas muito mais remotas.

Segundo a revista Live Science, o estudo representa uma das evidências mais claras de que o uso de venenos fazia parte de uma tradição tecnológica antiga. Dessa forma, a descoberta de flechas envenenadas redefine a compreensão sobre o nível de sofisticação alcançado pelas primeiras civilizações humanas.

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Sara Aquino

Farmacêutica e Redatora. Escrevo sobre Empregos, Geopolítica, Economia, Ciência, Tecnologia e Energia.

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