O avanço do Curtailment no Brasil acende alerta no setor elétrico: cortes na energia solar e eólica já alcançam 20,6% em 2025, ampliando o desperdício de energia e pressionando investimentos, transmissão e a transição energética.
O Curtailment no Brasil alcançou 20,6% de toda a capacidade das usinas de energia solar e eólica integradas ao Sistema Interligado Nacional (SIN) em 2025. Segundo matéria publicada pelo site Além da Energia, da Engie, no dia 19 de fevereiro, o percentual representa mais que o dobro do índice registrado no ano anterior, quando os cortes somaram 9,3%. Em 2023, o patamar havia sido de 3,6%, e em 2022, apenas 0,5%. Neste artigo vamos detalhar tudo sobre o Curtailment e os seus impactos no mercado de energia limpa.
O que os dados do ONS revelam para a energia renovável?
A escalada dos cortes indica que o desperdício de energia renovável deixou de ser pontual e passou a configurar um problema estrutural. O fenômeno ocorre justamente em um momento em que o Brasil é frequentemente apontado como protagonista da transição energética, graças à forte expansão das fontes limpas.
Segundo dados divulgados pela imprensa com base em informações do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o volume de energia cortada em 2025 seria suficiente para abastecer cerca de 600 mil carros elétricos durante um ano. O montante também poderia suprir a demanda anual de 40 data centers de grande porte.
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Em outra comparação relevante, o total de energia associado ao Curtailment em 2025 foi equivalente a dez meses de produção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, a segunda maior do país, atrás apenas de Itaipu. Esses números revelam a dimensão do desafio e reforçam a necessidade de ajustes no planejamento do setor elétrico.
Crescimento acelerado da energia solar e eólica pressiona a rede e amplia o Curtailment
O avanço da energia solar e eólica no Brasil foi expressivo nos últimos anos. A queda nos custos de equipamentos, os leilões de contratação e as metas ambientais impulsionaram novos projetos em ritmo acelerado.
Entretanto, a expansão da geração não foi acompanhada, na mesma velocidade, pela ampliação da infraestrutura de transmissão. O resultado é um sistema que, em determinados horários, produz mais do que consegue transportar ou consumir.
O Curtailment surge, nesse contexto, como instrumento técnico para preservar o equilíbrio do SIN. Quando a oferta supera a demanda, o operador determina a redução temporária da geração para evitar sobrecarga, instabilidade e risco de apagões.
Embora seja um mecanismo legítimo de segurança, o crescimento para 20,6% em 2025 evidencia que o problema deixou de ser pontual. O aumento contínuo desde 0,5% em 2022 para 3,6% em 2023, 9,3% no ano seguinte e agora 20,6% indica uma tendência que preocupa investidores e especialistas.
Sobreoferta responde por 54% dos cortes e intensifica desperdício de energia limpa
O mapeamento do ONS aponta que 54% do Curtailment em 2025 foi motivado por sobreoferta de energia, classificada como “razão energética”. Isso significa que, em determinados momentos do dia, especialmente nos períodos de maior incidência solar, o sistema recebeu mais energia do que o consumo nacional exigia. Esse cenário cria um paradoxo. O país amplia sua matriz renovável, fortalece a transição energética, mas convive com crescente desperdício de energia.
Além da sobreoferta, 33% dos cortes foram atribuídos à confiabilidade do sistema. Nesse caso, entram restrições operacionais necessárias para garantir segurança elétrica, como limitações nas linhas de transmissão e requisitos técnicos de estabilidade. Os 13% restantes ocorreram por indisponibilidade externa, incluindo limitações impostas por fatores como condições meteorológicas extremas.
O conjunto desses dados demonstra que o Curtailment não é resultado de um único fator, mas de uma combinação entre expansão acelerada da geração, gargalos na transmissão e desafios operacionais.
Geração distribuída e o novo desafio para a transição energética
Outro elemento relevante é o crescimento da geração distribuída (GD). Diferentemente das grandes usinas de energia solar e eólica, que são despachadas e controladas pelo ONS, a GD não está sob comando direto do operador.
Estima-se que a geração distribuída já tenha alcançado 42 gigawatts de capacidade instalada. Esse volume representa uma parcela cada vez mais significativa da matriz elétrica e pode chegar a quase um terço do total brasileiro até 2029, caso o ritmo de expansão seja mantido.
A energia injetada por sistemas distribuídos, como painéis solares em telhados, é absorvida pela rede local. Quando somada à geração centralizada, pode agravar a sobreoferta em determinadas regiões.
