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Depois dos gigantes, exército de empresas chinesas menores avança silenciosamente pelo Brasil, pulveriza investimentos, monta fábricas, compra infraestrutura estratégica, reinveste lucros e espalha cadeias de valor em energia, trens, carros elétricos e grandes obras, redesenhando o mapa econômico da região

Publicado em 08/12/2025 às 11:26
Atualizado em 08/12/2025 às 11:29
Empresas chinesas ampliam investimentos chineses no Brasil com foco em energia elétrica, fábricas no Brasil e carros elétricos que transformam o setor.
Empresas chinesas ampliam investimentos chineses no Brasil com foco em energia elétrica, fábricas no Brasil e carros elétricos que transformam o setor.
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Entre 2007 e 2023, empresas chinesas aplicaram US$ 73 bilhões em 265 projetos no Brasil e, após grandes aquisições em energia e petróleo, agora priorizam investimentos greenfield, fábricas, serviços de engenharia e cadeias de valor completas, com apoio financeiro de bancos chineses estatais em infraestrutura, mobilidade elétrica e transição energética.

De acordo com informações postadas pelo portal do Estadão em dezembro 2025, em menos de duas décadas, o Brasil viu a paisagem dos investimentos de empresas chinesas mudar de forma profunda. Entre 2007 e 2023, o país recebeu US$ 73 bilhões em 265 projetos confirmados e, depois do soluço de 2020 provocado pela pandemia, os aportes voltaram a crescer em 2021, com US$ 5,9 bilhões investidos, sendo 85% voltados à extração de petróleo e gás.

Se no início dessa presença predominaram megacompras como a CPFL Energia em 2017, os ativos da Duke Energy no Brasil em 2016 e 90% do Terminal de Contêineres de Paranaguá na mesma época, hoje o movimento é outro. Transações menores, projetos greenfield e cadeias de valor completas transformaram a ocupação visível dos gigantes estatais em um avanço silencioso e pulverizado de empresas chinesas por vários setores da economia.

Do choque das megacompras à ocupação silenciosa

No primeiro ciclo, o Brasil se acostumou a ver empresas chinesas desembarcarem por meio de grandes fusões e aquisições, sobretudo em energia elétrica. Em 2017, a State Grid desembolsou R$ 14,2 bilhões pela CPFL Energia; em 2016, a China Three Gorges comprou os ativos da Duke Energy no País por R$ 3,1 bilhões; e a China Merchants Ports Holding levou 90% do terminal de contêineres de Paranaguá por R$ 2,9 bilhões.

Essas operações marcaram a fase em que gigantes estatais assumiram posição em ativos estratégicos de energia e logística, incluindo a usina eólica Formosa, da CPFL Renováveis, que concentra o maior investimento da State Grid fora da China.

Foi o período em que o Brasil deixou de ser apenas destino de títulos da dívida americana e passou a integrar a estratégia de internacionalização produtiva do capital chinês.

Greenfield explode e encolhe o tíquete médio dos projetos

A partir de 2021, o perfil mudou com força. Segundo estudo da Araújo Fontes, as fusões e aquisições perderam peso relativo enquanto os investimentos em novos projetos greenfield dispararam. Em 2021, cerca de metade dos recursos já se destinava a projetos iniciados do zero; em 2023, essa fatia alcançou aproximadamente 90%.

O tamanho médio dos cheques confirma a virada. Entre 2010 e 2014, cada projeto de investimento de empresas chinesas no Brasil girava em torno de US$ 507 milhões. De 2015 a 2019, o valor médio caiu para US$ 313 milhões.

De 2020 até 2024, o tíquete médio recuou novamente, para cerca de US$ 112 milhões por projeto. Menos megaoperações isoladas e muito mais entradas em série, desenhando uma malha densa de capital chinês em diferentes regiões e atividades.

Energia, petróleo e novos setores na mira das empresas chinesas

Entre 2007 e 2023, 45% dos US$ 73 bilhões investidos por empresas chinesas no Brasil foram direcionados à energia elétrica, 30% à extração de petróleo, e o restante se dividiu entre manufatura industrial, mineração, infraestrutura, agricultura e outros segmentos.

O país se consolidou como principal destino dos aportes chineses na América Latina entre 2008 e 2017, funcionando como hub regional.

No plano global, os investimentos externos da China saltaram de US$ 24,8 bilhões em 2007 para o pico de US$ 170,1 bilhões em 2016, mantendo-se desde então acima de US$ 110 bilhões por ano, com mais de 60% dos recursos pulverizados entre vários países.

