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Microsoft afundou 855 computadores em cápsula com gás nitrogênio a 35 metros no fundo do mar da Escócia, deixou dois anos sem manutenção e registrou oito vezes menos falhas que em terra

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 04/07/2026 às 13:42 Atualizado em 04/07/2026 às 13:45
Projeto Natick: Microsoft pôs computadores em cápsula com gás nitrogênio no fundo do mar; o data center subaquático teve 8x menos falhas, mas foi abandonado.
Projeto Natick: Microsoft pôs computadores em cápsula com gás nitrogênio no fundo do mar; o data center subaquático teve 8x menos falhas, mas foi abandonado.
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Batizado de Projeto Natick, o experimento manteve os computadores em cápsula funcionando sozinhos no fundo do mar por dois anos, sem ninguém para trocar uma peça sequer. O data center subaquático voltou à superfície com números que superaram com folga os servidores de terra firme, e mesmo assim a Microsoft arquivou tudo.

Parece roteiro de ficção científica, mas aconteceu de verdade. Em 2018, a Microsoft trancou 855 computadores em cápsula de aço, encheu o cilindro com gás nitrogênio e mandou tudo para o fundo do mar, a cerca de 35 metros de profundidade na costa das Ilhas Orkney, na Escócia. Os equipamentos ficaram ligados por dois anos seguidos, sem que nenhuma mão humana encostasse neles, num teste que a própria Microsoft detalhou em seu site oficial e que entrou para a lista dos experimentos de infraestrutura mais ousados da história da computação.

O nome do projeto era Natick, e a pergunta por trás dele era direta: dá para rodar servidores no fundo do oceano, longe de qualquer manutenção, e ainda ter confiabilidade? Quando a cápsula voltou à tona, em 2020, a resposta pegou até os engenheiros de surpresa. Os computadores submersos falharam oito vezes menos que os equipamentos idênticos deixados em terra. E aí veio o capítulo mais estranho da história: mesmo com um resultado tão bom, a Microsoft decidiu engavetar de vez a aposta no data center subaquático.

Como a Microsoft colocou um data center inteiro no fundo do mar

Cápsula com centenas de servidores foi instalada a mais de 35 metros de profundidade no mar. (Foto: Reprodução, Microsoft)
Cápsula com centenas de servidores foi instalada a mais de 35 metros de profundidade no mar. (Foto: Reprodução, Microsoft)

A ideia não nasceu de um dia para o outro. Ela começou em 2013, quando o pesquisador Sean James, que tinha servido como submarinista na Marinha dos Estados Unidos, escreveu um artigo interno defendendo que servidores poderiam viver debaixo d’água.

A empresa comprou a tese e, em 2014, montou uma equipe sob o comando do engenheiro Ben Cutler para transformar o papel em metal. O primeiro teste veio em 2015, com um único rack de servidores selado num tubo e afundado em águas rasas na costa da Califórnia. Rodou por cerca de três meses sem problema, o suficiente para provar que a loucura tinha pé.

A cápsula foi colocada a menos de 50 m de profundidade no mar das Ilhas Orkney, na Escócia. (Foto: Reprodução, Microsoft)
A cápsula foi colocada a menos de 50 m de profundidade no mar das Ilhas Orkney, na Escócia. (Foto: Reprodução, Microsoft)

O teste de verdade foi o segundo capítulo do Projeto Natick, apelidado de Northern Isles. Era um cilindro de aço de doze metros de comprimento, do tamanho de um pequeno submarino, recheado com 855 servidores e 27,6 petabytes de armazenamento.

Em 2018, a Microsoft amarrou o tubo a cabos de energia e fibra óptica e o depositou no leito marinho das Ilhas Orkney, a 117 pés de profundidade, o equivalente a uns 35 metros. A partir dali, os computadores em cápsula passaram a processar tarefas da nuvem Azure completamente sozinhos, no escuro e no frio do fundo do mar.

Um detalhe pouco lembrado é que aqueles não eram servidores novos de fábrica. Segundo o relato dos engenheiros da Microsoft, a equipe pegou um lote de quase mil máquinas já aposentadas de um data center comum, dividiu o grupo em dois e mandou 855 para o fundo do mar enquanto deixava 135 rodando em terra, com a mesma carga de trabalho. Era uma disputa direta, máquina velha contra máquina velha, para ver qual ambiente aguentava melhor o tranco.

Por que encher tudo de gás nitrogênio em vez de ar comum?