Como consequência, as usinas de maior porte acabam sendo as primeiras a sofrer Curtailment, pois são as únicas efetivamente despachadas pelo operador. Se as condições atuais persistirem, a participação da sobreoferta no total de cortes, que foi de 54% em 2025, pode atingir 96% do Curtailment em três anos. Esse cenário amplia o risco de desperdício de energia e coloca pressão adicional sobre o planejamento da transição energética brasileira.
Curtailment, perdas econômicas e impactos nos investimentos em energia solar e eólica
O aumento do Curtailment traz consequências diretas para o ambiente de negócios. Usinas de energia solar e eólica que deixam de gerar também deixam de faturar, mesmo quando parte da energia é contratada. A imprevisibilidade dos cortes pode afetar o fluxo de caixa dos empreendimentos e elevar o risco percebido pelos financiadores. Em um setor intensivo em capital, qualquer incerteza adicional impacta o custo de financiamento.
Além disso, o desperdício de energia limpa representa ineficiência econômica. Recursos naturais abundantes, como sol e vento, deixam de ser plenamente aproveitados. Isso reduz o potencial de competitividade do Brasil em setores que dependem de energia renovável abundante, como produção de hidrogênio verde e data centers. Em um contexto global de descarbonização, manter níveis elevados de Curtailment pode comprometer a credibilidade do país como polo de investimento na transição energética.
Gargalos na transmissão e limitações estruturais do Sistema Interligado Nacional
Grande parte das novas usinas de energia solar e eólica está localizada em regiões com alto potencial, como o Nordeste. Entretanto, os principais centros consumidores estão em outras áreas do país.
A infraestrutura de transmissão nem sempre acompanha o ritmo da expansão da geração. Linhas congestionadas e restrições operacionais aumentam a necessidade de Curtailment para preservar a estabilidade do sistema.
O SIN foi estruturado historicamente com forte predominância hidrelétrica. A inserção acelerada de fontes variáveis exige adaptações tecnológicas, reforço de subestações e novas interligações. Sem esses investimentos, o desperdício de energia tende a crescer, mesmo que o país continue ampliando sua capacidade instalada renovável.
Caminhos técnicos para reduzir o desperdício de energia e fortalecer a transição energética
Especialistas apontam que a redução do Curtailment passa por uma combinação de soluções. A expansão da transmissão é fundamental para ampliar a capacidade de escoamento da energia solar e eólica.
O armazenamento de energia também ganha relevância. Sistemas de baterias e outras tecnologias podem absorver a produção excedente e liberá-la em horários de maior demanda, reduzindo o desperdício de energia.
Outra alternativa é estimular a flexibilidade do consumo. Tarifas diferenciadas e programas de resposta à demanda podem incentivar consumidores a utilizar mais energia nos horários de maior geração renovável.
A modernização digital da rede elétrica, com maior integração de dados e automação, também contribui para otimizar a operação do sistema e mitigar o crescimento do Curtailment.
O equilíbrio entre segurança do sistema e eficiência econômica
É importante reconhecer que o Curtailment não é, por definição, um erro operacional. Ele cumpre papel essencial na preservação da estabilidade do SIN. Sem esse mecanismo, o risco de apagões poderia aumentar em momentos de sobreoferta.
O desafio está no patamar alcançado. Quando os cortes atingem 20,6% da capacidade das usinas de energia solar e eólica, o tema deixa de ser apenas técnico e passa a ter implicações estratégicas. O avanço do desperdício de energia em meio à expansão renovável exige respostas coordenadas entre governo, reguladores, operadores e investidores.
O que o avanço do Curtailment revela sobre o futuro da matriz elétrica brasileira
O crescimento do Curtailment em 2025 sinaliza que a expansão da energia solar e eólica precisa ser acompanhada por planejamento sistêmico. A transição energética brasileira não depende apenas de instalar mais capacidade renovável, mas de integrar essa produção de forma eficiente.
Os números mostram uma trajetória acelerada de cortes: 0,5% em 2022, 3,6% em 2023, 9,3% no ano seguinte e 20,6% agora. Se nada for feito, a participação da sobreoferta pode chegar a 96% do total em três anos.
O Brasil possui vantagens competitivas claras em fontes renováveis. No entanto, transformar esse potencial em liderança sustentável exige infraestrutura robusta, armazenamento, inovação tecnológica e regulação adequada.
Reduzir o Curtailment significa diminuir o desperdício de energia, aumentar a eficiência econômica e consolidar a posição do país como protagonista da transição energética global.


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