Em apenas três anos, os data centers do mundo dobraram seu consumo elétrico — e em 2026 vão queimar tanta eletricidade quanto o Japão inteiro só para sustentar a inteligência artificial e as criptomoedas que dominaram a internet
Os data centers de IA estão à beira de transformar o mapa energético do planeta. Segundo o relatório Electricity 2024 – Analysis and Forecast to 2026 da Agência Internacional de Energia (IEA), o consumo elétrico desses centros pode ultrapassar 1.000 terawatts-hora (TWh) em 2026 — equivalente ao consumo total da terceira maior economia do mundo, o Japão.
Em 2022, o número era 460 TWh, equivalente a 2% da demanda elétrica global. Para 2026, a IEA projeta cenário base entre 650 e 1.050 TWh, com a versão mais provável acima dos mil. Em outras palavras, o consumo praticamente dobra em apenas quatro anos.
O motor principal dessa explosão é a inteligência artificial. De fato, grandes modelos generativos — como ChatGPT, Gemini, Claude e Grok — exigem processadores gráficos (GPUs) operando 24 horas por dia, sete dias por semana. Em comparação com a internet pré-IA, cada consulta feita por usuários comuns consome até 10 vezes mais energia do que uma busca tradicional no Google.
-
Agricultores trocaram diesel por painéis solares no Paquistão, ligaram bombas de irrigação quase sem custo, ampliaram lavouras de arroz e agora a água subterrânea virou alerta vermelho no campo
-
Trabalhadores migrantes largaram o maior parque de energia renovável do mundo na Índia após calor extremo, jornadas de 12 horas, salários atrasados e alojamentos precários em uma obra que ainda promete abastecer 18 milhões de casas
-
Pescadores de Taiwan aceitaram turbinas eólicas no mar em nome da energia limpa, mas agora dizem que rotas antigas sumiram, o peixe diminuiu e a renda virou incerteza na costa
-
Mansão sustentável no Colorado feita com mais de 1.500 pneus reciclados, barro, latas e garrafas tem 414 m², energia solar, sensores de chuva, estábulo com 23 baias e está à venda por US$ 1,3 milhão

O que diz o relatório da IEA — e por que ele preocupa
Conforme detalhado pela Agência Internacional de Energia, três fatores empurram a curva de consumo para cima: aumento de processamento por IA, necessidade crescente de resfriamento dos servidores e nova onda de mineração de criptomoedas.
Em paralelo, a IEA destaca que mesmo no cenário mais conservador, o crescimento será expressivo. Os data centers de IA e cripto somariam pelo menos 650 TWh em 2026 — comparável ao consumo elétrico anual da Suécia inteira.
De fato, no cenário base, os números são ainda mais alarmantes. O consumo previsto de mais de 1.000 TWh equivale a aproximadamente 4% de toda a eletricidade gerada no mundo em 2024. É como se os data centers de IA fossem um país do tamanho da Alemanha em capacidade instalada.
Por consequência, a IEA recomenda regulamentação atualizada e melhorias tecnológicas. “Updated regulations and technological improvements, including on efficiency, will be crucial to moderate the surge in energy consumption from data centers”, afirmam os autores do relatório.

Irlanda: o caso extremo onde os data centers já tomam 32% da eletricidade nacional
Para entender o tamanho do impacto, vale olhar para a Irlanda — o país onde os data centers de IA e nuvem mais avançaram em proporção. Em 2022, esses centros já consumiam 17% de toda a eletricidade do país. Para 2026, a projeção da IEA é que o número chegue a 32%.
Isso significa que praticamente um terço de toda a energia elétrica gerada na Irlanda em 2026 vai apenas para servidores. O país tem hoje 82 data centers operacionais, mais 14 em construção e outros 40 já aprovados pelo governo.
Em comparação, o tamanho do problema irlandês começou a gerar pressão social. Atualmente, novos pedidos de licença para data centers em Dublin vêm enfrentando resistência da população, que teme apagões e aumento de tarifas residenciais.
Estados Unidos: data centers respondem por 50% do crescimento elétrico até 2030
Nos Estados Unidos, a história é parecida — só que em escala muito maior. O país concentra hoje 33% de todos os data centers do planeta, com mais de 8.000 centros operacionais espalhados por estados como Virgínia, Texas, Califórnia e Iowa.
De acordo com a IEA, o consumo americano sairá de 200 TWh em 2022 para 260 TWh em 2026. Isso equivale a 6% de toda a demanda elétrica do país. E mais: até 2030, os data centers de IA serão responsáveis por metade de todo o crescimento de consumo elétrico americano, superando residências, indústria e transporte somados.
Por outro lado, esse cenário trouxe pressão política. Conforme reportou a Fortune, opinião pública americana virou negativa em relação à expansão dos data centers em vários estados, com receio de aumento de contas de luz e interrupção do fornecimento.
Em outras palavras, mesmo com megaprojetos como o Stargate avançando — recente cobertura do Click Petróleo e Gás mostrou que o complexo OpenAI-Oracle no Texas já mobiliza 6,4 mil operários e investe US$ 500 bilhões — a percepção pública sobre data centers nos EUA já não é mais unicamente positiva.