Os contêineres foram refrigerados com nitrogênio na cápsula, o que só é viável em ambientes sem humanos. (Foto: Reprodução, Microsoft)
Os contêineres foram refrigerados com nitrogênio na cápsula, o que só é viável em ambientes sem humanos. (Foto: Reprodução, Microsoft)

Aqui está uma das sacadas centrais do Projeto Natick. O ar que a gente respira tem cerca de 21% de oxigênio, e o oxigênio é um encrenqueiro: ele reage com metais e componentes, gera corrosão e ferrugem, e vai comendo a eletrônica aos poucos. A solução da Microsoft foi tirar o oxigênio da jogada. O cilindro foi preenchido com gás nitrogênio, que é inerte e muito menos corrosivo, criando lá dentro uma atmosfera de gás nitrogênio que praticamente não enferruja nada.

Esse gás resolveu um problema e criou outro, de propósito. Com o tubo lacrado e cheio de gás nitrogênio, ninguém podia abrir para consertar nada, o que forçava o sistema a se virar sozinho. E foi justamente essa combinação que os pesquisadores apontaram como a chave do bom resultado. Ben Cutler, líder do projeto, atribuiu a alta confiabilidade a dois fatores principais: a ausência de oxigênio dentro da cápsula e a ausência de gente circulando para esbarrar em cabos e chacoalhar peças durante manutenções. Sem oxigênio e sem mão humana, os computadores em cápsula simplesmente foram deixados em paz.

Teve ainda um cuidado extra que mostra o tamanho do rigor. A equipe controlou a umidade lá dentro, mirando algo em torno de 30%, parecido com um ambiente de terra, para evitar tanto a corrosão quanto os choques de eletricidade estática. E como um cabo longo ligando o fundo do mar à costa poderia virar porta de entrada para espiões, o tráfego de dados foi protegido com criptografia resistente a computadores quânticos. Ou seja, aquele data center subaquático também serviu de laboratório para testar tecnologias que nada tinham a ver com água.

O resfriamento que a natureza entrega de graça

O tubo contém 12,19 metros de comprimento, o mesmo tamanho de um conteiner comercial. (Foto: Reprodução, Microsoft)
O tubo contém 12,19 metros de comprimento, o mesmo tamanho de um conteiner comercial. (Foto: Reprodução, Microsoft)

Se tem uma conta que tira o sono de quem opera data center, é a do resfriamento. Servidor esquenta muito, e manter tudo numa temperatura segura consome energia e água potável em quantidades absurdas. No fundo do mar, esse problema quase evapora. A água gelada do oceano funciona como um radiador natural e constante, resfriando as máquinas sem que seja preciso gastar rios de energia para climatizar o ambiente.

Na prática, a Microsoft puxava a própria água do mar para dentro de trocadores de calor e a devolvia ao oceano logo em seguida, sem tocar em uma gota de água potável. O resultado foi uma eficiência energética de dar inveja, com um índice de aproveitamento de energia de apenas 1,07, número que pouquíssimos data centers de terra alcançam. Cutler chegou a comentar que o modelo permitiria instalar servidores em praticamente qualquer mar do planeta, sem disputar água doce com cidades e lavouras em regiões que já sofrem com seca.

E o impacto ambiental? Menor do que muita gente imaginaria. De acordo com o relato do projeto, a água devolvida ao mar saía só uma fração de grau mais quente que a água ao redor, diferença que sumia poucos metros adiante. O cilindro ainda virou uma espécie de recife artificial, coberto de anêmonas e cracas quando foi retirado, e o trecho de leito marinho onde ele ficou voltou ao normal depois. Como bônus, toda a energia usada vinha da rede das Ilhas Orkney, abastecida 100% por fontes renováveis como vento e ondas.

O que os números revelaram quando a cápsula voltou à tona

Chegou o momento da verdade num dia cinzento de julho de 2020, quando um guindaste ergueu o cilindro coberto de cracas de volta à superfície. A conta final foi surpreendente. Dos 855 computadores em cápsula que passaram dois anos e oito dias no fundo do mar, apenas seis falharam. Do outro lado da disputa, entre os 135 servidores idênticos que ficaram em terra, oito quebraram no mesmo período. Traduzindo em percentual, deu 0,7% de falha embaixo d’água contra 5,9% na superfície, o tal índice oito vezes menor que virou manchete no mundo todo.

