Batizado de Dasosaurus tocantinensis, o titanossauro de 20 metros e fêmur de 1,5 metro foi encontrado por acaso em 2021 durante obras rodoferroviárias em Davinópolis — e a análise revelou parentesco com espécie espanhola, provando que dinossauros cruzaram entre continentes há 120 milhões de anos
Operários encontraram um osso de 1,5 metro durante obras de um terminal rodoferroviário no interior do Maranhão. Chamaram paleontólogos. Dias de escavação depois, a equipe descobriu que se tratava do fêmur de um dinossauro gigante de aproximadamente 20 metros de comprimento que viveu há 120 milhões de anos.
O animal foi batizado de Dasosaurus tocantinensis e descrito em estudo publicado em março de 2026 no Journal of Systematic Palaeontology. A pesquisa, liderada pelo paleontólogo Elver Mayer da Univasf, revelou que o dinossauro brasileiro é parente próximo de uma espécie encontrada na Espanha — evidência de que gigantes herbívoros cruzaram entre continentes quando América do Sul e Europa ainda estavam conectados.
“Conforme a escavação progredia ao longo dos dias, começamos a ver evidências daquele enorme osso, que é o fêmur”, contou Leonardo Kerber, paleontólogo da UFSM, à CNN Brasil.
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Dasosaurus: o dinossauro da floresta do Maranhão
O nome Dasosaurus tocantinensis carrega a identidade do achado. “‘Dasosaurus’ quer dizer dinossauro da floresta, em referência à Amazônia Legal, da qual o Maranhão faz parte. ‘Tocantinensis’ como referência à região tocantina, onde foi encontrado”, explica Manuel Alfredo, professor e paleontólogo da UFMA, conforme o portal da UFMA.
O animal pertence ao grupo dos titanossauriformes, saurópodes herbívoros de pescoço longo que dominaram ecossistemas do Cretáceo. Com seus estimados 20 metros, é um dos maiores dinossauros já encontrados no Brasil.
Os fósseis estavam preservados na Formação Itapecuru, camada rochosa do Cretáceo Inferior datada do Aptiano (cerca de 120 milhões de anos atrás). Além do fêmur de 1,5 metro, a equipe recuperou vértebras da cauda, costelas, ossos do antebraço, pelve, tíbia, fíbula e ossos do pé.
- Nome: Dasosaurus tocantinensis (“dinossauro da floresta do Tocantins”)
- Tamanho estimado: ~20 metros de comprimento
- Fêmur: ~1,5 metro
- Idade: ~120 milhões de anos (Cretáceo Inferior, Aptiano)
- Local: Davinópolis, Maranhão, Formação Itapecuru
- Grupo: titanossauriformes (saurópodes herbívoros)
- Publicação: Journal of Systematic Palaeontology, março/2026

Uma descoberta acidental em canteiro de obras
O Dasosaurus não foi encontrado em expedição científica planejada. Os fósseis apareceram em 2021, durante monitoramento paleontológico de rotina em obras de um terminal rodoferroviário próximo a Davinópolis.
A legislação brasileira exige que grandes obras de infraestrutura realizem acompanhamento paleontológico durante escavações. Dessa forma, quando operários notaram estruturas ósseas no solo vermelho do Maranhão, a equipe científica já estava presente para avaliar.
A escavação durou dias. Conforme os pesquisadores removiam camadas de sedimento, o tamanho do fêmur se revelava impressionante. Kerber descreve o momento como progressivo: primeiro apareceu um fragmento, depois ficou evidente que se tratava de algo monumental.
O Maranhão já é conhecido por outros achados paleontológicos significativos. A descoberta recente de outra espécie de dinossauro na região reforça o potencial do estado como polo de paleontologia brasileira.

O primo espanhol que conecta Brasil e Europa
A surpresa maior veio da análise filogenética. O Dasosaurus tocantinensis é o parente mais próximo conhecido do Garumbatitan morellensis, uma espécie descrita na Espanha. As semelhanças aparecem em detalhes das vértebras da cauda e do fêmur.
Há 120 milhões de anos, América do Sul e Europa ainda mantinham rotas terrestres conectadas via África. Dinossauros herbívoros gigantes podiam migrar entre o que hoje é Maranhão e a Península Ibérica. A separação definitiva dos continentes só se completou milhões de anos depois.
Portanto, o Dasosaurus ocupa uma posição estratégica na árvore evolutiva: é uma forma intermediária entre titanossauros basais e os avançados que dominariam a América do Sul no final do Cretáceo. Três cristas nas vértebras da cauda e uma saliência no fêmur são as características únicas que o distinguem de todos os outros saurópodes conhecidos.
A conexão Brasil-Espanha via dinossauros não é totalmente inédita. A reportagem da Agência FAPESP detalha como padrões semelhantes de dispersão já foram observados em outros grupos de saurópodes gondwânicos.

A equipe brasileira por trás da pesquisa
O estudo foi liderado por Elver Mayer, da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). As contribuições incluem Leonardo Kerber, da UFSM, e Manuel Alfredo, da UFMA. A equipe reúne pesquisadores de múltiplas instituições brasileiras.
Além disso, a publicação no Journal of Systematic Palaeontology coloca a paleontologia maranhense em periódico internacional de alto impacto. Outros achados recentes, como o fóssil de espécie pré-histórica no interior do Brasil, mostram que o Nordeste guarda um acervo fóssil ainda subexplorado.

Ressalvas e limitações do estudo
A estimativa de 20 metros de comprimento baseia-se principalmente no fêmur de 1,5 metro e em comparações com parentes conhecidos. Essa projeção introduz margem de erro, já que não há esqueleto completo.
Os fósseis pertencem a um único indivíduo, o que limita inferências sobre variação dentro da espécie. A dieta é inferida como herbívora pelo grupo taxonômico, sem evidências diretas como conteúdo estomacal preservado.
As relações filogenéticas com o Garumbatitan espanhol dependem de características ósseas específicas. Novas descobertas podem alterar essa posição na árvore evolutiva. Ainda assim, a equipe considera o achado como uma das descobertas paleontológicas mais relevantes do Maranhão. Para mais detalhes, vale consultar a reportagem completa do G1 e a cobertura do Metrópoles.
