A ideia é trocar o calcário, que é quase metade gás carbônico, por rochas vulcânicas como o basalto, que liberam pouco carbono ao serem aquecidas. Na teoria, o ganho é enorme: menos energia e até 80% menos emissões. Na prática, porém, virar uma indústria centenária de cabeça para baixo é o grande obstáculo.
Depois de décadas caçando um substituto para o ingrediente mais sujo do cimento, cientistas da Universidade da Califórnia afirmam ter encontrado uma alternativa promissora no basalto, rocha vulcânica quase inesgotável. A descoberta, segundo os pesquisadores, pode ajudar a descarbonizar um dos setores mais poluentes do mundo e ainda baratear a produção, atacando um problema climático tão grande quanto o de todos os carros do planeta juntos.
O estudo foi liderado pelo geólogo Jeff Prancevic, da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, em parceria com Cody Finke, da empresa Brimstone Energy, e publicado em uma revista científica do grupo Nature. Vale um ajuste de expectativa logo de início: embora a imprensa tenha usado a expressão “Santo Graal”, trata-se de uma proposta teórica e de um chamado à indústria, com barreiras práticas enormes que os próprios autores reconhecem, e não de uma solução pronta para uso imediato.
Por que o cimento é tão poluente

A indústria do cimento responde por cerca de 4,4% das emissões globais de gases de efeito estufa, um volume comparável ao de todos os carros de passeio do mundo somados, ainda que quase ninguém associe o material às mudanças climáticas.
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O grande problema está no calcário, a rocha de onde se extrai o cálcio para fabricar o cimento Portland, o tipo mais usado no planeta. Para transformar o calcário em cal virgem, o ingrediente-chave da mistura, é preciso aquecê-lo a mais de 1.500 graus Celsius. O detalhe crucial é que o calcário é, quimicamente, quase metade gás carbônico, que é liberado direto na atmosfera durante esse processo, somando cerca de 500 quilos de CO₂ por tonelada de cimento, sem contar a energia gasta para aquecer os fornos.
A solução proposta: trocar a rocha

Em vez de buscar um substituto para o cimento em si, eles propõem trocar a rocha de onde se extrai o cálcio, usando rochas silicáticas ricas em cálcio, como o basalto e o gabro, no lugar do calcário. A vantagem é química: nessas rochas vulcânicas, o cálcio vem de silicatos, e não de carbonatos, ou seja, elas têm pouco carbono preso em sua estrutura.
Na prática, isso significa que aquecer o basalto para extrair o cálcio não libera aquela enorme quantidade de CO₂ que o calcário solta. E há um trunfo importante: o resultado final seria o mesmo cimento Portland que a construção civil já conhece e usa, sem exigir mudança nos métodos de obra. Isso diferencia a proposta de outros cimentos alternativos que nunca emplacaram porque exigiam adaptar toda a cadeia.
Os números que empolgam
Os ganhos calculados pelo estudo são expressivos, ainda que teóricos. Segundo os pesquisadores, fabricar cimento a partir desses silicatos poderia exigir menos de 60% da energia necessária para processar o calcário e reduzir em mais de 80% as emissões de CO₂ associadas a essa etapa da produção. Mesmo em cálculos mais conservadores, a redução passaria de 25%.
Há ainda um bônus interessante: o processamento dessas rochas pode gerar subprodutos valiosos ricos em ferro e alumínio, que poderiam abastecer outras indústrias, como a siderúrgica. Em tese, mais material seria aproveitado, reduzindo o desperdício e melhorando a eficiência geral da produção industrial. Tudo isso, segundo os autores, seria possível com tecnologias que já existem hoje, sem depender de invenções futuras.
O grande obstáculo: virar um transatlântico
Aqui está o ponto que impede a euforia, e que precisa ser dito com franqueza. A indústria do cimento se organizou ao longo de mais de um século em torno de gigantescos depósitos de calcário, e mudar para o basalto exigiria realocar fábricas ou criar novas cadeias de suprimento, o que aumentaria tempo e custos, num esforço comparável a fazer um transatlântico mudar de rumo da noite para o dia.
Além disso, as margens de lucro do setor são historicamente conservadoras, e adaptar as fábricas para processar o basalto e seus subprodutos exigiria um investimento inicial enorme. Os próprios autores do estudo admitem que é improvável que uma indústria estruturada em torno do cimento Portland tradicional mude suas práticas facilmente. Por isso, eles próprios classificam o trabalho como um chamado para que pesquisadores e empresas experimentem novas tecnologias, e não como uma virada garantida.
Uma rocha abundante e o caso brasileiro
Um dos argumentos mais fortes a favor da proposta é a disponibilidade da matéria-prima. O basalto é uma das rochas mais abundantes da crosta terrestre, com reservas capazes de sustentar o ritmo atual de construção por milhares de anos, o que afasta o risco de escassez que poderia inviabilizar a ideia no longo prazo.
Esse ponto tem relevância especial para o Brasil, que possui enormes reservas de basalto, sobretudo na região Sul e no Centro-Oeste, associadas às formações vulcânicas da Bacia do Paraná. Num país que é um grande consumidor de cimento e tem forte atividade de construção civil, a possibilidade de produzir um cimento de menor pegada de carbono a partir de uma rocha tão comum no território nacional é um tema que merece atenção, dentro do debate mais amplo sobre descarbonização da indústria pesada.
A pesquisa sobre o basalto como substituto do calcário no cimento é animadora e mira um dos maiores e mais ignorados problemas climáticos do mundo. A promessa de cortar drasticamente as emissões usando uma rocha abundante e mantendo o mesmo cimento de sempre é poderosa. Mas, como os próprios cientistas fazem questão de frisar, o caminho entre a teoria e a fábrica é longo e cheio de obstáculos econômicos e logísticos. Mais do que um Santo Graal pronto, o estudo é um convite para que a indústria e a ciência levem a sério a urgência de descarbonizar o cimento.
E você, sabia que o cimento polui tanto quanto todos os carros do mundo juntos? Acredita que a indústria vai topar trocar o calcário pelo basalto em nome do clima, ou o custo vai falar mais alto? Deixe seu comentário, conte sua opinião sobre a descarbonização da construção e compartilhe a matéria com quem se interessa por ciência, meio ambiente e inovação.

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