A coroação da IA: como os data centers de IA viraram fome de 10x mais energia
O grande catalisador da virada é a IA generativa. Antes de 2023, a previsão era que os data centers de IA crescessem gradualmente, em linha com o histórico do setor. Mas o lançamento do ChatGPT no fim de 2022 mudou totalmente o cenário.
Para entender, em 2023 cada busca tradicional no Google consumia cerca de 0,3 watt-hora. Já uma consulta com IA generativa pode consumir até 3 watts-hora — dez vezes mais. Multiplique isso por bilhões de buscas diárias e a equação fica clara.
De fato, conforme o relatório IEA, a demanda elétrica para IA pode crescer 10 vezes em três anos. Esse salto exponencial está obrigando empresas como Microsoft, Amazon, Google e Meta a buscar fontes próprias de energia firme — geotermia, nuclear pequeno modular e até reabertura de usinas a carvão.
Em paralelo, a aposta vai além. Como mostrou matéria recente do Click Petróleo e Gás, Sam Altman, CEO da OpenAI, investiu centenas de milhões em fusão nuclear via Helion Energy — porque sabe que sem energia firme em escala, a IA não vai conseguir avançar.
As criptomoedas também pesam — embora menos do que a IA
Além da inteligência artificial, há outro ofensor. As criptomoedas consumiram 110 TWh em 2022 globalmente — equivalente a um terço do consumo da Argentina inteira. Para 2026, a projeção é que esse número suba para 160 TWh, alta de 40%.
O Bitcoin sozinho responde pela maior parte. De acordo com a IEA, cada nova hash function executada por mineradores pelo mundo afora é, em essência, conversão de eletricidade em moeda digital. Em países onde a energia é barata — como Texas, Cazaquistão, Paraguai e Etiópia — fazendas de mineração competem com hospitais e fábricas pelo fornecimento.
Em comparação, os data centers de IA consomem mais — mas as criptomoedas têm impacto regional concentrado. Em estados como o Texas, picos de mineração já geraram blackouts em 2022 e 2023, levando o operador de rede ERCOT a impor cortes voluntários a algumas instalações.
No Brasil, a chegada dos data centers começa a pressionar a rede
O Brasil ainda não está no centro do furacão, mas já sente os primeiros tremores. Em paralelo, empresas globais — incluindo Amazon AWS, Microsoft Azure e Google Cloud — estão expandindo agressivamente data centers no estado de São Paulo, principalmente nas regiões de Vinhedo, Hortolândia e Tamboré.
Por outro lado, o sistema elétrico brasileiro vive paradoxo curioso. Como reportou recentemente o Click Petróleo e Gás, o país tem solar sobrando ao meio-dia e a ANEEL estuda cortar até parte da geração — exatamente porque não há armazenamento suficiente.
Em paralelo, o consumo dos data centers brasileiros é constante 24 horas por dia — exatamente o tipo de demanda que casa perfeitamente com a sobra de geração solar diurna, desde que existam baterias industriais para armazenar e devolver à noite.
- 460 TWh — consumo global de data centers em 2022
- >1.000 TWh — projeção IEA para 2026 (cenário base)
- 650 TWh — cenário mais conservador (= Suécia)
- 1.050 TWh — cenário mais alto (= Alemanha)
- 10x — crescimento previsto da demanda por IA até 2026
- 32% — fatia da eletricidade da Irlanda destinada a data centers em 2026
- 50% — participação dos data centers no crescimento elétrico americano até 2030
- 160 TWh — projeção de consumo cripto em 2026
As opções de energia firme para abastecer os data centers de IA
Para sustentar o crescimento, as empresas de tecnologia estão diversificando radicalmente suas fontes. A primeira aposta é a geotermia — startups como a Fervo Energy já fecharam contratos para abastecer servidores do Google em Nevada com energia firme 24/7.
Em paralelo, há a aposta em nuclear pequeno modular (SMR). A Microsoft fechou contrato exclusivo para reabrir reator nuclear em Three Mile Island, marco simbólico considerando a história do site. Amazon e Meta também estudam parcerias semelhantes.
Por outro lado, baterias industriais começam a surgir como opção complementar. O Tesla Megapack, recentemente coberto pelo Click Petróleo e Gás, já é tecnologia central na infraestrutura de data centers em vários estados americanos.
De fato, em paralelo a essa frenética busca por energia firme, há também aposta em renováveis novas. Como mostrou matéria recente do Click Petróleo e Gás, solar e eólica acabam de ultrapassar carvão e gás em capacidade instalada global — sinal de que a transição não vai parar mesmo com a explosão de IA.
Ressalvas: a curva pode ser ainda mais íngreme
Apesar das projeções já intimidantes, vale o alerta: os números podem subestimar o problema. Em janeiro de 2025, a IEA atualizou seus modelos e projetou agora consumo de até 1.637 TWh em 2030 no cenário mais otimista de adoção de IA — quase 60% acima do limite previsto para 2026.
Por consequência, a chamada “IA agentic” — agentes autônomos que executam tarefas complexas — pode triplicar o consumo de eletricidade dos data centers existentes hoje. Se essa tecnologia se popularizar até 2027, todas as projeções atuais ficam obsoletas.
Por outro lado, há também ganhos de eficiência possíveis. Chips especializados em IA, como os TPUs do Google e os GPUs Blackwell da Nvidia, prometem entregar desempenho equivalente com fração da energia atual. Empresas como a Xiaomi também avançaram recentemente em chips de baixo consumo.
Por fim, a pergunta que fica é incômoda. Se os data centers de IA vão consumir tanta energia quanto o Japão em 2026 e potencialmente o triplo até 2030, quem vai pagar a conta? Os bilhões de usuários que clicam grátis no ChatGPT? As companhias que cobram US$ 20 por mês? Ou os países que terão de construir usinas inteiras só para sustentar essa nova economia? E o Brasil, que tem energia limpa e sobrando ao meio-dia, vai conseguir capturar essa onda antes que outros países dominem o jogo?

-
-
2 pessoas reagiram a isso.