Vale um pé atrás honesto, e o próprio Cutler fez questão de registrá-lo: esses números vêm de máquinas usadas e sem manutenção, num arranjo específico, então não dá para simplesmente transferi-los para qualquer data center comum. Ainda assim, a mensagem era clara. Um ambiente selado, frio e sem gente por perto tende a estender a vida do equipamento. Durante a operação, o data center subaquático rodou tarefas internas da nuvem Azure, nunca dados de clientes, e chegou a doar capacidade ociosa para o projeto Folding@home, que estudava a estrutura de proteínas do coronavírus no auge da pandemia.

Havia também uma vantagem logística que a Microsoft fez questão de destacar. Enquanto construir um data center em terra pode levar até dois anos, uma dessas cápsulas poderia ser fabricada e instalada em cerca de 90 dias, da decisão até ligar a chave. Somando confiabilidade, eficiência e velocidade de montagem, o Projeto Natick parecia ter todos os ingredientes de um vencedor.

Então por que a Microsoft desistiu do data center subaquático?

Essa é a pergunta que fica no ar, e a resposta só veio anos depois. Em 2024, a Microsoft confirmou ao portal especializado Data Center Dynamics que não pretende mais colocar servidores no mar. “Não estou construindo data centers subaquáticos em nenhum lugar do mundo”, disse Noelle Walsh, que chefia a divisão de operações e inovação em nuvem da empresa. Depois de alguns anos de silêncio, durante os quais muita gente supôs que o projeto seguia ativo, a companhia enfim admitiu que a página estava virada.

Walsh fez questão de dizer que não foi fracasso. Segundo ela, a equipe trabalhou no projeto, ele funcionou, e o aprendizado sobre operar servidores debaixo d’água, lidar com vibração e entender o desgaste das peças será aproveitado em outras frentes. Em comunicado, a Microsoft afirmou que o Projeto Natick continuará existindo como plataforma de pesquisa para testar conceitos de confiabilidade e sustentabilidade, com destaque para o resfriamento por imersão em líquido, uma técnica que, no lugar do gás nitrogênio, molha os componentes em fluidos que não conduzem eletricidade. A mesma executiva citou ainda o interesse em robótica, já que os novos servidores estão cada vez mais pesados e difíceis de manusear.

Nos bastidores, a leitura do mercado é que o data center subaquático esbarrou em limites práticos e operacionais, além de chegar num momento em que a empresa redirecionou energia e dinheiro para a corrida da inteligência artificial. Consertar qualquer coisa no fundo do mar é caro e complicado, e escalar a operação para o tamanho que a nuvem moderna exige traz uma montanha de desafios de manutenção que o piloto simpático das Ilhas Orkney não precisou enfrentar.

A ideia não afundou de vez junto com o Projeto Natick

Que a Microsoft tenha saído do jogo não significa que a corrida acabou. Do outro lado do mundo, a China avançou na mesma direção, e a empresa Highlander chegou a instalar um data center subaquático comercial de mais de 1.400 toneladas perto da ilha de Hainan. O conceito que os computadores em cápsula ajudaram a validar segue vivo, agora nas mãos de outros.

E tem um detalhe de timing que torna tudo ainda mais irônico. Justamente agora, com a explosão da inteligência artificial pressionando a rede elétrica e disparando a fome por data centers, a ideia de jogar servidores no fundo do mar para economizar energia e água voltou a soar menos maluca e mais estratégica. Startups têm levantado centenas de milhões de dólares para levar a computação pesada ao oceano. A Microsoft abriu a trilha, provou que a coisa funciona, e depois saiu de cena bem na hora em que o mundo talvez mais precise de infraestrutura digital eficiente.

Um vencedor que preferiu guardar o troféu na gaveta

No fim, o Projeto Natick é uma daquelas histórias que misturam ousadia, engenharia de ponta e uma pitada de mistério corporativo. A Microsoft afundou 855 computadores em cápsula, encheu tudo de gás nitrogênio, deixou dois anos sem tocar e provou que o fundo do mar pode ser um lar melhor para servidores do que a terra firme. E mesmo com o resultado na mão, preferiu guardar a ideia na gaveta e apostar as fichas em outro lugar. Fica a impressão de um vencedor que desistiu no meio da subida, deixando para trás uma pergunta que ainda incomoda a indústria.

E você, o que acha dessa escolha? A Microsoft jogou fora uma tecnologia promissora ao abandonar o data center subaquático, ou foi uma decisão sensata diante dos custos de manter servidores no fundo do mar? Conta aqui nos comentários se você confiaria seus dados a uma cápsula lacrada no oceano e se acredita que os data centers submarinos vão voltar com força na era da inteligência artificial.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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