A PNAD Contínua do IBGE revela que a casa própria quitada caiu de 66,8% para 60,2% dos domicílios entre 2016 e 2025, enquanto os aluguéis saltaram de 18,4% para 23,8%, um aumento de 54,1%. Com a Selic a 15% ao ano, o crédito imobiliário ficou mais caro e muitas famílias migraram para o aluguel. Nas capitais, apartamentos já são maioria em Porto Alegre e quase metade em Vitória.
O sonho da casa própria está ficando cada vez mais distante para o brasileiro, e os números do IBGE não deixam margem para otimismo. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgada nesta sexta-feira (17), mostra que o Brasil ultrapassou 79 milhões de domicílios em 2025, mas o crescimento veio acompanhado de uma mudança profunda no perfil de ocupação: menos gente morando em casa própria quitada e muito mais gente pagando aluguel. A participação das moradias próprias quitadas caiu de 66,8% para 60,2% entre 2016 e 2025, enquanto os domicílios alugados saltaram de 18,4% para 23,8% no mesmo período, um aumento de 54,1% que representa 18,9 milhões de lares vivendo de aluguel.
A explicação passa pela economia. Com a taxa Selic a 15% ao ano em meados de 2025, o crédito imobiliário ficou significativamente mais caro, o que dificultou o acesso à casa própria para milhões de famílias que dependem de financiamento para comprar um imóvel. Muitas adiaram a compra, outras desistiram e migraram para o aluguel. O analista da PNAD Contínua, William Kratochwill, confirmou a tendência ao explicar que “o aumento de rendimento ao longo dos anos tem sido consistente, mas talvez não seja suficiente para que as pessoas tenham acesso ao sistema de habitação”. O resultado é um Brasil onde a casa própria se torna privilégio de quem já tem ou de quem consegue arcar com parcelas que competem com salários inteiros.
O avanço do aluguel que afasta o brasileiro da casa própria
Segundo informações do portal do G1, os números são claros: o Brasil tem hoje 18,9 milhões de domicílios alugados, contra 12,3 milhões em 2016. Esse crescimento de 54,1% em nove anos indica que uma parcela cada vez maior da população brasileira não consegue acessar a casa própria e está destinando uma parte significativa de sua renda mensal ao pagamento de aluguel, sem acumular patrimônio. A cada mês de aluguel pago, a família transfere riqueza para o proprietário do imóvel sem nada receber em troca além do direito temporário de moradia.
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O avanço do aluguel é ainda mais visível nas capitais. Palmas lidera com 47,3% dos domicílios alugados, quase metade do total, seguida por Florianópolis (36%), Goiânia (35,3%) e Brasília (34,5%). Nas grandes metrópoles, a tendência se confirma: em São Paulo, a proporção de domicílios alugados subiu de 26,4% para 29,9% entre 2016 e 2025. No Rio de Janeiro, foi de 20,3% para 28,2%. Em Belo Horizonte, de 19,5% para 29,6%. Mesmo em Belém, onde a casa própria era amplamente dominante, a proporção de aluguéis quase dobrou, passando de 11,1% para 21,2%.
Como a Selic a 15% torna a casa própria quase inalcançável
O financiamento imobiliário é o caminho mais comum para a compra da casa própria no Brasil, e quando a taxa básica de juros sobe, esse caminho se estreita drasticamente. Com a Selic a 15%, as taxas de juros do crédito imobiliário acompanham o movimento e encarecem as parcelas mensais, tornando inviável para muitas famílias assumir um compromisso de 20 ou 30 anos com valores que podem ultrapassar metade da renda domiciliar. O resultado é previsível: quem não consegue financiar, aluga.
Os dados da PNAD Contínua mostram que os imóveis próprios ainda em pagamento subiram 15,9% entre 2024 e 2025, indicando maior dependência do financiamento imobiliário. Paradoxalmente, o aumento da Selic torna o financiamento mais caro exatamente no momento em que mais famílias recorrem a ele, criando um ciclo em que a busca pela casa própria fica mais difícil quanto mais pessoas tentam acessá-la por meio de crédito. Para quem já tem um financiamento ativo, a alta dos juros significa parcelas maiores e prazos que se estendem, comprometendo a capacidade financeira por décadas.
A verticalização que está mudando o rosto das capitais brasileiras
Enquanto a casa própria se distancia, o perfil físico das moradias também muda. Porto Alegre já tem maioria de apartamentos, com 52,1% dos domicílios verticalizados em 2025, seguida por Vitória (49,9%) e Belo Horizonte (45,1%). Capitais que há poucos anos eram predominantemente horizontais estão passando por transformações aceleradas: João Pessoa saltou de 30% para 45,9% de apartamentos, Aracaju foi de 26,8% para 39,6% e Brasília de 26,7% para 38,5%.
A verticalização reflete a lógica do mercado imobiliário. “Colocam-se 20 ou 30 famílias em um terreno onde antes cabiam duas casas”, explicou o pesquisador Kratochwill, ilustrando como os edifícios permitem concentrar mais moradias em áreas urbanas onde o espaço é limitado e o metro quadrado é caro. Para as incorporadoras, edifícios oferecem maior rentabilidade do que construções horizontais, o que reforça a expansão desse modelo. No Brasil como um todo, a parcela de moradores em apartamentos subiu de 11,6% em 2016 para 15% em 2025.
A concentração de imóveis que afasta ainda mais a casa própria
Um dado que a PNAD Contínua revelou com preocupação é que o crescimento dos apartamentos está associado a uma concentração do patrimônio imobiliário. Muitos dos novos apartamentos construídos nas capitais não são ocupados pelos proprietários, mas destinados ao mercado de locação, o que significa que uma mesma pessoa pode ser dona de vários imóveis e alugá-los para famílias que não conseguem comprar os seus.
“Grande parte desses novos apartamentos pertence a alguém que não os utiliza como moradia e está alugando”, explicou Kratochwill, acrescentando que esse cenário indica que a riqueza associada à propriedade de imóveis acaba ficando “na mão de proporcionalmente menos pessoas”. Na prática, o mercado imobiliário está criando uma divisão crescente entre proprietários que acumulam imóveis e inquilinos que pagam aluguel sem perspectiva de se tornarem proprietários, tornando a casa própria um objetivo cada vez mais distante para quem começa do zero.
O que os dados significam para o futuro da moradia no Brasil
A tendência identificada pela PNAD Contínua não mostra sinais de reversão no curto prazo. Enquanto a Selic permanecer elevada, o crédito imobiliário continuará caro e a migração para o aluguel deve se manter, ampliando a proporção de domicílios alugados e reduzindo ainda mais a participação da casa própria quitada no total de moradias brasileiras. O programa Minha Casa, Minha Vida bateu recordes de lançamentos e vendas em 2025, mas atende principalmente famílias de renda mais baixa e não resolve o problema estrutural da classe média que ficou espremida entre rendimentos insuficientes e juros proibitivos.
Para milhões de brasileiros, a casa própria deixou de ser uma meta de curto prazo e se tornou um projeto de décadas, dependente de uma combinação de renda crescente, juros em queda e preços de imóveis que parem de subir mais rápido do que os salários. Os dados do IBGE são um retrato de um país onde morar ficou mais caro, mais vertical e mais dependente do aluguel do que em qualquer momento da história recente.
Dados do IBGE mostram que a casa própria está cada vez mais longe do brasileiro, com aluguéis disparando e Selic a 15%. Você conseguiu comprar sua casa ou está preso no aluguel? O que falta para o brasileiro ter acesso à moradia? Conte nos comentários.

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