Nos anos 1980, empresas alemãs levaram know-how aos chineses em joint ventures para fabricar carros. Décadas depois, o aluno virou mestre: a China lança automóveis tão bons quanto os alemães e inunda o mundo com sua produção, num choque chinês que pressiona a indústria alemã e expõe a complacência de Berlim.
Há cerca de quarenta anos, empresas alemãs desembarcaram na China e ensinaram os chineses a fabricar carros em joint ventures, confiantes de que ninguém alcançaria a engenharia alemã. O tempo virou o jogo: hoje a Alemanha admite ter subestimado a China, que lança automóveis tão bons quanto os alemães e inunda o mundo com sua produção.
O recado mais duro veio de um estudo recente, “O choque chinês 2.0″, dos economistas Sander Tordoir e Brad Setser, que aponta a indústria alemã como a maior vítima do novo avanço chinês. A análise saiu poucos dias antes de a ministra alemã da Economia, Katherina Reiche, voltar de uma viagem à China sem resultados concretos, num sinal do tamanho do desafio.
De pupilo a mestre: como os chineses ultrapassaram a Alemanha

Tudo começou de forma amistosa. No início dos anos 1980, empresas alemãs foram levadas à China e tiveram de montar joint ventures com parceiras locais, sobretudo no setor automotivo, para acessar o mercado asiático. Em troca, transferiram seu conhecimento. Segundo o consultor Manuel Vermeer, que assessora empresas alemãs no país há quatro décadas, os chineses observaram, ouviram com atenção e aprenderam, até ultrapassar os alemães justamente onde estes se julgavam imbatíveis.
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A cópia, às vezes, era escancarada. Vermeer lembra o caso da Brilliance, parceira chinesa da BMW, em uma planta em Shenyang: de um lado da linha montava-se o BMW; do outro, o modelo da própria Brilliance. Com a Volkswagen, diz ele, não foi diferente. O resultado é que os carros chineses de hoje não são apenas baratos, mas bons o suficiente para competir de igual para igual, algo que, segundo o consultor, quase ninguém na Alemanha imaginava possível no setor.
A visão de longo prazo dos chineses

Foto: Jochen Tack/picture alliance
A virada não foi acaso, e sim planejamento. Há cerca de vinte anos, planos quinquenais já apontavam a aposta dos chineses na mobilidade elétrica, mas, segundo Vermeer, os alemães não levaram a sério ou simplesmente não leram esses documentos. Programas como o “Made in China 2025”, de 2015, e a política de “dupla circulação”, adotada por Xi Jinping a partir de 2020, deixaram clara a estratégia: depender menos das importações enquanto o mundo se torna cada vez mais dependente do que é fabricado na China.
O plano quinquenal de 2026 a 2030 reforça o rumo, com o país asiático apostando em computação quântica, inteligência artificial, robótica humanoide e interfaces cérebro-máquina. A direção é a de menos dependência do Ocidente e mais controle sobre as cadeias globais de abastecimento. Para a indústria alemã, acostumada a liderar em engenharia, perceber que os chineses jogavam um jogo de longo prazo foi um choque tardio.
O choque chinês 2.0 e a complacência alemã
No estudo “O choque chinês 2.0: o custo da complacência alemã”, Tordoir, do Centre for European Reform, e Setser, do Council on Foreign Relations, sustentam que em nenhum lugar o novo avanço industrial chinês foi tão duro quanto na Alemanha. Eles lembram que o “primeiro choque chinês“, nos anos 2000, castigou sobretudo os Estados Unidos e até beneficiou os alemães por um tempo. Agora, a conta chegou para Berlim.
Os números ajudam a entender o alarme. Segundo análises ligadas ao estudo, as exportações alemãs para a China caíram cerca de 40% desde 2021, com impacto de vários pontos no PIB e centenas de milhares de empregos industriais afetados. O superávit comercial chinês hoje supera de longe o alemão, sustentado por subsídios industriais bilionários. Como resumem os autores, a China já devorou boa parte do almoço da indústria alemã e se prepara para comer o jantar, enquanto Berlim continua hesitante.
Dependência, terras raras e a viagem sem resultados de Reiche
Segundo informações do portal DW, a dependência torna tudo mais delicado. A Europa ainda precisa dos chineses em áreas sensíveis, como terras raras, insumos farmacêuticos e componentes eletrônicos, o que reduz seu poder de reação. Foi nesse cenário que a ministra Katherina Reiche desembarcou em Pequim no fim de maio, acompanhada de executivos de peso, e se reuniu com o ministro do Comércio, Wang Wentao, e o vice-premiê He Lifeng, mas voltou sem resultados concretos.
Os economistas defendem medidas mais duras, como tarifas em setores estratégicos, preferência por produtos europeus e regras mais rígidas para empresas chinesas que queiram produzir na Europa, inclusive exigências de joint ventures nos moldes do que a própria China fez.
A Alemanha, porém, hesita, com medo de retaliação e por causa dos laços econômicos profundos. O estudo alerta que, se a China caminhar para cerca de 40% da produção industrial global até 2030, a dependência alemã afetará até a capacidade europeia de se rearmar e apoiar a Ucrânia, e que quanto mais Berlim demorar, mais dura terá de ser a resposta. A história da Alemanha com os chineses é um aviso e tanto: ensinar a fazer carros virou ver o aluno dominar o mercado.
Conte nos comentários se você acha que a indústria alemã ainda tem como reagir ao choque chinês ou se a era de ouro da engenharia europeia ficou para trás. E mais: você compraria um carro chinês hoje?


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