Entre 2007 e 2023, empresas chinesas aplicaram US$ 73 bilhões em 265 projetos no Brasil e, após grandes aquisições em energia e petróleo, agora priorizam investimentos greenfield, fábricas, serviços de engenharia e cadeias de valor completas, com apoio financeiro de bancos chineses estatais em infraestrutura, mobilidade elétrica e transição energética.
De acordo com informações postadas pelo portal do Estadão em dezembro 2025, em menos de duas décadas, o Brasil viu a paisagem dos investimentos de empresas chinesas mudar de forma profunda. Entre 2007 e 2023, o país recebeu US$ 73 bilhões em 265 projetos confirmados e, depois do soluço de 2020 provocado pela pandemia, os aportes voltaram a crescer em 2021, com US$ 5,9 bilhões investidos, sendo 85% voltados à extração de petróleo e gás.
Se no início dessa presença predominaram megacompras como a CPFL Energia em 2017, os ativos da Duke Energy no Brasil em 2016 e 90% do Terminal de Contêineres de Paranaguá na mesma época, hoje o movimento é outro. Transações menores, projetos greenfield e cadeias de valor completas transformaram a ocupação visível dos gigantes estatais em um avanço silencioso e pulverizado de empresas chinesas por vários setores da economia.
Do choque das megacompras à ocupação silenciosa
No primeiro ciclo, o Brasil se acostumou a ver empresas chinesas desembarcarem por meio de grandes fusões e aquisições, sobretudo em energia elétrica. Em 2017, a State Grid desembolsou R$ 14,2 bilhões pela CPFL Energia; em 2016, a China Three Gorges comprou os ativos da Duke Energy no País por R$ 3,1 bilhões; e a China Merchants Ports Holding levou 90% do terminal de contêineres de Paranaguá por R$ 2,9 bilhões.
-
Enquanto bancos veem risco de calote e dificuldade para recuperar motos financiadas, governo Lula estuda usar fundo garantidor para destravar crédito aos entregadores; medida pode alcançar até 1,2 milhão de trabalhadores vinculados a plataformas digitais
-
SpaceX define ação a US$ 135 e mira IPO histórico de US$ 75 bilhões para estrear na Nasdaq com valor de mercado trilionário
-
Enquanto o mundo corre para minerar o lítio do Congo e do Chile, o Brasil senta sobre uma das maiores reservas e mal começou a explorar
-
Herdeiro trabalhou aos treze anos em fábrica de sorvete sem revelar ser filho do dono; hoje, aos vinte e cinco, lidera a marca de sorvete para consumo doméstico mais vendida do Nordeste, fatura quase R$ 300 milhões, tem 145 lojas e enfrenta multinacionais com sabores regionais
Essas operações marcaram a fase em que gigantes estatais assumiram posição em ativos estratégicos de energia e logística, incluindo a usina eólica Formosa, da CPFL Renováveis, que concentra o maior investimento da State Grid fora da China.
Foi o período em que o Brasil deixou de ser apenas destino de títulos da dívida americana e passou a integrar a estratégia de internacionalização produtiva do capital chinês.
Greenfield explode e encolhe o tíquete médio dos projetos
A partir de 2021, o perfil mudou com força. Segundo estudo da Araújo Fontes, as fusões e aquisições perderam peso relativo enquanto os investimentos em novos projetos greenfield dispararam. Em 2021, cerca de metade dos recursos já se destinava a projetos iniciados do zero; em 2023, essa fatia alcançou aproximadamente 90%.
O tamanho médio dos cheques confirma a virada. Entre 2010 e 2014, cada projeto de investimento de empresas chinesas no Brasil girava em torno de US$ 507 milhões. De 2015 a 2019, o valor médio caiu para US$ 313 milhões.
De 2020 até 2024, o tíquete médio recuou novamente, para cerca de US$ 112 milhões por projeto. Menos megaoperações isoladas e muito mais entradas em série, desenhando uma malha densa de capital chinês em diferentes regiões e atividades.
Energia, petróleo e novos setores na mira das empresas chinesas
Entre 2007 e 2023, 45% dos US$ 73 bilhões investidos por empresas chinesas no Brasil foram direcionados à energia elétrica, 30% à extração de petróleo, e o restante se dividiu entre manufatura industrial, mineração, infraestrutura, agricultura e outros segmentos.
O país se consolidou como principal destino dos aportes chineses na América Latina entre 2008 e 2017, funcionando como hub regional.