Dentro desse movimento, o Brasil se destaca como vitrine onde empresas chinesas testam modelos de negócios, ajustam tecnologia e, a partir daqui, miram outros mercados latino-americanos.

Fábricas, serviços de engenharia e crédito formam a cadeia de valor

A nova fase não se limita ao controle de ativos prontos. Empresas chinesas passaram a trazer consigo uma cadeia de fornecedores de engenharia, equipamentos e serviços, amarrada a linhas de crédito de bancos chineses.

Um exemplo é a compra da Concremat pela China Communications Construction Company, que transformou a empresa brasileira em plataforma de engenharia da gigante asiática no Brasil e na América Latina.

Com essa base, a CCCC ingressou em grandes obras de infraestrutura, como a ponte Salvador Itaparica e projetos ferroviários, e ainda adquiriu participação na portuguesa Mota Engil, vencedora do leilão do túnel Santos Guarujá.

Cada grande contrato puxa um conjunto de construtoras, projetistas, fabricantes de peças e prestadores de serviços com capital chinês, ampliando o controle sobre etapas cruciais da infraestrutura brasileira.

Trens, mobilidade e indústria automotiva sob capital chinês

Na mobilidade, o avanço também é nítido. A CRRC, em sociedade com o grupo brasileiro Comporte, venceu o leilão do Trem Intercidades entre São Paulo e Campinas e assumirá a operação da linha 7 de trem metropolitano.

Como parte da lógica de cadeia de produção, a CRRC está construindo uma fábrica de trens em Araraquara, interior de São Paulo.

No setor automotivo, o Brasil já abriga cerca de 15 montadoras de empresas chinesas, em sua maioria focadas em carros elétricos e híbridos.

A Great Wall Motors ocupa a antiga planta da Mercedes Benz em Iracemápolis, e a BYD assumiu a fábrica que foi da Ford em Camaçari, na Bahia.

Ao reutilizar ativos industriais de grupos americanos e europeus, empresas chinesas ocupam rapidamente capacidade produtiva existente e se posicionam como protagonistas da transição para veículos de baixa emissão.

Softpower, reinvestimento de lucros e disputa com os Estados Unidos

Esse avanço econômico vem acompanhado de uma estratégia de softpower. A imagem das empresas chinesas como promotoras da transição energética é reforçada pela produção de equipamentos elétricos, que abastece tanto concessões de usinas e transmissoras quanto o nascente mercado de carros elétricos.

Ao integrar infraestrutura de exportação, energia limpa e mobilidade, a China conecta interesses empresariais à diplomacia de longo prazo.

Há também a disputa geopolítica com os Estados Unidos. O tarifaço aplicado por Donald Trump atingiu empresas americanas presentes no Brasil e abriu espaço adicional para movimentos chineses, como a compra da fábrica da Ford em Camaçari pela BYD ou a aquisição das operações da Duke Energy pela China Three Gorges.

Ao mesmo tempo, muitas empresas chinesas têm optado por reinvestir os dividendos gerados no Brasil, em vez de remetê-los à matriz, ganhando escala e influência para participar da negociação de políticas públicas.

Crise do curtailment e os próximos alvos: baterias e hidrogênio verde

A conjuntura do setor elétrico cria novas oportunidades. A crise do curtailment, em que o corte compulsório de geração afeta a rentabilidade de projetos, leva empresas de outros países a rever planos de investimento no Brasil, sob pressão de acionistas.

É justamente nesse cenário de incerteza que empresas chinesas tendem a avançar, comprando ativos, assumindo riscos e reforçando sua presença em infraestrutura energética.

Os próximos passos já estão desenhados: é esperada participação de empresas chinesas no leilão de baterias que a Aneel deve realizar ainda este mês, além de forte presença em projetos de hidrogênio verde associados à transição energética.

Para Pequim, trata se de uma agenda de Estado, conduzida com horizonte de 50 anos. Para o Brasil, o resultado é um redesenho silencioso e profundo de cadeias produtivas, empregos qualificados e controle de ativos estratégicos.

Você acha que o avanço das empresas chinesas no Brasil fortalece o desenvolvimento do país ou aumenta a dependência de capital e tecnologia estrangeiros?

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Roberto
Roberto
09/12/2025 05:49

Como cidadão acho um perigo, no Brasil tudo bem, mas é necessário um controle do governo para o acompanhamento desses investimentos. Áreas vulnerável ao país não devem ser bem controladas. Só falta elas entrar no projeto de terras raras.

Fonte
Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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