No plano global, os investimentos externos da China saltaram de US$ 24,8 bilhões em 2007 para o pico de US$ 170,1 bilhões em 2016, mantendo-se desde então acima de US$ 110 bilhões por ano, com mais de 60% dos recursos pulverizados entre vários países.
Dentro desse movimento, o Brasil se destaca como vitrine onde empresas chinesas testam modelos de negócios, ajustam tecnologia e, a partir daqui, miram outros mercados latino-americanos.
Fábricas, serviços de engenharia e crédito formam a cadeia de valor
A nova fase não se limita ao controle de ativos prontos. Empresas chinesas passaram a trazer consigo uma cadeia de fornecedores de engenharia, equipamentos e serviços, amarrada a linhas de crédito de bancos chineses.
Um exemplo é a compra da Concremat pela China Communications Construction Company, que transformou a empresa brasileira em plataforma de engenharia da gigante asiática no Brasil e na América Latina.
Com essa base, a CCCC ingressou em grandes obras de infraestrutura, como a ponte Salvador Itaparica e projetos ferroviários, e ainda adquiriu participação na portuguesa Mota Engil, vencedora do leilão do túnel Santos Guarujá.
Cada grande contrato puxa um conjunto de construtoras, projetistas, fabricantes de peças e prestadores de serviços com capital chinês, ampliando o controle sobre etapas cruciais da infraestrutura brasileira.
Trens, mobilidade e indústria automotiva sob capital chinês
Na mobilidade, o avanço também é nítido. A CRRC, em sociedade com o grupo brasileiro Comporte, venceu o leilão do Trem Intercidades entre São Paulo e Campinas e assumirá a operação da linha 7 de trem metropolitano.
Como parte da lógica de cadeia de produção, a CRRC está construindo uma fábrica de trens em Araraquara, interior de São Paulo.
No setor automotivo, o Brasil já abriga cerca de 15 montadoras de empresas chinesas, em sua maioria focadas em carros elétricos e híbridos.
A Great Wall Motors ocupa a antiga planta da Mercedes Benz em Iracemápolis, e a BYD assumiu a fábrica que foi da Ford em Camaçari, na Bahia.
Ao reutilizar ativos industriais de grupos americanos e europeus, empresas chinesas ocupam rapidamente capacidade produtiva existente e se posicionam como protagonistas da transição para veículos de baixa emissão.
Softpower, reinvestimento de lucros e disputa com os Estados Unidos
Esse avanço econômico vem acompanhado de uma estratégia de softpower. A imagem das empresas chinesas como promotoras da transição energética é reforçada pela produção de equipamentos elétricos, que abastece tanto concessões de usinas e transmissoras quanto o nascente mercado de carros elétricos.
Ao integrar infraestrutura de exportação, energia limpa e mobilidade, a China conecta interesses empresariais à diplomacia de longo prazo.
Há também a disputa geopolítica com os Estados Unidos. O tarifaço aplicado por Donald Trump atingiu empresas americanas presentes no Brasil e abriu espaço adicional para movimentos chineses, como a compra da fábrica da Ford em Camaçari pela BYD ou a aquisição das operações da Duke Energy pela China Three Gorges.
Ao mesmo tempo, muitas empresas chinesas têm optado por reinvestir os dividendos gerados no Brasil, em vez de remetê-los à matriz, ganhando escala e influência para participar da negociação de políticas públicas.
Crise do curtailment e os próximos alvos: baterias e hidrogênio verde
A conjuntura do setor elétrico cria novas oportunidades. A crise do curtailment, em que o corte compulsório de geração afeta a rentabilidade de projetos, leva empresas de outros países a rever planos de investimento no Brasil, sob pressão de acionistas.
É justamente nesse cenário de incerteza que empresas chinesas tendem a avançar, comprando ativos, assumindo riscos e reforçando sua presença em infraestrutura energética.
Os próximos passos já estão desenhados: é esperada participação de empresas chinesas no leilão de baterias que a Aneel deve realizar ainda este mês, além de forte presença em projetos de hidrogênio verde associados à transição energética.
Para Pequim, trata se de uma agenda de Estado, conduzida com horizonte de 50 anos. Para o Brasil, o resultado é um redesenho silencioso e profundo de cadeias produtivas, empregos qualificados e controle de ativos estratégicos.
Você acha que o avanço das empresas chinesas no Brasil fortalece o desenvolvimento do país ou aumenta a dependência de capital e tecnologia estrangeiros?

Como cidadão acho um perigo, no Brasil tudo bem, mas é necessário um controle do governo para o acompanhamento desses investimentos. Áreas vulnerável ao país não devem ser bem controladas. Só falta elas entrar no projeto de terras raras.